ENTRETENIMENTO
20/11/2018 20:48 -02 | Atualizado 20/11/2018 20:53 -02

Adelia Sampaio, a cineasta preta e pobre que ousou seguir seu sonho

Primeira diretora negra de um longa metragem no Brasil, Adelia apresenta seu filme, "Amor Maldito", no Festival Mix Brasil.

A diretora Adelia Sampaio fala sobre sua vida e carreira em sessão no Dia da Consciência Negra.
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A diretora Adelia Sampaio fala sobre sua vida e carreira em sessão no Dia da Consciência Negra.

Em uma tarde cinza e chuvosa de 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, uma senhora de 75 anos caminha devagar até a área na frente do telão do Cinesesc, em São Paulo, para cumprimentar as pessoas que estavam lá para ver seu filme, Amor Maldito, no Festival Mix Brasil. Aquela mulher é Adelia Sampaio, a primeira negra a dirigir um longa metragem no País.

Filha de empregada doméstica, Adelia foi de sua cidade natal, Belo Horizonte, para o Rio de Janeiro aos 6 anos. Mas a patroa de sua mãe acabou mandando ela e sua irmã para instituições longe do convívio da mãe. Adelia foi parar em um asilo em Santa Luzia (MG) e reencontrou sua mãe só muitos anos depois.

Já vivendo no Rio, no fim da década de 1960, foi trabalhar como telefonista na DiFilm, distribuidora brasileira ligada ao Cinema Novo. E foi a partir desse momento que começou a sua jornada em busca de seu grande sonho: ser cineasta.

O Huffpost Brasil conversou com Adelia sobre sua vida e carreira enquanto seu primeiro e único longa, Amor Maldito tinha sua primeira sessão na 26ª edição do Festival Mix Brasil. Lançada em 1984, a produção conta um caso de amor entre duas mulheres, a executiva Fernanda (Monique Lafond) e a ex-miss Sueli (Wilma Dias), que acaba em tragédia.

*Amor Maldito tem outra exibição no festival na quinta (22), no Instituto Moreira Salles, às 21h.

Huffpost Brasil: Como foi sua trajetória até chegar à DiFilm?
Adelia Sampaio: Aos 5 anos eu fui tirada da minha mãe. Fui colocada em um asilo longe de Belo Horizonte. Eu guardava um sapatinho porque acreditava que ele pudesse me levar de volta. O tempo foi passando e quando eu estava com 13 anos a minha mãe apareceu. Ela contou que a patroa colocou na conta dela várias despesas, inclusive a minha viagem para o asilo. E o que ela ganhava não dava para cobrir essa dívida. Ela levou anos para quitar. Ela foi com a minha irmã, que também tinha sido separada dela. Elas foram me buscar. Essa coisa do destino é muito doida, porque a partir daquele momento, a primeira coisa nova que aconteceu na minha vida foi quando eu fui para o Rio para reencontrar a minha irmã, Eliana Cobett. Ela trabalhava em uma empresa que distribuía filmes russos. E ia ter um lançamento. Eu nunca tinha entrado em um cinema e muito menos visto um filme. Ela queria me levar, mas eu tinha medo de escuro. Ela insistiu e sentou do meu lado para eu ficar tranquila. O filme era Ivan, o Terrível [de Serguei Eisenstein]. Eu fiquei enlouquecida, encantada com o filme. Quando terminou, virei para ela e disse: É isso que eu vou fazer. E ela respondeu: Você está louca? Nós somos filhas de uma empregada doméstica. Mamãe nem pagou toda a dívida dela. Você vai é trabalhar para ajudar a pagar. Comecei a trabalhar em lojas, mas sempre buscando uma maneira de chegar ao cinema. Aí um dia eu vi um anúncio que dizia: Procura-se telefonista. Empresa cinematográfica. Disse para mim mesma: Eu vou lá e essa vaga é minha.

E como foi passar de telefonista para diretora de cinema?
Chegando na DiFilm, acabei descobrindo que aquela empresa, que nem parecia uma empresa pra mim, era o reduto do Cinema Novo. Caí no meio daquele grupo incrível de pessoas e fui abraçada por eles. Todos ali eram praticamente da minha idade e estavam lá com o mesmo sonho que eu, de ser cineasta. Era um grande aprendizado para mim quando eles narravam as histórias que queriam contar em seus filmes. Eu ouvia o Glauber [Rocha] contando as ideias dele, falando sobre as sequências, cortes... E eu ficava lá, ouvindo tudo, atenta a cada detalhe. Fiquei anos escutando essas histórias até que um dia, o Barreto [Luiz Carlos Barreto, um dos maiores produtores do cinema brasileiro], que era quem comandava tudo disse: Vou promover você. Você ainda vai ser telefonista, mas não fará mais esse trabalho sozinha, mas também vai cuidar do cineclube [sessões de cinema promovidas pela DiFilm]. Fazia as duas funções sempre com aquele objetivo de me tornar cineasta. Mas na minha, porque minha mãe sempre me dizia: Não fale sobre o seu sonho para ninguém. Porque pobre e preto não tem vez.

