22/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 27/11/2018 16:59 -02

Elen Ferreira, a pedagoga que trabalha para que o racismo não apague histórias

Ela criou projeto em que visa empoderar alunos (e faz o mesmo com suas filhas): "Minha maior dificuldade é fazer com que meus alunos se percebam vítimas de violência", conta ao HuffPost Brasil.

Elen Ferreira é a 260ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Elen Ferreira é a 260ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Como muitas mulheres negras, Elen Ferreira, de 29 anos, descobriu o seu lugar no mundo depois de ter mais contato com leituras que discutem as questões raciais. Para ela, esse processo teve início na faculdade de Pedagogia. Ela, estudante da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), percebeu que a lei 10.639, que garante o ensino da história afro-brasileira nas escolas brasileiras, não era discutida em nenhum momento entre os estudantes -- muito menos professores. O "apagamento das falas" fez com que Elen desse o primeiro passo rumo a algo que, hoje, guia sua vida tanto profissional quanto pessoal. Hoje, Elen trabalha para dar visibilidade às narrativas da História pouco abordadas nas escolas. Da sala de aula à própria casa, com as 3 filhas, ela é guiada por um único propósito. Para ela, "educação é construção".

Quando eu percebo que a Helena já é capaz daquilo, entendo que crianças podem discutir suas questões.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O "apagamento das falas" fez com que Elen começasse ali um trabalho com narrativas invisibilizadas.

Foi ali. Na universidade. Elen viveu experiências que mudou a forma como ela enxergava não só o mundo, mas a si mesma. Se antes sua identidade era marcada pela vivência do racismo, durante o período em que frequentou a UFRJ passou a conhecer sua história e mudar suas referências sobre a própria cultura negra, suas origens, o lugar de onde veio. "É muito traumático. É uma das coisas que nos afasta de conhecer a própria história. Nosso primeiro contato com ela [cultura africana] é algo inferiorizado", afirma.

Naquela época, junto com outros amigos negros, Elen organizou o "Coletivo Luiza Mahin" na universidade. Lá, ela construiu um espaço pra discutir sua negritude (e como essa negritude também se dava no campo acadêmico). Mas, depois de um tempo, sentiu que era hora de sair dos muros da universidade. Isso aconteceu quando viu suas amigas cortando os cabelos quimicamente alisados e dando vez às verdadeiras madeixas crespas. Ela conta que teve de lidar com uma realidade até então rechaçada: "Fiquei questionando que eu também não conhecia meu próprio cabelo. Quando vejo no cabelo das amigas o retrato da mulher que eu tentei apagar em mim, na minha filha, eu começo a me deparar com essas questões e penso que elas deveriam sair dos espaços da universidade."

Eles diziam que o segmento racial na escola era proporcional, metade de branco e negros, mas a minha turma era 95% negra.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Elen organizou o Coletivo Luiza Mahin, com outros amigos que sentiam falta de um espaço para discutir a negritude.

Após se formar, a nível médio, como professora, Elen começou a lecionar em uma escola municipal, lugar onde suas filhas mais velhas, as gêmeas Eduarda e Helena, também foram estudar. Era o ano de 2015. Na unidade de ensino, os cabelos trançados de Helena foram alvo de racismo de um colega na escola. Para a surpresa de muitos, a menina, então com 7 anos, não precisou chamar a mãe. Helena teve coragem suficiente para lidar da melhor forma com o problema. Foi aí, então, que Elen enxergou o episódio um ponto de partida para iniciar um trabalho que sempre quis fazer. "Quando eu percebo que a Helena já é capaz daquilo, entendo que crianças podem discutir suas questões", aponta.

E foi aí que ela percebeu que, trabalhar com crianças de 3, 4 anos para desenvolver educação sobre racismo. A semente do diálogo com os alunos foi plantada ali mesmo, nessa primeira escola que Elen lecionou. Rodas de conversa com os alunos, a partir da discussão sobre violência, com alguns alunos mais velhos, teve retorno positivo quando eles permitiram falar e ser ouvidos pela professora e pelos colegas. No ano seguinte, em outra escola municipal, coube a Elen lecionar para a turma "que ninguém queria", os reprovados, com idade de 11 a 15 anos.

"Eles diziam que o segmento racial na escola era proporcional, metade de branco e negros, mas a minha turma era 95% negra. É um indicativo que os alunos negros são os mais mais reprovados ou vitimizados pelo sistema educacional que não permite que eles avancem na escola. Essa turma muda a minha vida a partir do momento em que vou entender como o sistema educacional pode vir a ser excludente, mesmo após a universalização do ensino no Brasil", avalia.

