MULHERES
16/11/2018 17:17 -02 | Atualizado 16/11/2018 17:17 -02

Quem é a economista que deve trabalhar por políticas contra desmatamento no governo Bolsonaro

Clarissa Gandour é uma das 4 mulheres que compõem o governo de transição do PSL.

Reprodução/Youtube
Clarissa Gandour é uma das responsáveis pelo escritório do CPI (Climate Policy Initiative) no Rio.

Os planos do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) para o meio ambiente, em especial para a Amazônia, preocupam especialistas. Mas uma mulher pode ter papel importante no governo quando se trata da defesa de pautas relacionadas à preservação da região.

A economista Clarissa Gandour é uma das 4 mulheres que compõem o governo de transição do PSL e terá um grande desafio pela frente: a sua participação voluntária nos grupos de trabalho só deve fazer sentido se o governo se mostrar aberto às políticas de preservação da Amazônia.

Gandour deverá enfrentar o discurso do próprio Bolsonaro que contempla ideias de como "acabar com o ativismo ambiental xiita no País" ou fechar a "indústria de demarcação de terras indígenas", explorar economicamente a Amazônia e tirar o Brasil do Acordo de Paris.

"A Amazônia não é nossa e é com muita tristeza que eu digo isso, mas é uma realidade e temos como explorar em parcerias essa região", disse Bolsonaro durante a campanha.

Especialista em monitoramento de políticas públicas de combate ao desmatamento, Clarissa Costalonga e Gandour é uma das responsáveis pelo escritório do CPI (Climate Policy Initiative) no Rio de Janeiro.

O seu trabalho traz análises sobre o impacto das ações de preservação ambiental na Amazônia entre 2004 e 2008, período que contemplou o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Nossos resultados revelam que a contribuição dessas políticas foi relevante para os esforços de conservação da Amazônia, particularmente durante períodos de aumento dos preços agropecuários. Mostramos que o declínio observado nos níveis de desmatamento não foi apenas uma resposta às condições de mercado e à dinâmica da economia. O conjunto de políticas implementadas foi efetivo na contenção do desmatamento", explica o texto.

Em outro artigo mais recente, publicado em 2017, Gandour e equipe analisam como ruralistas conseguem criar estratégias para "burlar" o sistema mais rígido de preservação ambiental na Amazônia.

Os dados analisados demonstraram que os esforços de políticas iniciadas nos anos 2000 inibiram o desmatamento em grande e média escala na Amazônia, mas tiveram efeitos heterogêneos no desmatamento em pequena escala, principalmente no Pará e no Mato Grosso.

O que Bolsonaro diz sobre o Meio Ambiente

O tema deverá continuar recebendo atenção de um ministério próprio, já que o presidente eleito desistiu da fusão do Meio Ambiente com a pasta da Agricultura após ser alvo de críticas.

Logo após ser eleito, Bolsonaro havia declarado que a união das pastas deveria acabar com a "briga" entre as duas frentes. "Quero deixar bem claro: o futuro ministro será indicado pelo setor produtivo. Não teremos mais briga nessa área."

Ele indicou a deputada Tereza Cristina (DEM-MS), presidente da bancada ruralista, para o posto de ministra da Agricultura. Mas o nome à frente do Meio Ambiente ainda não foi divulgado.

De acordo com o presidente eleito, há duas alternativas em análise e que devem atuar para destravar "as licenças ambientais que têm atrapalhado muito a questão no Brasil".

Na visão de especialistas, o plano de desenvolvimento de Bolsonaro enxerga as pautas ambientais como "obstáculos a serem destruídos."

Em visita a Porto Velho (RO) ainda durante a campanha, no final de agosto, Bolsonaro defendeu a exploração econômica da Amazônia e atacou institutos como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Para o candidato, o Brasil "não suporta" ter parte de seu território "demarcado como terras indígenas, proteção ambiental, parques nacionais e essas reservas todas".

"Atrapalha o desenvolvimento. Não podemos continuar admitindo uma fiscalização xiita por parte do ICMBio e do Ibama, prejudicando quem quer produzir", afirmou na ocasião.

Quem são as outras mulheres do governo Bolsonaro

Após divulgar uma lista de 27 homens que participariam do seu governo de transição, o presidente eleito Jair Bolsonaro convidou 4 mulheres para também integrar a equipe.

Além de Clarissa Gandour, fazem parte da equipe a ex-tenente Liane de Moura Fernandes Costa e as tenentes Márcia Amarílio da Cunha Silva e Silvia Nobre Waiãpi.

Os nomes ainda não constam no Diário Oficial da União, mas foram divulgados por Bolsonaro em seu Twitter há uma semana.

O convite foi exposto após o presidente eleito ter recebido comentários por compor uma equipe majoritariamente masculina. Em resposta, o político afirmou que o sexo ou a sexualidade de quem fará parte do governo não é uma preocupação urgente.

Veja quem são as mulheres do governo Bolsonaro:

Clarissa Costalonga e Gandour

Divulgação/CPI

Doutora em economia com ênfase em Desenvolvimento Econômico, pela PUC-Rio, ela é pesquisadora do Climate Policy Initiative (CPI) e do Núcleo de Avaliação de Políticas Climáticas da PUC-Rio (NAPC/PUC-Rio).

Liane de Moura Fernandes Costa

Reprodução/Facebook

A ex-tenente do Exército é formada em Engenharia Ambiental pela Fundação Universidade Federal do Tocantins e é especialista em construções sustentáveis. Ela também deve atuar como consultora nas pautas ambientais.

Márcia Amarílio da Cunha Silva

Reprodução/Facebook

É tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal e especialista em segurança pública. Foi a primeira mulher a ser convidada para integrar o governo e trabalha para a candidatura de Bolsonaro há pelo menos um ano.

A convite do general da reserva do Exército Augusto Heleno, que deve assumir o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Silva participava de reuniões semanais durante as eleições. A tenente deve atuar no grupo de trabalho sobre educação.

Silvia Nobre Waiãpi

Reprodução/Facebook

A tenente do Exército é a primeira militar indígena a integrar as Forças Armadas. Atualmente é chefe do Serviço de Medicina Física e Reabilitação em Fisioterapia do Hospital Central do Exército no Rio de Janeiro. Antes disso, Waiãpi já morou na rua, vendeu livros, foi atleta e também artista.

Silvia Nobre Waiãpi deixou a sua aldeia quando foi adotada aos 3 anos por uma família em Macapá. Aos 13, ela teve a sua primeira filha e um ano depois se mudou para o Rio de Janeiro para poder estudar. Se formou em artes cênicas e foi convidada para atuar em novelas da Globo.

Mas foi um trabalho como fisioterapeuta que a aproximou do mundo militar e desde 2016 ocupa o cargo no hospital.