COMPORTAMENTO
19/11/2018 09:06 -02 | Atualizado 19/11/2018 09:06 -02

O que há de positivo em estar indignado e como o sentimento é capaz de iniciar transformações

A emoção, muitas vezes considerada negativa, pode trazer resultados positivos no engajamento da sociedade.

A indignação atinge o seu ápice em meio às discussões políticas nas redes sociais.
NurPhoto via Getty Images
A indignação atinge o seu ápice em meio às discussões políticas nas redes sociais.

Estamos chegando ao final de 2018 e, talvez, o sentimento que tenha permeado a vida de qualquer brasileiro possa ser resumido em uma palavra: indignação. Durante o ano eleitoral, a emoção atingiu o seu ápice em meio às discussões políticas nas redes sociais.

Estimulada por uma oferta gigantesca de notícias ruins — e de fake news, defesa de argumentos individuais e crenças em viéses, a indignação é uma reação esperada do brasileiro e capaz de transformar qualquer outro sentimento em raiva ou desesperança.

Com a influência dos algoritmos e das notícias falsas, a indignação ainda se torna alvo de manipulação política e ideológica ao flertar habilmente com o que há de mais pulsante nas pessoas. Afinal, há algo de positivo em estar indignado?

Para um grupo de pesquisadores e psicólogos da Universidade da Pensilvânia e Harvard, embora a indignação geralmente seja considerada um "obstáculo" no caminho da civilidade, ela pode ter grandes benefícios, como inspirar as pessoas a participarem de ações coletivas de longo prazo na sociedade.

No estudo The upside of outrage (O Lado Bom da Indignação, em tradução livre), os estudiosos combinaram descobertas dos campos da psicologia moral e da psicologia intergrupal — aquela que estuda as interações entre indivíduos que são de diferentes grupos — para investigar a dinâmica da indignação, que eles definem como "a raiva pela violação dos próprios padrões morais."

"Na psicologia moral, a indignação é geralmente considerada uma emoção negativa que leva, na pior das hipóteses, a uma escalada do conflito, ou, na melhor das hipóteses, à sinalização da virtude e ao slacktivismo (ativismo de sofá)", explica Victoria L. Spring, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo.

No entanto, Spring acrescenta que a maioria dos estudos feitos até então apenas focavam no efeito imediato da indignação. Já as pesquisas na área da psicologia intergrupal sugerem que a indignação pode levar a efeitos como a organização dos grupos e as ações coletivas.

"Ao investigarmos a literatura sobre relações intergrupais, vemos que a indignação pode fazer que você se importe com o temas e tome atitudes, como assinar petições e participar de voluntariado", argumenta Daryl Cameron, outro autor do estudo.

Estar com raiva o tempo todo é desgastante e corrosivo. Não sentir raiva parece moralmente irresponsável.Tim Grierson, crítico de cinema

Na pesquisa, os psicólogos analisaram o caso em que grupos de mulheres receberam informações sobre crenças e atitudes machistas de homens e, a partir da raiva inicial, a indignação foi importante para que o grupo se organizasse por ações coletivas de igualdade salarial, por exemplo.

Em outro caso analisado, os pesquisadores argumentam que as pessoas que expressam indignação com comentários racistas ou sexistas nas redes sociais são frequentemente julgadas de forma mais negativa.

As pesquisas mostram os efeitos negativos do shaming viral em que o autor dos comentários é exposto e, na maioria das vezes, isso resulta em mais violência, como uma espécie de linchamento virtual.

"No entanto, temos visto casos em que o shaming viral levou a uma mudança positiva de comportamento ao longo do tempo. Então, mesmo que haja efeitos negativos de curto prazo para os culpados, ainda pode haver efeitos de longo prazo em que você tem uma ação benéfica para a sociedade", explica Cameron.

No final do artigo, o grupo de pesquisadores incentiva que novos estudos sejam feitos sobre as consequências da indignação para que, sobretudo, o ultraje não seja considerado o oposto da "empatia".