Minha maior dificuldade é fazer com que meus alunos se percebam vítimas de violência.

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Nesse sentido, coube a Elen lecionar para a turma "que ninguém queria", os reprovados, com idade de 11 a 15 anos.

Assim, ela retomou o trabalho que fazia nas outras escolas, com temas amplos para fazer com que os alunos entendam a problemática que os cerca. "Minha maior dificuldade é fazer com que meus alunos se percebam vítimas de violência. Se eles não se percebem enquanto pessoas que sofrem violência, eles não pedem ajuda. Essa turma me fez enxergar isso", analisa a pedagoga.

Depois da morte de um aluno dessa turma, por meningite, Elen se propôs a consolidar aquele espaço como um em que os jovens pudessem dividir também suas dores, e não ignorá-las. A partir dali, o método da professora com seus alunos passa a ser sempre baseado na escuta, no diálogo e debate sobre racismo a partir de fatos constatados por eles. Para aquele espaço, Elen levava autores com realidades próximas a deles: "Os alunos se identificam a ponto de escrever. Porque essa vivência é também a vivência deles. Ele começam a pegar o ritmo, a sonoridade, a escrita. E todos começam a questionar."

Com o avanço dos debates e dos alunos sentindo-se confortáveis construir suas próprias narrativas, Elen organizou a 1ª semana de leitura naquele espaço escolar. "Diversos setores da sociedade vieram à escola falar sobre a questão racial e uma educação antirracista. Falamos de autoestima, na questão estética, e também de literatura. A gente precisava dizer pra eles que a literatura, a escrita e a leitura não devem estar tão distantes da nossa prática, porque elas registram as nossas histórias". Os resultados dos trabalhos com os alunos, que produziram, sim, suas próprias narrativas, foi reconhecido e premiado pela escola.

O racismo, infelizmente, com convicção, é o maior problema que temos na rede municipal de ensino.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Minha maior dificuldade é fazer com que meus alunos se percebam vítimas de violência."

E nem prêmios foram suficientes para que Elen pudesse continuar o seu trabalho. Dispensada na escola em que dava aulas, hoje ela trabalha em um programa que tem objetivo de integrar ambientes escolares e de ensino com equipamentos dos Sistema Único de Saúde (SUS)."Trabalho pensando e discutindo ações referentes a educação e racismo. O racismo, infelizmente, com convicção, é o maior problema que temos na rede municipal de ensino. Não são questões sociais, são questões raciais. Hoje estamos nesse lugar de discutir isso com todas as escolas. No fim das contas, foi uma caminhada saudável", avalia a professora.

Meu maior objetivo é capacitar as crianças para produção literária de suas próprias vivências.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Elen afirma que o momento político que o Brasil vive fortalece ainda mais seu objetivo como pedagoga.

Além das escolas, Elen não deixa essa discussão fora de sua casa. Mãe de Eduarda e Helena, hoje com 10 anos, e de Elisa, de 4, ela preocupou-se com uma criação inclusiva e ancorada na igualdade. Não foi tão fora da curva o processo de trabalhar também o empoderamento das narrativas com as filhas, já que encontrou em outro projeto, o "Pretinhas Leitoras", uma oportunidade: com um canal no Youtube, crianças discutem literatura a partir da produção antirracista de conhecimento. Elen destaca que suas filhas, protagonistas do canal, não tem um "gene especial". Mas sentiram a necessidade de algo que não existia até então: um canal que conversasse sobre racismo com crianças. "Então eu disse para elas que quando a gente quer uma coisa, a gente faz."

Ainda assim, Elen conta que seu objetivo continua sendo é capacitar as crianças para produção literária de suas vivências. E também que nosso povo se sinta, desde cedo, empoderado o suficientes para registrar as próprias histórias. Eu tenho medo que as nossas histórias sejam apagadas. Já tem gente falando que a escravidão não existiu. Se a gente passar 30 anos sem falar da nossa história, em 30 anos não existiu escravidão no Brasil. Eu preciso que desde muito cedo as crianças se sintam potentes, em se entenderem enquanto importantes, porque quando você se considera alguém, você acha que sua história merece ser registrada."

Escolher trabalhar com as crianças, seja na sala de aula ou em casa, não foi por acaso. A pedagoga acredita que os pequenos guardam a potência necessária para mudar os rumos de uma sociedade desigual. "Talvez a gente, a partir da infância, consiga mudar esse caminho. Eles são os grandes dinamizadores do saber da nossa contemporaneidade e, de fato, capazes de unir mentes tão fechadas e, de alguma forma, resistentes a uma diálogo que traga o novo. Educação é construção, e nada melhor do que as crianças para mostrarem isso para a gente", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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