17/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 22/11/2018 19:01 -02

Indiana, cineasta e pesquisadora: A busca de Juily Manghirmalani

“Demorei muito para entender que eu era indiana, quais eram as minhas origens; entender que eu era uma pessoa de cor”, afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Juily Manghirmalani é a 255ª entrevistada do

Quando recebeu a reportagem do HuffPost Brasil, Juily Manghirmalani, 28 anos, contou que estávamos no período do festival das 9 noites, dedicado à devoção de Durga, uma das deusas mais importantes do hinduísmo. Segundo a lenda, ela nasceu para combater um demônio que não poderia ser derrotado por nenhum homem ou deus. Esta foi uma das histórias e das diversas referências à cultura indiana que existem hoje na fala - e na existência, na verdade - de Juily. Em outro momento da conversa, ela explica, de forma natural, sobre uma das formas de ver a vida. "A gente tem uma ideia de que tudo é linear, mas na Índia é tudo cíclico, tudo que começa, termina e depois começa de novo e vai para sempre assim".

Um de seus começos, por assim dizer, aconteceu quando ela fez 15 anos e os pais perguntaram se Juily gostaria de fazer uma festa. Ela não quis. Como segunda opção, recebeu a oferta de realizar uma viagem à Nova Zelândia, onde alguns parentes moram. Topou na hora. Fã da trilogia Senhor dos Anéis, filmada na região, viu a oportunidade de conhecer todos os sets. Mas a jornada a conduziu para outro destino. "Achei que ia ser tipo minha Disney e foi quando eu conheci toda a minha família indiana que eu só conhecia por nome". Além de enfim conectar sorriso à identidade de cada um, outras ligações começaram a ser (re)feitas ali. "Fui conhecendo eles e entendendo uma parte da cultura indiana que eu só ouvia falar um pouco pelo meu pai. Foi a coisa mais incrível. Voltei e falei que precisava fazer parte da Índia de novo".

Fui entendendo uma parte da cultura indiana que eu só ouvia falar um pouco pelo meu pai. Foi a coisa mais incrível. Voltei e falei que precisava fazer parte da Índia de novo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu queria fazer algo que influenciasse o mundo. Queria fazer algo que falasse com as pessoas."

Nascida em Manaus, a mãe de Juily também é do Amazonas e seu pai veio da Índia para o Brasil com 22 anos e aqui constituiu sua família. Aos 7 anos, todos se mudaram para São Paulo e Juily começou a se deparar com algumas questões de identidade. Ela conta que não tinha claro para si suas origens ainda. "Sempre tentei apagar isso. Vim para São Paulo e entrei em um colégio de classe média alta e foi muito chato porque não gostavam de sotaques e do modo de falar de Manaus e já comecei a me repreender ali".

Mais tarde, no início da adolescência, outras questões chegaram e também fizeram com que ela questionasse uma parte de quem é. "Depois comecei a crescer e me tornar mulher e percebi que minha beleza não era a do padrão dos outros e isso foi muito aflitivo e demorou para virar algo que eu não quisesse esconder e com 14, 15 anos eu comecei a me entender lésbica e tudo isso começou a virar uma diversidade da identidade que eu comecei a amar. E aí eu percebi que o mundo não gostava da diversidade e quanto mais apagada, branca, heterossexual e feminina eu fosse, melhor seria para mim. Quando vi que não seguiria esse padrão, fui mudando tudo".

Entrou em um grande ciclo de descobertas e ressignificações. "Demorei muito para entender que eu era indiana, demorei muito para entender que eu era uma pessoa de cor, eu sempre achei que eu fosse branca. E depois eu vi que não tinha nada disso. Sou meio indígena e meio indiana". Ela conta que não tinha mesmo muitas referências de sua cultura em casa, apesar de lembrar que o pai tinha preocupação com alguns costumes. "Eu não podia sair sozinha com um homem, não podia dormir na casa de alguém se tivesse um menino da minha idade e por muito tempo ele falava que certas roupas não eram legais, essas coisas. Mas não tinha rituais, língua, porque isso é mais passado pela mãe, então ele deu uma base muito pequena e foi minha curiosidade que fez eu me aproximar da cultura de novo".

