ENTRETENIMENTO
22/11/2018 07:55 -02 | Atualizado 22/11/2018 08:52 -02

Nicolas Prattes brilha no irregular 'O Segredo de Davi'

Interpretação do jovem ator global é o grande destaque em suspense com boas ideias, mas que escorrega em armadilhas narrativas.

Primeiro papel de Nicolas Prattes no cinema, 'O Segredo de Davi' estreia nos cinemas nesta quinta-feira (22).
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Primeiro papel de Nicolas Prattes no cinema, 'O Segredo de Davi' estreia nos cinemas nesta quinta-feira (22).

Desde sempre, gêneros como terror e suspense nunca foram muito respeitados no Brasil. Por puro preconceito, o desbravador José Mojica Marins — mais conhecido por sua persona cinematográfica, o Zé do Caixão — era motivo de piada para grande parte da crítica, conseguindo algum respeito apenas quando sua obra foi "descoberta" nos Estados Unidos, na primeira metade da década de 1990.

Mas para nossa alegria essa realidade vem mudando. Apenas em 2018, 2 filmes de terror brasileiros estrearam com boa repercussão no circuito nacional: As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, que acumulou prêmios em festivais pelo mundo; e Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida.

Mais para suspense psicológico que terror, O Segredo de Davi, estreia de Diego Freitas em longas metragens, e que entra em cartaz nesta quinta (22) nos cinemas, seria mais um filme a entrar nessa lista? Estrelado por Nicolas Prattes, a produção tem tudo para fazer algum barulho entre o público brasileiro. Para o bem e para o mal.

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Nicolas Prattes, André Hendges, João Côrtes e Giulia Ouro em cena de "O Segredo de Davi".

Se por um lado o filme traz algumas ótimas ideias e um excelente trabalho de um ator que hoje é conhecido apenas como "o novo galã de novela das 7", por outro escorrega em algumas armadilhas técnicas, buscando o suspense meio na marra, por meio de artifícios narrativos que atrapalham o ritmo da história.

No filme, Davi (Nicolas Prattes) é um tímido estudante de cinema que acaba de completar 21 anos. Ele possui um passado sombrio, quando algo terrível aconteceu com sua família, mas que ele, traumatizado, bloqueou em sua memória. Voyeur, ele filma escondido as pessoas. Entre elas um colega mais velho da faculdade, Jônatas (André Hendges), e Maria (Neusa Maria Faro), uma idosa solitária que mora em seu prédio. Atormentado por seus demônios do passado, Davi acaba cruzando a linha entre realidade e delírio quando mata Maria, que acaba "renascendo" como sua avó que lhe dá conselhos de como eliminar pessoas que têm um papel chave na tragédia que aconteceu com ele na infância.

A relação de Davi com sua "avó" é a coisa mais interessante de O Segredo de Davi. A química entre o iniciante Prattes – em seu primeiro papel no cinema – e a veterana Neusa Maria Faro funciona muito bem. E é exatamente dessa interação que Prattes desabrocha como uma das boas surpresas do ano no cinema brasileiro. Ele consegue passar a confusão da mente atormentada de Davi com eficiência, sem cair na caricatura e sem ter que ficar verbalizando para explicar o que está sentindo.

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O cineasta Diego Freitas dirige cena de "O Segredo de Davi".

O problema é que todo o resto do filme não segue essa pegada mais "naturalista" da interpretação de Prattes, em que a imagem tem muito mais importância que a palavra para "explicar" o que acontece na tela. Por mais que (louvavelmente) ele tente, Freitas acaba truncando a narrativa para gerar o suspense, deixando em segundo plano ferramentas como estilo e trilha sonora, por exemplo, para criar a atmosfera do suspense, algo que podemos ver em obras de Alfred Hitchcock, Roman Polanski ou Brian De Palma, por exemplo.

Nada grave, pois Freitas está só começando. Mesmo assim, ele mostra talento com boas tomadas e algumas soluções criativas. Se um dia terá o currículo de algum desses mestres do gênero só o tempo dirá, mas O Segredo de Davi, mesmo tendo seus problemas, é uma bela estreia. Tanto para ele quanto para Nicolas Prattes, que demonstra potencial para alçar voos bem mais altos que papéis de mocinhos em novelas água com açúcar.