20/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 20/11/2018 00:00 -02

Jéssyca Silveira, a historiadora que deseja um mercado de trabalho mais igualitário

Jovem criou agência de recrutamento com foco em diversidade racial: "A gente quer mostrar um diagnóstico de dentro e o quanto é lucrativo ter essa responsabilidade", afirma ao HuffPost Brasil.

Jessyca Silveira é a 258ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Jessyca Silveira é a 258ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Um mundo mais igualitário, com oportunidades que não sejam perdidas por causa da cor da pele: este é o sonho de Jéssyca Silveira, de 26 anos. Historiadora por formação e mestranda na mesma área, ela descobriu que há uma lacuna para que mulheres negras sejam recebidas corretamente pelo mercado de trabalho. Junto com a irmã Monique, ela criou o RAP - Rede de Afro Profissionais, uma empresa de recrutamento com foco em diversidade racial, que hoje conta com uma rede de mais de 15 mil mulheres.

A ideia de criar um espaço para que mulheres se ajudassem mutuamente surgiu a partir da pesquisa para o trabalho de conclusão de curso em História, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Jéssyca pesquisou a presença de professoras negras no ensino superior, e se surpreendeu quando encontrou dados sobre as mulheres negras também em cargos de liderança. Após entregar o trabalho, questionou a si mesma: "Estou fazendo na teoria, mas como fazer para esse trabalho não morrer nos muros da universidade?", relembra.

Ninguém vai ser selecionado por ser mulher, por ser negro, mas pela nossa empresa a gente leva essa pessoa a ter chance de ao menos participar.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Junto com a irmã Monique, ela criou o RAP - Rede de Afro Profissionais, uma empresa de recrutamento com foco em diversidade racial.

Na época, em 2016, o Facebook abrigava muitos grupos de indicação profissional, mas "as pessoas contratadas tinham sempre o mesmo perfil". Para além da contratação, Jéssyca buscava também com que as mulheres negras contratassem outras iguais a elas por entender que o dinheiro deve circular ali. Nos primeiros dias, já eram 5.000 mulheres.

Com o sucesso, ouviu de amigos que deveria tornar a ação do grupo mais palpálvel, e o RAP virou empresa. Com foco na diversidade, Jéssyca e sua irmã são contratadas para levar mais pessoas de "perfil diverso" aos processos seletivos de grandes empresas e instituições. Desde então, ouve muitas críticas, mas não se furta em respondê-las. Só não perde muito tempo.

"Dizem que é inconstitucional, mas todo mundo pode participar diretamente pelo site da empresa. Ninguém vai ser selecionado por ser mulher, por ser negro, mas pela nossa empresa a gente leva essa pessoa a ter chance de ao menos participar do processo seletivo", explica.

O dinheiro é ferramenta de realização para várias coisas, inclusive sonhos.

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A agência que saiu direto do seu trabalho de conclusão de curso hoje tem mais de 15 mil mulheres inscritas.

A historiadora também destaca que não trata-se somente de fazer com que a mulher negra seja empregada, mas que as empresas também entendam a importância de ter um quadro mais diverso. "As coisas caminham juntas", define. A própria experiência de vida de Jéssyca colaborou para este entendimento: durante a faculdade, fez processos seletivos para trabalhar em lojas, mas nunca "se encaixava no perfil".

"A gente também quer mostrar um diagnóstico de dentro e o quanto também é lucrativo ter responsabilidade na empresa. A gente não quer vantagem. O grupo de pessoas negras é marginalizado na sociedade, apesar de ser maioria. Há muitos projetos voltados para que as pessoas entendam que não vão contratar alguém despreparado só por ser negro: você vai contratar quem você precisa mas vai ter um olhar muito mais amplo sobre a pessoa. É bom pra quem é empregado e bom pra imagem da empresa", afirma.

A gente não quer vantagem.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Com foco na diversidade, Jéssyca e sua irmã são contratadas para levar mais pessoas de "perfil diverso" aos processos seletivos.

Para além do mercado de trabalho formal, a RAP também estimula as empreendedoras e profissionais autônomas. "A gente quer autonomia e poder, e tem vários caminhos para isso. As pessoas têm que comer e pagar as contas. Ao mesmo tempo que o mercado de trabalho é horrível, as pessoas precisam de dinheiro. Pode ser conflituoso, mas temos que encontrar esses caminhos", avalia.

Jéssyca tem um sorriso largo, com a esperança de quem um dia vai deixar de ver a população negra sofrer por falta de dinheiro. Ela tem a preocupação de furar a bolha acadêmica e fazer com que "dinheiro" deixe de ser tabu e passe a circular mais.

"A gente tem que ruir com a ideia da incapacidade da população negra, da marginalização. São processos que temos que fazer para olhar para esse fortalecimento da população negra. Hoje olhamos para a mulher negra, mas entendemos que toda a população negra tem que ser abarcada. Então, a longo prazo, vamos estender a nossa atuação, porque a população negra está andando junta nisso", explica.

A gente tem que ruir com a ideia da incapacidade da população negra.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Para além do mercado de trabalho formal, a RAP também estimula as empreendedoras e profissionais autônomas.

Falar tanto de dinheiro para quem tem uma formação social voltada aos movimentos populares também é motivo de crítica, algo como uma atenção exagerada ao capitalismo. Mas Jéssyca não se rende a essas críticas, também.

"As pessoas precisam de dinheiro. A moeda é papel de troca. E a minha intenção é melhorar a nossa relação com o dinheiro. O dinheiro é ferramenta de realização para várias coisas, inclusive sonhos. Quem acusa de capitalismo puro, são as mesmas que estão acusando de racismo reverso, de segregacionista. Com essas pessoas eu não tenho o que dialogar. As pessoas fazem críticas que não têm coerência, e eu não vou discutir porque a pessoa só quer acusar para se sentir melhor com a sua realidade", alfineta.

Se um futuro igualitário é possível? "Cada vez mais temos que trabalhar para conseguir isso. O que eu faço não é o caminho perfeito, mas é um dos caminhos, que tem que ser conciliado com outras coisas, outros projetos, que outras pessoas estão fazendo", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.