E foi unindo as pontas das histórias que podia, já que da família paterna não tem ninguém no Brasil. Uma parte mora nos Estados Unidos, outra na Austrália e na Nova Zelândia e os parentes de terceiro grau estão na Índia, onde ela teve oportunidade de ir 2 vezes para casamentos. "Aqueles de 6 dias, foi bem bacana". Se esforçou para se aproximar de seus primos e, aos poucos, foi montando suas referências, cena a cena. "É bizarro você ter tantas identidades e só depois de anos entendi que minha etnia falava tão alto quando qualquer parte de mim e eu não prestava atenção, eu só ignorava. E uma hora não dava mais para ignorar".

Demorei muito para entender que eu era indiana, para entender que eu era uma pessoa de cor, eu sempre achei que eu fosse branca. Sou meio indígena e meio indiana.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O pai de Juily veio da Índia para o Brasil com 22 anos e aqui constituiu sua família.

Esse encontro e aceitação mudou muita coisa para Juily. "Acho que agora eu consegui dizer quem eu sou de verdade e isso influenciou muito no meu trabalho e hoje eu uso todas essas nuances para ser uma pessoa mais híbrida e completa". Com muito orgulho. E olhar para o lugar de onde veio fez com que os lugares para onde ela começou a ir também fossem modificados. Amante de cinema desde cedo, ela lembra que tinha até um esquema mensal de aluguel de filme na locadora perto de sua casa de tantos que alugava. Quando passou por essa viagem em que conheceu sua família, começou a se interessar mais por cinema indiano e no meio disso tudo fez um curso profissionalizante de design, migrou para a área de audiovisual e foi parar na faculdade de cinema.

"Eu queria fazer algo que influenciasse o mundo. Queria fazer algo que falasse com as pessoas", lembra. No fim das contas, acabou, antes de mais nada, falando com ela mesma. Como trabalho de conclusão de curso resolveu estudar o cinema indiano. "Tinha percebido que em 4 anos de faculdade eu não tinha tido nada de cinema indiano, que é o maior cinema do mundo, o que mais produz filmes no mundo. Fui estudar o cinema comercial, bollywood, que é o que as pessoas mais conhecem".

A gente tem uma ideia de que tudo é linear, mas na Índia é tudo cíclico, tudo que começa termina e depois começa de novo e vai para sempre assim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O caminho de Juily pertence a um grande ciclo de descobertas e ressignificações.

O ineditismo de sua pesquisa fez com que ela já emendasse o mestrado e aprofundasse ainda mais seu trabalho acadêmico e de pesquisadora. Planeja seguir com o doutorado, mas um pouco mais para frente. Quer conseguir estudar em um local com imigração indiana pesada para poder trocar com outras pessoas como ela e, até lá, pretende esperar alguns outros aprendizados em sua vida. "Acho que é importante amadurecer algumas ideias e não só ter um currículo".

É o que ela vem fazendo. No cinema, hoje atua na produção de objetos, na cenografia e como diretora. Já fez documentários e trabalha na direção de clipes, sempre de artistas com trabalhos ligados a questões de gênero e questionamento de padrões, e prepara um trabalho autoral. Começou recentemente a planejar um documentário sobre sua avó brasileira. "Eu liguei tanto para a Índia, comecei a me vestir, comecei a virar essa pessoa e esqueci de Manaus. Minha avó está com 95 anos, Alzheimer bem avançado, então decidi fazer um documentário sobre ela, que une todo mundo. Meu único grupo de família existe por causa dela. Acho que tenho que salvar essa história de algum jeito. Tem várias gerações vivendo nessa mesma terra graças a essa minha avó matriarcal".

Não venceu demônios. Mas salvou pessoas, de alguma forma. E eternizar uma história não deixa de ser uma maneira de devoção.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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