Minha mãe sempre me dizia: Não fale sobre o seu sonho para ninguém. Porque pobre e preto não tem vez.

E o próximo passo?
Fui fazer um curso de continuísmo e acabei pegando um trabalho de continuísmo em um filme do Pedro Rovai. Foi minha primeira experiência em um set. E logo com o Pedro Rovai [diretor e produtor da Boca do Lixo paulistana que voltou à direção já bem veterano com o infantil Tainá - Uma Aventura na Amazônia]. Você não sabe a loucura que era! Ele era louco, mas foi a partir dali que eu aprendi o que era um set de filmagem. É no set que você aprende. Aí começou a se espalhar a notícia que a telefonista da DiFilm também faz continuidade. A partir desse momento comecei a ser chamada para fazer de tudo, maquiagem, claquete... Minha irmã me encorajou a me demitir da DiFilm para abrir uma empresa com ela. Naquele momento, minha irmã já era uma grande produtora e me incentivou a já começar a pensar em fazer um curta. Eu logo disse: Mas negativo era muito caro! E ela me deu a ideia de falar com assistentes de filmagens para pegar pontas de filmes que são jogadas fora. Com esse material eu poderia fazer um curta. Comprei uma geladeira verde bem velha, e toda ponta de filme que pegava, guardava lá. Aguardando o momento certo.

Foi quando você filmou Denúncia Vazia [curta de 1979], certo?
Sim. Eu li um caso em um jornal sobre um casal de idosos que se matou porque não tinha para onde ir depois que o proprietário do apartamento em que moravam pediu o imóvel de volta, a tal 'denúncia vazia'. Eles deixaram um bilhete contando a história deles. Fiquei enlouquecida. Aquela história mexeu muito comigo. Escrevi o roteiro e fui atrás do [ator] Rodolfo Arena, que era uma baita ousadia, mas eu já o conhecia de outros filmes. Mesmo com aquele jeito grosso dele, ele me ajudou financiando o curta. Rodei Denúncia Vazia em uma semana. No final das contas, ele nem me cobrou a dívida. O curta entrou no circuito do Severiano Ribeiro passando antes do Nosferatu [versão de 1979, dirigida pelo alemão Werner Herzog] e deu uma renda absurda! Ganhei dinheiro com aquele filme. Logo com o meu primeiro curta! A partir daí segui fazendo curtas, mas sempre focando em fazer um longa.

E como foi para fazer Amor Maldito?
Fazer um longa é outra história. Acabei indo fazer um filme com o Luiz de Barros [veterano diretor carioca] porque o financiador exigiu que só bancaria o filme se ele trabalhasse com uma empresa produtora que tivesse uma diretora de produção. E nessas condições, na época, só tinha eu. Foi um filme complicado. O Lulu já tinha 87 anos, mas acabou dando certo. Ele, Ela, Quem? foi o último filme dele. A partir do momento em que entreguei o filme no prazo, a minha empresa passou a ter direito a um financiamento da Embrafilme. Montei a sinopse e o [José] Louzeiro aceitou fazer o roteiro. Quando apresentei o trabalho, foi uma pedrada na cabeça do povo, né. O projeto foi recusado porque foi considerado como propaganda homossexual. O que era ridículo.

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Cena do filme "Amor Maldito", de Adelia Sampaio.

Mas e aí, como você conseguiu se virar depois dessa recusa da Embrafilme?
É a energia cósmica de novo... Um longa não dava para fazer com pontas, como fazia com os curtas. Fui fazer um trabalho em Furnas e uma engenheira elétrica da empresa ficou maravilhada com a peça que eu montei com os funcionários da usina e queria financiar um filme para mim. Apertando aqui e ali, conseguimos. Ela fez até uma figuração no filme. Fizemos o primeiro longa brasileiro em sistema de cooperativa. E essa energia passa na tela. Pelo menos é o que eu sinto. Mas uma negra fazer um longa no Brasil... Foi difícil. Comecei a sofrer muita pressão. Até a minha mãe brigou comigo, porque ela não gostava de crente e eu coloquei ela fazendo figuração na cena do templo dos crentes. Ela ficou de mal comigo [risos]. Mas uma coisa boa é que toda vez que eu vejo o filme, eu vejo ela lá, imortalizada naquela cena.

Só vão acreditar em você se você mesmo acreditar em você.

