16/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 09/01/2019 16:33 -02

Rita Prossi, a designer manauara que transforma a riqueza da Amazônia em joias

Defensora da economia sustentável, ela se inspira em lendas indígenas para desenhar suas peças. "Sem exploração, estamos conquistando o mundo”, afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Rita Prossi é a 254ª entrevistada do

Couro de peixe, palha de arumã, madeira, raízes, frutos e sementes são normalmente entendidos como resíduos descartáveis. Mas para a designer de joias manauara Rita Prossi, 52, eles valem ouro -- e também prata. Ela é defensora de uma economia sustentável, sem exploração, e se inspira na fauna e flora amazônica para criar suas peças, chamadas de biojoias. "Com a fabricação de biojoias consigo lucrar e ainda levar renda para o caboclo, o índio e o ribeirinho que fornecem a matéria-prima", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil. Há 20 anos, ela mantém uma produção artesanal que exige cuidado, atenção e sensibilidade com o manuseio de cada material utilizado.

A primeira biojoia de Rita nasceu após o pedido de uma amiga, também manauara, que estava morando nos Estados Unidos. "Ela quis presentear a filha e me pediu algo que lembrasse a Amazônia", conta. Para isso, ela recorreu às suas raízes. Voltou à comunidade de Paraná da Eva, na região metropolitana de Manaus, onde nasceu, que encontrou a inspiração para desenvolver uma joia que trouxesse em si a essência da floresta. "Na varanda de casa, onde meu pai contava algumas lendas, reencontrei a minha Amazônia imensa. Viva, cheia de histórias e talentos para colocar nas peças", lembra.

As minhas biojoias são criadas para fazer as pessoas sentirem a Amazônia.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Muiraquitã é o nome dado pelos índios a pequenos amuletos trabalhados em forma de animal, geralmente sapos.

A peça era um colar feito com fibras de arumã e berloques de ouro em formato de tartaruga, remo, arco e flecha. Símbolos que representam a Amazônia na sua essência, segundo ela. Desse momento em diante, não parou mais. O incentivo estava mais do que garantido. Quando o presente chegou do outro lado da américa, ela conta que o sucesso foi tanto, que logo novas encomendas surgiram não só de lá, mas da Europa também. Ela começou revendendo e reformando joias e bijuterias, mas o negócio deu tão certo, que ela abriu o próprio negócio. "As minhas biojoias são criadas para fazer as pessoas sentirem a Amazônia. Deu tão certo que decidi abrir uma fábrica", conta.

O ano era 1993. Para fazer com que o negócio fosse para frente, Rita não só abriu uma empresa mas decidiu adquirir mais conhecimento e aperfeiçoar suas técnicas. Fez cursos técnicos de design de joias no Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM), no Rio de Janeiro, e decidiu unir a habilidade de criar joias a uma outra paixão antiga: a moda. Assim, se formou também no Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). "As clientes, de alto poder aquisitivo, já tinham tudo e foi aí que sentir a necessidade de trabalhar com peças diferentes. Fui estudar para conseguir criar", lembra.

Vi na maternidade uma oportunidade para me reinventar.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Símbolos que representam a Amazônia na sua essência estão no trabalho de Rita.

Mas ela não chegou nesse lugar de prestígio internacional e reconhecimento do dia para a noite. Para ser protagonista de sua própria história, desde cedo, ela contou com o artesanato como aliado -- e com muito trabalho. Na adolescência, ela precisou sair de Manaus. Durante 12 anos, morou e estudou em São Paulo. Logo aos 15 anos, engravidou. E, enquanto cuidava do primeiro filho e já grávida do segundo, começou a trabalhar artesanalmente com madeira, fazendo vários tipo de caixas decoradas. Depois, começou a desenvolver peças em cerâmica e gesso. "Fui me apaixonando por tudo que envolvia artesanato", diz. À época, o trabalho artesanal foi um aliado da maternidade dupla. E para que suas peças pudessem se transformar em sustento, buscou vendê-las em feiras independentes na capital paulista.

Sabia que podia fazer mais pela minha região com as biojoias.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Para a designer de joias manauara, materiais que iriam para o descarte valem ouro -- e também prata.

Já com o negócio estabelecido em Manaus, suas biojoias ganharam o mundo. Rita foi uma das 50 designers escolhidas para participar do primeiro catálogo brasileiro de joias do IBGM. Em 1999, suas peças foram expostas na China e na Austrália. Ela também já teve suas peças publicadas na revista Vogue Italia. "As pessoas da cidade [Manaus] não procuram tanto as minhas peças, mas as pessoas de fora, sim. Boa parte da minha clientela está fora do norte. A maioria é de fora do Brasil", conta.

Em 2010, ela foi a única brasileira escolhida para criar e expor uma peça exclusiva no Museu do Índio em Nova York, nos Estados Unidos. Pensando em, novamente, levar um pedacinho da Amazônia em seu trabalho, ela escolheu criar uma tanga, que remetesse aos povos indígenas. Ela desenhou miniaturas de canoinhas, tartarugas e muiraquitãs em forma de rã em sua peça. Todos símbolos de poder para os Tapajós e Konduri. "Foi e é uma honra do tamanho dessa Amazônia para mim ter levado esse trabalho tão longe."

As minhas inspirações vêm da floresta, costumes, lendas e culinária.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Já com o negócio estabelecido em Manaus, suas biojoias ganharam o mundo.

No mesmo ano, o Exército Brasileiro encomendou uma joia de Rita. A presenteada seria Sílvia Renata Sommerlat, rainha da Suécia, que também tem raízes brasileiras. "Foi um reconhecimento grande", relembra. Na ocasião, ela criou um colar de coração de madeira com uma pena de prata e trançado de fibra de tucum -- um tipo de palmeira.

Nos últimos anos, devido à crise econômica, Rita precisou fazer alterações em sua carreira. Ela desfez a sociedade na fábrica de biojoias e encontrou um novo caminho ao abrir o próprio ateliê, onde também realiza alguns serviços de fundição. Além disso, mantém uma pequena loja junto com outros artesãos em um shopping na Zona Centro-Sul de Manaus. Mas sempre com suas origens ao seu lado. "Me tornei grande porque não tive vergonha de onde nasci. Minha missão é apresentar essa Amazônia imensa para o mundo."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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