COMPORTAMENTO
15/11/2018 09:04 -02 | Atualizado 15/11/2018 09:07 -02

Por que a Nova Zelândia pode ser considerada o país mais progressista do mundo

A primeira-ministra Jacinda Ardern está recebendo atenção global por seu estilo “anti-Trump”.

A sede do Parlamento neozelandês, em Wellington.
Sage Robinson Photography via Getty Images
A sede do Parlamento neozelandês, em Wellington.

Quando Eddie Writes, 6, decidiu que o mundo precisava de mais gentileza, ele fez a única coisa que achou que daria resultado: escreveu para o prefeito da sua cidade pedindo a criação do "Dia da Gentileza".

Para a surpresa de Eddie, o prefeito de Wellington, Justin Lester, respondeu sua mensagem.

Em 16 de novembro, a capital da Nova Zelândia vai realizar seu primeiro Manaaki Day (manaaki é a palavra maori para gentileza). A cidade vai levar a cabo a ideia de Eddie de incentivar atos de bondade – "Podemos comprar brinquedos para as crianças que não têm", por exemplo – para melhorar o bem-estar de seus cidadãos.

"Estou feliz de ver uma mudança na política da Nova Zelândia, e espero que o foco seja mais em ouvir", disse a mãe de Eddie, a escritora e feminista Emily Writes. "A política deveria ser gentileza. Quando você vira político, não deveria ser por dinheiro ou poder ou privilégio – deveria ser porque você sonha desde pequeno em trabalhar com os outros para melhorar nosso mundo."

Prefeitura de Wellington
Justin Lester, prefeito de Wellington, com Eddie Writes.

O apoio do prefeito à ideia de Eddie é parte de uma nova onda de políticas progressistas que vem tomando conta do país. A liderança é da primeira-ministra Jacinda Ardern, que acaba de tornar-se mãe.

Ardern foi recebida com ovação na Assembleia Geral da ONU, no mês passado, quando pediu gentileza e cooperação dos líderes mundiais. Com o parceiro e a filha de quatro meses na plateia, Ardern prometeu que a Nova Zelândia seria "um país gentil e igualitário, onde as crianças possam florescer e o sucesso não seja medido apenas pelo PIB, mas pela melhoria da vida da população".

O chamado de Ardern por um novo tipo de economia foi visto por muitos como uma reação à onda de políticos direitistas que vem conquistando espaço nos Estados Unidos e na Europa.

As políticas sociais e ambientais da Nova Zelândia já diferenciam o país do restante do mundo. As neozelandesas foram as primeiras mulheres do mundo a conquistar o direito ao voto (e o país já teve duas outras primeiras-ministras antes de Ardern). A Nova Zelândia também é líder no que diz respeito à licença maternidade: o afastamento hoje é de 22 semanas e vai chegar a 26 semanas em 2020.

Famílias com filhos nascidos depois de 1º de julho deste ano recebem o equivalente a 40 dólares por semana durante o primeiro ano de vida da criança.

DON EMMERT via Getty Images
Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, beija a filha Neve Te Aroha Ardern Gayford, observada pelo parceiro, Clarke Gayford, durante a Cúpula da Paz Nelson Mandela, na Organização das Nações Unidas, 24 de setembro de 2018.

A política é uma causa querida para Ardern. Ela é apenas a segunda líder mundial a dar à luz durante o mandato, e tirou seis semanas de licença maternidade quando nasceu sua filha, Neve Te Aroha (apesar de não ter direito à licença remunerada por causa do timing do nascimento.

Em outra medida mundialmente inédita, uma nova lei exige que vítimas de violência doméstica recebam até dez dias de licença remunerada, além dos direitos previstos em lei, para que elas possam se afastar dos parceiros abusivos e proteger seus filhos.

Ardern também está de olho no problema do encarecimento da moradia na Nova Zelândia. O mercado imobiliário do país está aquecido, e o preço das casas subiu mais de 60% na última década. Em Auckland, maior cidade do país, os preços quase dobraram.

A questão da moradia tornou-se uma das questões mais importantes na eleição do ano passado, e Ardern colocou a culpa na especulação imobiliária motivada por investidores estrangeiros. O governo respondeu com uma lei que proíbe os estrangeiros de comprar propriedades existentes. O governo também criou um programa para a construção de 100 000 casas populares na próxima década, que serão vendidas com preços controlados.

O governo neozelandês também quer deixar sua marca na questão da mudança climática e proibiu novas explorações de petróleo e gás natural em alto mar, além de estabelecer a meta de atingir 100% de energia renovável até 2050.

