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19/11/2018 15:26 -02 | Atualizado 19/11/2018 15:34 -02

Saramago e outros 4 autores que poderiam ser banidos pelo Escola Sem Partido

Escritor, que chamou a esquerda de estúpida, é um dos principais alvos dos que lutam contra a doutrinação nas escolas.

A Escola sem Partido, controversa proposta que determina que professores não poderão usar sua posição para fazer apologia a correntes políticas, ideológicas ou partidárias, está prestes a ser votada na Câmara dos Deputados. Nesta terça-feira (20), a comissão especial sobre o tema volta a se reunir para apreciar o texto.

A votação, no entanto, tem sido constantemente adiada por causa da polêmica em torno da matéria. Há uma ala de políticos e professores contrária ao projeto que o apelidou de "Lei da Mordaça". Os críticos argumentam que a Lei de Diretrizes Básicas da Educação estabelece que o ensino deve ser ministrado com "respeito à liberdade e apreço à tolerância" e que a Constituição prevê o "pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas" nas escolas.

Já os que são favoráveis ao texto alegam que o objetivo é acabar com os abusos dos professores. Fundador do movimento Escola sem Partido, o advogado Miguel Nagib defende que temas como LGBTfobia e violência contra a mulher sejam abordados por propaganda estatal e não na escola. Na avaliação dele, o professor que violar o direito do aluno pode eventualmente ser processado por dano moral.

Além dos livros didáticos, clássicos da literatura e do estudo das ciências sociais também entram na mira dos defensores do projeto da Escola sem Partido. Com base em artigos publicados no site do projeto, listamos cinco autores que poderiam ter sido banidos das escolas, caso o projeto já estivesse em vigor.

José Saramago

Prêmio Nobel de Literatura, o escritor português é autor de obras como Ensaio sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Intermitências da Morte. Militante histórico do Partido Comunista Português, a veia política do autor é um de seus destaques.

Embora seja lembrado pelo flerte com o socialismo, Saramago foi um dos principais críticos da esquerda. "Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda", afirmou em 2007, 2 anos antes de morrer.

Fernando Castillo/CON via Getty Images
José Saramago é autor de obras como "Ensaio sobre a Cegueira" e "Intermitências da Morte".

Em um dos artigos publicados pelo site da Escola sem Partido, Saramago é descrito como "um autor sem nenhuma preocupação metafísica, antirreligioso, anticatólico, marxista de carteirinha, defensor de ditaduras comunistas e de regimes populistas e demagógicos".

Antonio Gramsci

Autor italiano, Antonio Gramsci foi um dos grandes defensores de uma transformação social por meio de uma mudança da mentalidade das pessoas. Para isso, ele dizia que só as escolas eram espaço no qual o cidadão pleno poderia ser formado, pois por meio da educação as pessoas poderiam construir sua visão de mundo.

Cofundador do Partido Comunista Italiano, o autor, entretanto, é uma das principais influências do teórico do liberalismo Giovanni Arrighi e de Norberto Bobbio, defensor da social democracia e crítico de Marx. No Brasil, um de seus seguidores foi Paulo Freire, que colocou em prática as ideias do autor italiano.

De Agostini/Getty Images
Co-fundador do Partido Comunista Italiano, o italiano Antonio Gramsci também é influência de pensadores liberais.

Para o movimento, porém, a técnica de Gramsci pode ser usada para emburrecer os estudantes. É isto o que argumenta um dos vídeos publicados na plataforma da Escola sem Partido. Para o grupo, foi com Gramsci que os socialistas perceberam a distância de uma revolução armada e resolveram dominar a cultura.

Paulo Freire

Patrono da educação brasileira, Paulo Freire seria um dos primeiros a serem banidos das escolas se a Escola sem Partido estivesse em vigor. Autor do principal método de combate ao analfabetismo usado no Brasil, no qual se usam palavras do cotidiano para ensinar os alunos, o educador foi responsável pelo processo de alfabetização de milhares de pessoas na década de 1960.

Uma das principais queixas de Freire era a de que as escolas tradicionais não deixavam os alunos pensarem. Eles eram apenas repositórios do conhecimento. O fato e o viés de esquerda acabou pesando contra o autor. Simpatizantes da Escola sem Partido citam a obra Pedagogia do Oprimido para justificar as críticas. Para eles, há no método do educador uma estratégia socialista.

WikiCommons
Paulo Freire é autor de "Pedagogia do Oprimido", um dos livros criticados pelo movimento Escola sem Partido.

"Sua 'pedagogia do oprimido' nada mais é do que transportar Marx para a sala de aula. Os 'professores' passaram a se enxergar não como transmissores de conhecimento objetivo ou como tutores para instigar o pensamento próprio nos alunos, mas como transformadores sociais, como salvadores de almas, como libertadores de escravos burgueses", cita um dos textos críticos a Freire.

Karl Marx

O alemão Karl Marx, responsável pela origem do termo marxismo e um dos autores do Manifesto do Partido Comunista, é um dos fundadores da Sociologia. O estudo das ciências sociais é fundamentado em termos e conceitos do autor cunhados em obras como O Capital e A Ideologia Alemã.

Apesar de ser um dos principais nomes para a esquerda, no campo da ciência, Marx foi responsável por termos usados e estudados também por pensadores liberais, assim como outro fundador da Sociologia, o alemão Max Weber.

Marx trouxe para o campo da política moderna a interpretação econômica da História. Para defensores da Escola sem Partido, entretanto, as ideias de Marx têm contaminado o ensino na rede pública.

PA Archive/PA Images
Karl Marx é um dos autores do Manifesto do Partido Comunista.

"No Brasil, hoje, as noções transmitidas de política e cidadania estão flagrantemente contaminadas de conceitos marxistas, particularmente no ensino de nível médio. O que se ensina nas aulas de História, Sociologia, Geografia, e mesmo em Literatura ou Filosofia, não passa de doutrinação", diz um dos textos na plataforma.

Milton Santos

Único brasileiro vencedor do Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia, Milton Santos ficou conhecido por ter sido um dos grandes questionadores do processo de globalização na década de 1990. Ele é autor de um dos grandes clássicos mundiais da Geografia O Espaço dividido, publicado em 1979, no qual aborda a economia urbana nos países subdesenvolvidos.

O problema é que o escritor segue a corrente de estudos da teoria marxista e é um dos grandes críticos ao capitalismo. E para os simpatizantes da Escola sem Partido, ele é ideólogo.

Reprodução/TV Brasil
Milton Santos é o único brasileiro vencedor do Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia.

"Ele defendia o socialismo real quando esse sistema já estava prestes a cair de podre. Isso é que é antever o futuro", diz um dos trechos. Outro argumenta que o sistema de ensino toma como naturais as afirmações que são "opinião política do autor".

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