POLÍTICA
16/11/2018 09:30 -02 | Atualizado 16/11/2018 09:48 -02

Apoio a Bolsonaro divide PSDB e deve se limitar à agenda econômica

"Doria está indo numa ligação de 100% de apoio ao governo. Não é o que boa parte do partido entende”, afirma o senador Tasso Jereissati.

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Executiva nacional do partido se reúne no próximo dia 22 para debater os rumos da legenda.

Após uma dura derrota na corrida presidencial e a redução no número de governadores e na bancada da Câmara dos Deputados, o PSDB enfrenta agora uma fase de debates sobre o futuro da sigla, na qual um dos principais pontos de divergência é o limite do apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Enquanto nomes como o novo governador de São Paulo, João Doria, defendem uma aliança sólida, quadros mais tradicionais são contra assumir cargos a fim de garantir liberdade nas votações no Congresso.

"O importante é não fazer parte do governo para não perder essa independência", afirmou ao HuffPost Brasil o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), ex-presidente da sigla e cotado para assumir o comando do Senado em 2019.

De acordo com o parlamentar, as bancadas devem apoiar medidas da agenda econômica. "Aquela pauta que for de acordo conosco, a gente não vai fazer uma oposição sistemática. Tudo que for bom para o País, a gente vota", afirmou.

Fazem parte dessa agenda reformas da Previdência e tributária, ações de redução da máquina pública e algumas privatizações.

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"Aquela pauta que for de acordo conosco, a gente não vai fazer uma oposição sistemática", disse senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Temas ligados à segurança, como liberação de armas e redução da maioridade penal, por sua vez, provocam divergências. "Tem uma porção de coisa que não acreditamos", disse Tasso. "Em outras questões [fora da economia] é mais difícil apoiar porque vai depender do que ele vier a apresentar. Se não concordamos, vamos resistir", completou.

Pautas ligadas a costumes, como a Escola Sem Partido, já têm provocado discussões entre tucanos. Parte da atual bancada da Câmara é a favor da proposta que limita a atuação dos educadores, enquanto parlamentares ligados a temas sociais e de defesa de minorias são contra.

A mesma postura foi reiterada pelo senador Paulo Bauer (PSDB-SC). "A adesão no conceito tradicional sempre é vista como uma coisa do tipo 'vamos participar do governo'. Isso não está sendo cogitado agora nem vai ser cogitado", afirmou à reportagem o parlamentar, que é um dos vice-presidentes da legenda.

Bauer destacou, contudo, que não se pode menosprezar o apoio popular de Bolsonaro e que descartou uma oposição sistemática ao novo governo. "Não vamos hostilizar qualquer ação que o governo queira implementar", afirmou. O senador lembrou ainda que o PSDB se manteve neutro no segundo turno. A sigla liberou filiados a declarar apoio ao PSL ou ao PT.

Tucanos se elegeram apoiando Bolsonaro

Apesar da postura oficialmente neutra, na prática, diversos candidatos tucanos apoiaram o capitão da reserva na disputa eleitoral, em busca de uma carona na popularidade de Bolsonaro. Todos os 3 governadores do PSDB eleitos usaram essa estratégia.

Parte do grupo, Doria chegou a ir ao Rio de Janeiro durante a campanha para tentar se encontrar com Bolsonaro. Após o resultado do segundo turno, o ex-prefeito de São Paulo se reuniu com o novo presidente em Brasília e prometeu apoio das bancadas do PSDB paulista no Congresso, inclusive na área social.

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João Doria e outros 2 governadores pelos pelo PSDB apoiaram Jair Bolsonaro no segundo turno.

A atitude do novo governador, contudo, têm sido desautorizada por correligionários. "O Doria está indo numa ligação, pelo que tenho ouvido falar, de 100% de apoio ao governo. Não é o que boa parte do partido entende, mas não houve uma discussão interna ainda", disse Tasso. A executiva nacional da sigla se reúne no próximo dia 22 para debater os rumos da legenda.

A postura do ex-prefeito de São Paulo em relação a Geraldo Alckmin - primeiro com a sombra de que poderia tentar disputar a Presidência pelo PSDB em 2018 e depois com o flerte de Doria com Bolsonaro ainda no primeiro turno - também provocou melindres internamente. Alguns atribuíram a decisão do candidato à Presidência da República derrotado de deixar o comando da sigla às ações de Doria.

No período eleitoral, o apoio do ex-governador de São Paulo ao candidato Márcio França (PSB), que era seu vice, para o comando do estado também reforçou o ressentimento entre os dois.

O novo presidente do PSDB deve ser escolhido em maio. Um dos nomes cogitados é do deputado Bruno Araújo, ministro no governo de Michel Temer entre maio de 2016 e novembro de 2017. Uma vitória dele poderia significar uma guinada mais à direita. O tucano, que não conseguiu se eleger como senador, fez campanha para Bolsonaro no segundo turno.

PSDB foge da autocrítica

Apesar de o resultado das urnas revelarem uma redução no poder partidário, há limites para a autocrítica entre tucanos. "Muitas coisas contribuíram para esse cenário. Algumas que o partido produziu e outras são fatores externos. O resultado eleitoral é uma questão circunstancial", afirmou Bauer.

O senador defendeu que seja feita uma reflexão a longo prazo. "A próxima eleição é daqui a dois anos. Temos tempo. Posso dizer que o bom senso vai prevalecer, e o PSDB não é partido que tenha na sua história posturas de extremismo", afirmou. Um dos vice-presidentes da sigla, Bauer defendeu também uma sintonia maior com a sociedade após esse alinhamento interno.

Em 2014, o PSDB era a terceira maior bancada, com 54 nomes. Para o próximo ano, são 29 representantes. Nomes tradicionais como Nilson Leitão (PSDB-MS), Marcus Pestana (PSDB-MG) e Silvio Torres (PSDB-SP) não conseguiram se reeleger.

Nos governos estaduais, o número de vitórias caiu de 5 em 2014 para 3 neste ano. Já na corrida presidencial, Alckmin ficou em quarto lugar, com pouco mais de 5 milhões de votos, mesmo contando com a maior coligação na disputa.

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Além do senador Aécio Neves (PSDB-MG), os ex-governadores do Paraná, Beto Richa, e de Goiás, Marconi Perillo, foram alvo de investigações de corrupção.

Nos bastidores, a maioria dos tucanos minimiza algumas críticas feitas à legenda, como a falta de protagonismo no enfrentamento ao PT e a postura no governo Temer. O PSDB chegou a ocupar 5 ministérios na gestão emedebista e se dividiu sobre continuar na base após as denúncias da JBS contra o presidente.

Alguns deputados, por sua vez, apontam as investigações da Operação Lava Jato como cruciais para o desgaste da imagem do partido. Além do senador Aécio Neves (PSDB-MG), os ex-governadores do Paraná, Beto Richa, e de Goiás, Marconi Perillo, foram alvo de operações.