E como foi com o público?
Com o filme pronto, vim para São Paulo porque era muito amiga de um dono de salas de cinema da cidade que topou exibir o filme, mas com a condição de divulgar o filme como uma pornochanchada. Não gostei da ideia, mas a equipe achou que tudo bem. Ele lançou o filme em duas salas. Aí o Leon Cakoff [crítico e criador da Mostra Internacional de São Paulo] viu o filme e ficou revoltado. Escreveu meia página no jornal falando sobre o absurdo que era divulgar o Amor Maldito como pornochanchada, porque ele achava que o filme era muito mais que uma pornochanchada. Aquilo deu o que falar e o filme acabou sendo exibido em 10 salas. Com essa repercussão, no Rio foi tranquilo conseguir salas.

E o caso do prêmio nos Estados Unidos?
Tivemos um convite para um festival Lesbian/Gay em São Francisco (EUA) e a Embrafilme não quis mandar meu filme. Acabei dando um jeito de mandá-lo clandestinamente para o festival morrendo de medo de ser presa, mas mandei. Gastei uma fortuna e nem tinha esse dinheiro, mas ganhei um prêmio de menção honrosa. E o prêmio era em dólar. Acabou que tudo deu certo. Todo mundo se deu bem [risos].

Um filme como Amor Maldito, que sofreu tanto na sua época com os discursos moralistas passando agora no Mix Brasil e o País nesse momento de discussões acaloradas sobre moral e bons costumes. Você, que viveu intensamente a época da ditadura militar, o que sente nesse momento?
O cosmo me compensa com o Amor Maldito. Eu tenho consciência que nunca vou conseguir fazer um longa com o Bolsonaro no poder. E como já tenho 75 anos, vou seguir fazendo curtas mesmo.

Enquanto não nos abrirmos para nos unir e ajudar uns aos outros, vamos sempre ficar cada um na sua e essa situação não vai mudar nunca.

Aliás, você lançou um curta neste ano mesmo O Mundo de Dentro [que estreou no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo em agosto de 2018] depois de um hiato bem grande. Como foi esse período?
Pois é, uma história engraçada. Para você ver como é o destino. Depois de Amor Maldito tivemos uma trombada com o Collor. O cinema no Brasil praticamente morreu. Mas, eu fui salva exatamente pelo Amor Maldito. O reitor de uma faculdade no Rio gostou muito do filme e quis exibi-lo em um encontro de cinema em Águas de Lindóia. Uma cidade do interior de Minas, super conservadora. Eu estava morrendo de medo, mas o elenco topou ir. Eu pensava: Vão jogar bosta na gente. Mas no papo depois da sessão fomos bem recebidos. E naquela plateia estava um garoto lourinho chamado Miguel, que ainda não era o Miguel Falabella, estava lá e adorou o filme. Anos depois, ele foi dar carona para um moço que era amigo da minha filha e que estava hospedado em casa. Chegando lá, ele pediu para subir porque queria ir ao banheiro. Ao ver minha foto na casa, ele, folgado como é, sentou no sofá e ficou me esperando. Quando eu cheguei lá ele me falou daquela sessão em Águas de Lindóia. Ficamos conversando a noite toda e ele acabou me convidando para ser assistente de direção de um espetáculo dele. Topei e ficamos trabalhando juntos por 10 anos. Viajei para vários países com espetáculos dele. O último que fizemos juntos foi Império [musical de 2007]. Resolvi voltar aos curtas porque a minha geração era muito combativa, coisa que o jovem hoje não é. Então eu acho que eu devo levar essa minha experiência para a tela, porque muita coisa da minha época está sendo discutida agora.

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Filme de 1984, "Amor Maldito" foi o primeiro e único longa de Adelia Sampaio.

Atores negros já estão bem estabelecidos, mas na direção não. Por que isso?
Acho que falta união nesse momento. Nós, negros, temos de nos unir. Parar de pensar apenas no eu e nos unir para encarar essa briga pesada que nós lutamos há tanto tempo. Da nova geração tem a Sabrina Fidalgo, por exemplo. Ela fez um belíssimo curta, Rainha (2016), e já conseguiu financiamento para um longa. Mas eu só soube que ela tinha conseguido o financiamento depois que tudo foi resolvido. Enquanto não nos abrirmos para nos unir e ajudar uns aos outros, vamos sempre ficar cada um na sua e essa situação não vai mudar nunca.

Como você encara o fato de ser a primeira diretora negra a fazer um longa no Brasil?
Eu encaro isso com muita leveza. Nunca quis fazer disso um culto. Eu era uma vassoura velha encostada em um armário em um canto da casa quando uma historiadora de Brasília aponta que eu sou a primeira diretora negra a fazer um longa no Brasil. Aí começou a chover e-mails para mim. Foi muito bom ter esse reconhecimento porque eu lutei muito na minha vida. Sempre acreditei em mim. Minha mãe mesmo me dizia: Você tem que acreditar em você. Só vão acreditar em você se você mesmo acreditar em você. Não tenho vaidade nenhuma, mas me faz feliz saber que eu consegui alcançar o meu sonho, que para uma mulher negra e pobre é muito, muito difícil.