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15/11/2018 14:01 -02 | Atualizado 10/01/2019 18:16 -02

Ernesto Araújo: Como um artigo definiu o novo chanceler

Diplomata posicionou-se politicamente, ganhou a simpatia de Olavo de Carvalho e, consequentemente, dos Bolsonaro.

Valter Campanato/Agência Brasil
Embaixador Ernesto Araújo, futuro chanceler de Bolsonaro, durante coletiva com o presidente eleito, na quarta (14).

O diplomata Ernesto Henrique Fraga Araújo já tinha 26 anos de carreira no Itamaraty quando, no segundo semestre de 2017, sua posição no ministério mudou. O movimento não foi desencadeado por um convite para um posto ou uma embaixada, mas por um artigo ao qual poucos diplomatas ficaram indiferentes.

No texto, publicado nos Cadernos de Política Exterior, produção semestral da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), vinculada ao ministério, Ernesto Araújo defendeu que somente Donald Trump "pode salvar o Ocidente", que o presidente americano tem "uma visão de mundo que ultrapassa em muitas léguas, em profundidade e extensão, as visões da elite hiperintelectualizada e cosmopolita que o despreza" e criticou o "globalismo" (leia mais abaixo).

"Essas expressões de Trump parecerão a muitos, no mínimo, manifestações de mau gosto, a outros parecerão laivos de fascismo. Sim, vivemos em um mundo onde falar dos heróis, dos ancestrais, da alma e da nação, da família e de Deus é, para grande parte da ideologia dominante, uma indicação de comportamento fascista. O problema estará com Trump ou estará com essa ideologia contra a qual ele se insurge?", questiona no texto.

A maior parte dos colegas no Itamaraty recebeu com estranheza as ideias, que foram ridicularizadas em muitos grupos. Uma outra parte, bem menor, interpretou as palavras de Araújo como o primeiro contraponto radical no ministério ao viés de esquerda arraigado nos anos Amorim (2003-2011) que a incomodava.

Araújo, que na época já era diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos, virou então o "trumpista" do Itamaraty. Quando o artigo foi descoberto, meses depois, por Olavo de Carvalho, seguido e cultuado pela família Bolsonaro, iniciou-se o caminho do diplomata rumo ao posto de chanceler — ao qual foi anunciado na quarta-feira (14).

"Por incrível que pareça ainda há vida inteligente no alto funcionalismo público brasileiro", escreveu Carvalho em seu blog, em maio, ao divulgar o link para o artigo de Araújo.

Para diplomatas ouvidos pelo HuffPost Brasil, o diplomata de 51 anos parece ter percebido ali uma oportunidade, e, em setembro, criou o blog Metapolítica 17 - Contra o Globalismo, no qual se posicionou abertamente contra o PT, mas também contra a China, a mídia e, claro, o "globalismo".

Vários dos 31 posts publicados até seu anúncio são elogiosos a Bolsonaro, apresentado por Araújo durante a campanha como a opção "pela sobrevivência da Pátria".

O diplomata cresceu então aos olhos de Olavo de Carvalho, que mantém influência sobre o presidente eleito, mas mais ainda sobre seus filhos. "Considero o Ernesto Araújo o brasileiro mais qualificado para ser ministro das Relações Exteriores. Fim de papo", escreveu Carvalho em seu perfil no Facebook no último dia 3.

Menos de duas semanas depois, Araújo foi anunciado por Bolsonaro, que justificou a escolha dizendo ser o diplomata "um brilhante intelectual" e "bastante experiente". A definição do nome aumenta ainda mais os rumores de que Olavo de Carvalho, que vive nos Estados Unidos há 13 anos, seja indicado para a embaixada em Washington.

Bolsonaro ressaltou, como razão para a escolha do diplomata, seus 29 anos de Itamaraty (na verdade, são 29 anos desde que Araújo entrou para o Instituto Rio Branco, mas 27 de carreira), o que poderia ser considerado suficiente, tendo em vista que Celso Amorim, por exemplo, assumiu pela primeira vez como chanceler aos 28 anos de carreira.

No entanto, apesar dos anos no Itamaraty e de ter o título de embaixador - que se refere à sua posição na hierarquia da carreira diplomática -, Araújo nunca chefiou uma embaixada nem foi subsecretário.

Entre os colegas de Itamaraty, a escolha de Araújo não surpreendeu pelo já alinhamento explícito em seu blog - apesar de o próprio Bolsonaro condenar publicamente o uso de ideologia na política externa (no caso, nos governos do PT) - , mas causou estranheza pela pouca experiência que o diplomata teria para o posto.

