LGBT
17/11/2018 04:00 -02 | Atualizado 17/11/2018 04:00 -02

Erica Malunguinho, Erika Hilton e Robeyoncé Lima: As mulheres trans eleitas em 2018

Em entrevista ao HuffPost Brasil, deputadas estaduais falam sobre trajetória na militância, o futuro dos mandatos e quais desafios esperam para 2019.

Malunguinho, Hilton e Lima: mulheres negras e transexuais, as 3 carregam suas lutas no próprio corpo e já marcaram seu nome na história.
Reprodução/Arquivo Pessoal/Facebook
Malunguinho, Hilton e Lima: mulheres negras e transexuais, as 3 carregam suas lutas no próprio corpo e já marcaram seu nome na história.

"O conservadorismo não é unanimidade". É assim que Erica Malunguinho, a primeira transexual eleita deputada estadual no Brasil, enxerga os mais de 55 mil votos que recebeu e que lhe garantiram uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo. Outras 2 mulheres trans também conquistaram vagas em Legislativos estaduais nessas eleições, por meio de mandatos coletivos: Erika Hilton, da Bancada Ativista, em São Paulo, e Robeyoncé Lima, das Juntas, em Pernambuco.

"A minha eleição diz que eu sou uma voz e que essa voz sistematiza e sintetiza um grito urgente por transformação e mudança", afirma Malunguinho. Para a deputada eleita, "existem campos políticos progressistas e vanguardistas que estão se sintonizando para dar esse recado, para lutar pela expansão da liberdade e pela emancipação coletiva", diz.

Mulheres negras e transexuais, as 3 carregam suas lutas no próprio corpo e já marcaram seu nome na história. Ao HuffPost Brasil, elas falaram sobre sua trajetória na militância, como pretendem construir seus mandatos e quais desafios devem encarar a partir do ano que vem, ao adentrarem a política institucional.

Recorde de candidaturas trans e inovação dos mandatos coletivos


O número de candidatas trans disputando as eleições deste ano foi recorde. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) listou ao menos 53 candidaturas pelo país. Destas, apenas Malunguinho foi eleita. Como integravam, mas não encabeçavam as chapas coletivas eleitas, Hilton e Lima não estavam nesse levantamento.

A proposta de mandato coletivo, da qual elas fazem parte, surgiu inicialmente nas eleições municipais em 2016 e ganhou força no pleito deste ano. Esse tipo de iniciativa promete desafiar a lógica dos mandatos individuais e renovar os corpos presentes na política institucional. Como não há previsão legal para esse tipo de candidatura, um dos integrantes encabeça a chapa e será diplomado como deputado estadual. Mas as decisões ao longo da legislatura, segundo os integrantes, serão tomadas em conjunto.

Essa é a primeira vez que mandatos coletivos conquistam vagas nos legislativos estaduais.

Tanto Malunguinho como os mandatos coletivos dos quais Hilton e Lima fazem parte foram eleitos pelo Psol. Além de Erika Hilton, que tem um cargo entendido como "codeputada", a Bancada Ativista reúne outros 8 articuladores sociais de diferentes setores e foi a décima candidatura estadual mais votada em São Paulo, superando os 150 mil votos.

"A importância disso é a de demonstrar que não estamos sozinhas, que São Paulo e alguns outros estados, como Pernambuco, que elegeu as Juntas, estão clamando por uma renovação política, clamando por uma proposta inovadora", diz Hilton.

Robeyoncé Lima também comemora os mais de 39 mil votos conquistados pelas Juntas, chapa formada por ela e outras quatro mulheres pernambucanas. "A gente espera que a vitória nessas eleições possam servir de inspiração para muitas outras mulheres", afirma.

O quilombo na política

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Com mais de 55,2 mil votos.Erica Malunguinho da Silva é a 1ª transexual eleita deputada estadual em São Paulo, em quase 200 anos de existência da Casa.