Essas políticas estão alinhadas com o compromisso do governo de injetar bem estar e princípios ambientais na política, além de relatar os progressos "para mostrar uma medida mais equilibrada do sucesso".

"Instintivamente, sabemos que dinheiro não é a coisa mais importante da vida", diz a pesquisadora de políticas públicas Jesse Berentson-Shaw. Embora ter dinheiro suficiente seja importante, afirma ela, o problema é que a riqueza excessiva começa a erodir o bem estar dos cidadãos.

"A maneira mais fácil de pensar no assunto é considerar que você pode extrair recursos do ambiente durante um tempo limitado antes que isso comece a causar tantos danos que os benefícios derivados da riqueza começam a se perder", diz Berentson-Shaw. "Em outras palavras, a riqueza começa a nos destruir."

"A ideia de medir algo além do PIB é um sinal importante emitido pelo governo", continua ela. "É o reconhecimento de que a balança pendeu demais para um lado. Os benefícios trazidos pela riqueza estão erodindo outras coisas, de maior valor.

A Nova Zelândia tem seus desafios locais. O país tem os piores índices de violência familiar e entre parceiros íntimos, e mais de 40 000 crianças dão entrada em hospitais anualmente por causa de problemas de saúde causados por casas úmidas e com mofo.

O histórico ambiental do país também não é dos melhores: este ano, a Nova Zelândia foi considerada uma das campeãs do desperdício entre os países desenvolvidos.

Quando se trata de mudança climática, entretanto, o país chegou ao limite, diz Catherine Leining, do Motu Economic and Public Policy Research, uma entidade não-governamental que estuda políticas públicas.

"Com certeza podemos mostrar liderança em relação para o resto do mundo", diz Leining. "O governo atual realmente está tentando fazer um esforço para obter consenso suprapartidário no direcionamento das políticas relacionadas à mudança climática. Se tiver sucesso, será transformador em termos de emitir sinais de longo prazo para que as empresas invistam em [fontes de energia] de baixas emissões."

Mas uma questão permanece em aberto. Este mês marca o primeiro aniversário do governo de Ardern, e alguns críticos dizem que o ritmo de mudanças está mais lento que o esperado. A própria Ardern reconhece isso, como numa entrevista para The Spinoff: "Transformação leva tempo. Se aprendi alguma coisa, é o quanto [as mudanças] demoram [para acontecer]."

A política, sem um mandato público para realizar mudanças progressistas, pode ser "muito complicada", diz Berentson-Shaw. "Mas construir o argumento, dar aquele empurrãozinho no público para que essas políticas progressistas sejam prioritárias, talvez seja isso o que estamos vendo. E pode ser o começo de uma grande mudança."

A próxima grande iniciativa nacional é a obrigatoriedade do ensino da língua Maori nas escolas lideradas pelo partido NZ Greens, que faz parte da coalizão de governo de Ardern. "Nada indica mais uma sociedade mais progressista que valorizar sua língua indígena", diz a co-líder do NZ Greens Marama Davidson.

Enquanto os elogios para a postura "anti-Trump" de Ardern continuam chegando de todo o mundo, Davidson pede cautela e afirma que a Nova Zelândia não é só um país pequeno e escondido para onde todo mundo quer fugir – como famosos bilionários que estão preparando bunkers no país para se abrigar do apocalipse.

"Espero que ela demonstre aos outros países como fazer as coisas e, mais importante, como apoiar os movimentos sociais que estão demandando essas sociedades progressistas em todo o mundo", afirma Davidson.

No final de setembro, o Guerreiro do Arco-Íris III atracou na cidade de Dunedin, como parte de um tour pela Nova Zelândia contra a indústria de combustíveis fósseis. A tripulação internacional da embarcação falou em tom quase reverencial de Ardern e de suas promessas de acabar com a exploração de petróleo em alto mar.

A imagem de Ardern foi projetada em telas, e uma tripulante americana se emocionou ao lembrar de Ardern falando da mudança climática como "o momento da minha geração que equivale à luta contra a energia nuclear".

"A melhor coisa da Nova Zelândia hoje é a política", diz o diretor do Greenpeace na Nova Zelândia, Russel Norman. "Jacinda Ardern deu ao mundo a esperança de que, se você fizer barulho suficiente, os políticos vão ouvir. O que ela fez vai mudar os rumos da história da Nova Zelândia – e espero que do mundo – para sempre."

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.