Todos os diplomatas que o antecederam como ministros tinham chefia de importantes embaixadas ou subsecretarias em seu currículo. É o caso de Amorim, Mauro Vieira, Luiz Alberto Figueiredo, Antonio Patriota e Luiz Felipe Lampreia.

O Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos, comandado por Araújo hoje, é tido como um posto importante, mas o salto para chanceler foi considerado alto demais por muitos diplomatas.

Entre os embaixadores mais experientes é que Araújo enfrentará a maior resistência — uma provável "guerra de egos", como definiu um diplomata ao HuffPost.

Há ainda uma preocupação com as visões já expressadas por Araújo no artigo e no blog, como declarações contra o mais importante parceiro comercial do Brasil - a "China maoísta que dominará o mundo", segundo o diplomata.

Mas foi justamente por se mostrar tão alinhado com o guru de Bolsonaro que Araújo foi escolhido ante outras opções mais experientes, como José Alfredo Graça Lima, ou mesmo o embaixador na Coreia do Sul, Luís Fernando Serra — que chegou a ser "sabatinado" pelos filhos de Bolsonaro.

Há quem acredite no ministério que o presidente eleito percebeu que teria menos resistência com Araújo sobre decisões controversas que venham do Planalto, como mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém.

A carreira antes do artigo

A fama de Araújo que precedia o blog e o artigo, no entanto, era melhor. Ele sempre foi visto por colegas como um diplomata competente, afável no trato e bom chefe (o que nem sempre é uma premissa no Itamaraty).

Seu maior posto no exterior foi como número 2 (vice-chefe de missão) na embaixada em Washington, na época em que Mauro Vieira era o embaixador (2010-2015).

Na capital americana, chefiou ainda a área econômico-comercial, ficando à frente de negociações como da tarifa do etanol e o contencioso do algodão. A experiência com esse tipo de acordo — e de diálogo com os americanos — é vista como positiva por parte dos diplomatas.

Formado em Letras pela UnB, Araújo entrou para o Rio Branco 3 anos depois, em 1991. Começou trabalhando com integração regional e Mercosul, tema sobre o qual tem dois livros publicados: Mercosul Hoje e Mercosul: Negociações Extra-regionais.

Chegou a ser chefe da Divisão de União Europeia e Negociações Extra-regionais do Mercosul. Serviu ainda em Berlim e Bonn (Alemanha), em Ottawa (Canadá).

Demorou 9 anos até ser promovido de ministro de segunda classe para ministro de primeira classe (embaixador), em junho deste ano — o que pode ser considerado uma "geladeira" na evolução diplomática durante os governos do PT e de Michel Temer.

Gaúcho, Araújo é casado com a também diplomata Maria Eduarda de Seixas Corrêa, filha do ex-secretário-geral do Itamaraty, Luiz Felipe de Seixas Corrêa, e com quem tem uma filha. Num ambiente em que esse tipo de relação ainda guarda um certo peso, o fato de o novo chanceler ser genro do respeitado diplomata poderia servir, especialmente entre a velha guarda do Itamaraty, como um atenuante em meio a tantas reservas ao ministro de Bolsonaro.

Leia trechos de textos de Ernesto Araújo:

Autodefinição

Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.

Bolsonaro - autoritarismo e fascismo

De um lado vocês têm o risco, ou melhor, a certeza do autoritarismo com o PT. Do outro vocês têm apenas as palavras "risco de autoritarismo", que não correspondem a qualquer elemento real, mas que foram enfiadas na sua cabeça pela mídia, ignorando todas as provas de democracia que Bolsonaro já proporcionou, principalmente sua luta incansável contra o projeto totalitário do PT, luta pela qual quase deu a vida.

Você está preocupado porque os comunistas chamam Bolsonaro de fascista, e você não pode jamais admitir que isso ocorra com você, não é? Você morre de medo que o chamem de fascista. É esse o grande valor moral que te domina. O medo de ser chamado de fascista. Quando você começa a admitir o lampejo de uma opinião favorável a Bolsonaro, imediatamente aparece na sua cabeça a imagem de Ciro Gomes ou Camila Pitanga te chamando de fasc... e antes que esse seu vigia ideológico internalizado termine a palavra, você já está pedindo desculpas e recuando assustado de volta ao seu curral mental.

