MULHERES
20/11/2018 04:00 -02 | Atualizado 20/11/2018 04:00 -02

Olívia Santana, 1ª deputada estadual negra da Bahia, quer 'ampliar a porta' do poder

Estado com o maior número de pessoas que se declaram negros ou pardos nunca tinha eleito uma negra para a Assembleia.

Aos 51 anos, ela conquistou mais de 57 mil votos e será a 1ª mulher negra a ocupar uma das 63 cadeiras na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).
Reprodução/Arquivo Pessoal/Facebook
Aos 51 anos, ela conquistou mais de 57 mil votos e será a 1ª mulher negra a ocupar uma das 63 cadeiras na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).

Mais de 80% da população da Bahia se declara negra ou parda, mas só a partir de 2019 a Assembleia Legislativa estadual terá uma mulher negra ocupando uma de suas 63 cadeiras.

A professora Olívia Santana (PCdoB), filha de uma empregada doméstica e um marceneiro e com uma trajetória de mais de 30 anos no universo da política, foi eleita deputada estadual com mais de 57 mil votos em 7 de outubro e define sua vitória como "um momento muito mágico".

"A gente conseguiu emplacar o meu nome e vai ter preta na assembleia, sim", disse Santana, em entrevista ao HuffPost Brasil.

No último Censo do IBGE, de 2010, cerca de 80,2% da população da Bahia se declarou negra ou parda. Hoje, a Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) tem apenas 2 representantes que se identificam como negros: Pastor Sargento Isidório (Avante) e Zé Raimundo (PT), segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

"Embora muita gente receba isso com alegria, 'poxa, a primeira mulher negra a chegar na assembleia', eu penso que a gente tem que ter uma visão do quão chocante é isso em um estado como o nosso", diz.

Para Santana, 51 anos, o que explica a eleição tardia de uma mulher negra para a Assembleia justamente no estado mais negro do Brasil é que "a população foi historicamente educada para pensar que espaços de poder, como a política, pertencem exclusivamente aos homens". Ainda segundo dados do TSE, as mulheres representam apenas 11% das vagas na atual composição da Alba.

"Eu penso que é preciso usar a minha presença para ampliar a porta, sabe? Fazer com que outras mulheres negras acreditem. Que elas olhem e digam: 'se a Olívia chegou até lá eu também posso'", afirma. Para ela, é preciso "desconstruir esse ideário de que é comum o lugar da mulher negra ser o da trabalhadora doméstica, o do trabalho braçal, do subemprego, de estar nos bastidores, sempre servindo".

Uma década como vereadora

Mulher negra, feminista, Santana já trabalhou de servente e merendeira no passado. Militante do movimento negro há mais de 30 anos, em 2019 a professora assumirá como deputada estadual após 3 tentativas frustradas de se eleger para o cargo: em 2002, 2010 e 2014.

No entanto, o envolvimento de Santana com a política começou ainda em 1988, quando foi presidente do Diretório Acadêmico de Pedagogia - especialidade em que se formou - e secretária de Educação e Cultura do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Desde então, já ocupou os cargos de secretária de Educação e Cultura de Salvador e secretária do Trabalho no governo do estado. Foi também vereadora por 10 anos.

Santana, que também já dirigiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres no governo de Rui Costa (PT), diz que ações para diminuir os índices de violência contra as mulheres no estado e também o empoderamento feminino serão prioridades em seu mandato - além de zelar pela juventude negra. "Hoje a agenda da violência contra mulheres, negros e pobres está posta. E a minha luta é antirracista. O feminismo e a luta por direitos humanos entram comigo pela porta da frente da Assembleia", afirma.

Para a futura deputada, "não existe emancipação das mulheres, dos negros e pobres, sem que haja também o empoderamento econômico" de cada um. Ela afirma que muitos dos projetos que serão apresentados por ela terão relação com a chamada economia solidária. "A gente tem que ter formas criativas para criar empregos. Mas não só isso, é uma questão de valorizar a capacidade empreendedora da população."

Negras e negros no espaço de poder

Nestas eleições, o Brasil avançou na representação feminina. Além da eleição de Olívia Santana, na Bahia, houve um aumento da bancada feminina na Câmara, a eleição da primeira deputada estadual trans em São Paulo e da primeira indígena para o Legislativo, além da vitória nas urnas de aliadas da vereadora Marielle Franco, executada em março de 2018, como Mônica Francisco e Talíria Petrone.

Para Santana, o resultado é positivo, mas ainda é preciso mais. "A democracia nunca será plena se não tiver a diversidade do povo refletida nas estruturas; e isso passa necessariamente por negras e negros compartilhando espaços de poder", afirma. "Eu assumo o cargo com uma responsabilidade enorme e também com o que Paulo Freire nos ensinou: não podemos perder a nossa capacidade do espanto. Se não for assim, a gente não muda a realidade."