"Não me tornei, eu sempre fui ativista", afirma Erica Malunguinho. Eleita deputada estadual aos 36 anos, ela conta que o debate crítico sobre as desigualdades, raça, gênero e sexualidade sempre estiveram presentes em sua vida, desde as discussões na família, em Pernambuco, onde nasceu e foi criada, à sua arte e atuação como educadora em São Paulo, onde mora há 17 anos. Formada em Pedagogia e mestre em estética e história da arte, Malunguinho lecionou em salas de aula e trabalhou na formação de professores.

"Chegou um momento em que percebi que existia uma limitação nas instituições que recebiam esses debates", conta a educadora. Neste contexto, no final de 2015, Malunguinho idealiza e abre as portas do Aparelha Luzia. Localizado na região central de São Paulo, o espaço se constituiu como centro cultural e político, considerado um dos locais de manifestação da resistência negra mais importantes da cidade.

Nós temos que ser protagonistas desta narrativa.Erica Malunguinho

"O Aparelha é resultado dessa historicidade muito longa, dos processos de resistência e da busca pela existência que a gente produziu a partir do processo da diáspora que veio com a escravidão. É o resultado dessas lutas anteriores, dos quilombos, do quilombo dos Palmares, do surgimento do Maracatu, do próprio samba, é resultado do Movimento Negro Unificado, do Teatro Experimental do Negro, da luta pelas cotas", explica.

Da mesma forma, a candidatura ao cargo de deputada estadual neste ano também remonta a essa historicidade do povo negro. "Nós temos que ser protagonistas desta narrativa. Isso precisa ser contado em primeira pessoa, porque somos as pessoas mais hábeis, mais capazes e mais sensíveis para pensar na desconstrução dessas violências estruturais", diz.

Fazer quilombo é trazer esse corpo, não só o físico, de mulher negra trans, mas também o conhecimento que nos é próprio.Erica Malunguinho

Em seu mandato, Malunguinho pretende retirar aos poucos a desumanização que, segundo ela, foi imposta à política e trazê-la para a realidade. Para isso, entre seus planos, além de combater a violência contra a mulher de diversas formas e exigir o aprimoramento de dispositivos de inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, também está um projeto para incentivar o turismo social em quilombos e territórios indígenas como estratégia de combate ao racismo.

Para a deputada eleita, é necessário formar quilombos na política. "Fazer quilombo é trazer esse corpo, não só o físico, de mulher negra trans, mas também o conhecimento que nos é próprio, por estarmos num lugar muito específico dentro da sociedade, que nos fez observar efetivamente como toda a estrutura se organiza e criar tecnologias sociais para permanecer de pé", explica.

'Nós falaremos por nós'

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Erika Hilton (centro) é uma das 9 integrantes da Bancada Ativista e assumirá, em 2019, a tarefa de construir o primeiro mandato coletivo em SP.

Aos 24 anos, a ativista e estudante de gerontologia Erika Hilton é uma das 9 integrantes da Bancada Ativista e assumirá, em 2019, a tarefa de construir o primeiro mandato coletivo que terá uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo. A inquietação de se sentir um corpo à margem foi o que a levou para o ativismo e, finalmente, para a política institucional.

"Eu fui para rua muito cedo. Aos 14 anos fui expulsa de casa e estava na prostituição. Já entendia que existia uma sub-humanidade naquela que era apresentada como a única possibilidade de existir enquanto um corpo negro e transvestigênere dentro da sociedade", conta.

Seremos resistência a esse colapso político que vamos viver daqui a para frente.Erika Hilton

Anos depois, em 2015, já em contato com figuras da militância, travou uma briga para usar o seu nome social no cartão de transporte público em Itu, no interior do estado. A estudante fez um abaixo-assinado virtual, gerou uma mobilização na cidade e o caso repercutiu na mídia. "Com isso acabei me tornando uma figura pública, e a partir de então, fui me introduzindo e encabeçando alguns movimentos", relata.

No ano seguinte chegou a sair candidata a vereadora na cidade, ao lado de Mônica Seixas, jornalista que hoje encabeça a Bancada Ativista e que disputou a prefeitura municipal de Itu nas eleições de 2016.

Para ela, a candidatura coletiva foi a forma de trazer para dentro do poder institucional "corpos sempre colocados à margem" pelo estado. "Sozinhas nós não conseguiríamos os 150 mil votos. Esses corpos, que sempre foram colocados à margem, agora adentram as instituições do estado, para construir, fomentar e formular políticas públicas. Nós falaremos por nós", explica a codeputada.

Sozinhas nós não conseguiríamos os 150 mil votos.Erika Hilton

O seu papel dentro do mandato será o de pensar, propor e fiscalizar políticas voltadas para a população LGBT+. Hilton defende a ampliação para o âmbito estadual do projeto Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo, e pretende fiscalizar o cumprimento do decreto estadual 55.588/2010, que normatiza o uso irrestrito do nome social em todo o aparato público.

Ela avalia que a bancada terá que equilibrar uma atuação combativa e propositiva nos próximos quatro anos. "Seremos resistência a esse colapso político que vamos viver daqui a para frente", afirma.

Reivindicando um lugar de fala

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Robeyoncé Lima foi a primeira advogada trans a ter o direito de usar o nome social na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no seu estado.

Ao longo da sua ainda jovem carreira política, a advogada e ativista Robeyoncé Lima, 30, vem conquistando espaços geralmente negados a pessoas trans e negras. Sua atuação começou ainda no movimento estudantil, no ambiente "elitizado e preconceituoso" do curso de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, onde fazia, como ela mesma definiu, "militância com o próprio corpo". Em 2017, depois de formada, foi a primeira advogada trans a ter o direito de usar o nome social na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no seu estado.

Eleita codeputada estadual pela chapa coletiva Juntas, do Psol em Pernambuco, ela agora conquista um lugar inédito no poder institucional. "Nossos corpos militam na rua, mas é importante que a gente ocupe esses espaços institucionais, porque são nesses espaços que são decididas as nossas vidas", conta a advogada ao HuffPost Brasil.

Quando a gente se candidatou, estava reivindicando um lugar de fala que sempre nos foi negado.Robeyoncé Lima

Lima irá dividir o posto na assembleia legislativa do estado com as outras 4 mulheres que compõem o mandato coletivo: a ambulante Jô Cavalcanti, que tinha o rosto na urna e assumirá oficialmente o cargo, a jornalista Carol Vergolino, a ativista Joelma Carla e a professora Kátia Cunha. "Quando a gente se candidatou, estava reivindicando um lugar de fala que sempre nos foi negado. Um lugar político onde as mulheres e as LGBTs nunca tiveram vez", afirma.

A ideia da candidatura conjunta foi tida inicialmente para facilitar a eleição das "Juntas", já que nenhuma das integrantes tem padrinho ou sobrenome político tradicional, conta a codeputada.

Agora com a cadeira na Alepe garantida, o objetivo será o de construir na prática um mandato coletivo, não só entre as cinco, mas com efetiva participação social. "A gente quer servir de ponte para que os movimentos sociais cheguem aos espaços de tomada de decisão. A gente quer que as pessoas façam política junto com a gente", diz. Os movimentos sociais vão servir como conselho político das decisões tomadas pelo mandato.

A política que está posta hoje em dia não vai fazer nada pela gente.Robeyoncé Lima

O papel de Lima no mandato será o de defender as pautas LGBT, mas ela não acredita que essas reivindicações possam ser tratadas de forma isolada em relação aos outros assuntos. "Não se pode fazer política como se as temáticas fossem caixinhas isoladas. Não dá para fazer política para LGBTs sem falar de educação, de saúde, de segurança. São temáticas interligadas", argumenta.

A advogada considera que se não há representatividade, a política institucional não atende grupos que são sistematicamente excluídos da sociedade. "Se a gente não tiver lá dentro, fazendo política e fazendo articulações para as pautas feministas e LGBTs, a política que está posta hoje em dia não vai fazer nada pela gente. É preciso estar lá para fazer política por nós e para nós."