Fascista é o nome dado pelos comunistas a qualquer inimigo do regime de terror que o PT pretende instaurar ou reinstaurar no Brasil.

Bolsonaro - liberais e conservadores

Quem se diz liberal e não está com Bolsonaro é porque não se importa com a liberdade, mas apenas com a sua própria imagem. Quem se diz conservador e não está com Bolsonaro é porque só quer conservar sua própria convicção de superioridade moral.

Relações exteriores

Alguém decidiu definir a presença do Brasil no mundo por sua adesão aos "regimes internacionais", por sua obediência à "ordem global baseada em regras". O Brasil assim concebido quer ser apenas um bom aluno na escola do globalismo. Não quer nem mesmo ser o melhor aluno, pois isso já seria destacar-se demais, já envolveria um componente de vontade e grandeza que repudiamos.

Ao lado de uma política externa, o Brasil necessita de uma metapolítica externa, para que possamos situar‐nos e atuar naquele plano cultural‐espiritual em que, muito mais do que no plano do comércio ou da estratégia diplomático‐militar, estão se definindo os destinos do mundo. Destinos que precisaríamos estudar, não só do ponto de vista da geopolítica, mas também de uma 'teopolítica'.

Donald Trump

Essas expressões de Trump parecerão a muitos, no mínimo, manifestações de mau gosto, a outros parecerão laivos de fascismo. Sim, vivemos em um mundo onde falar dos heróis, dos ancestrais, da alma e da nação, da família e de Deus é, para grande parte da ideologia dominante, uma indicação de comportamento fascista. O problema estará com Trump ou estará com essa ideologia contra a qual ele se insurge? Os capangas de Stálin, os de Mao Tsé‐Tung e os de Pol Pot também chamavam tudo de fascista: ter um livro era fascista, amar os pais ou os filhos era fascista, venerar os símbolos tradicionais era fascista, tudo o que pudesse remotamente contestar o poder dominante do estado era fascista e levava o cidadão para o gulag, para o campo de reeducação ou para a fossa comum.

Para ele (Trump), o verdadeiro e enorme perigo é a perda da própria identidade ocidental, a perda do espírito, o desaparecimento dos "laços de cultura, fé e tradição que nos fazem quem somos". As forças antiocidentais, "sejam externas ou internas", se deixadas agir, "minarão nossa coragem, solaparão nosso espírito e enfraquecerão nossa vontade de defender a nós mesmos e nossas sociedades". O problema, portanto, não está no terrorismo nem muito menos na diminuição da competitividade, mas sim, muito mais fundo, está no desaparecimento da vontade de ser quem se é, como coletividades identificadas com um destino histórico e uma cultura viva.

"Islamismo radical"

O inimigo do Ocidente não é a Rússia nem a China, não é um inimigo estatal, mas é sim principalmente um inimigo interno, o abandono da própria identidade, e um inimigo externo, o islamismo radical – o qual, entretanto, ocupa lugar secundário em relação ao primeiro, pois o islamismo só representa ameaça porque encontra o Ocidente espiritualmente fraco e alheio a si mesmo. Não há nada aqui de uma "lógica de nós contra eles", como os detratores de Trump gostam de dizer. É uma lógica de "nós buscando a recuperação de nós mesmos".

"Imprensa petista"

Amigos, não sejam tão nominalistas a ponto de preferirem viver num regime totalitário desde que ele se denomine "democracia", a viver em um regime democrático com um governo decente, simplesmente porque a imprensa petista diz que Bolsonaro representa "um risco de autoritarismo".

PT

O programa real do PT continua sendo o mesmo que sempre foi, por baixo de qualquer título: corromper, controlar todas as alavancas do poder, trazer Lula de volta para "nos governar", acabar com a Lava-Jato, reconstituir o eixo bolivariano na América Latina e estabelecer a opressão do PT para sempre. O PT só dá provas de totalitarismo. Nunca deu outra coisa e seu programa deixa claro que não pretende dar. Com que cara pode falar de democracia?

O PT, fiel ao "belo ideal socialista", odeia o ser humano. Deixado a si mesmo, o ser humano cria e produz, ama e constrói, trabalha e confia, realiza-se e projeta-se para a frente. Então não pode. O PT (que aqui significa não apenas "Partido dos Trabalhadores", mas também Projeto Totalitário ou Programa da Tirania) não pode deixar o ser humano a si mesmo.

O ideal do PT (já expresso por alguns ecologistas radicais) é que a espécie humana não existisse. Já que existe, ainda, vamos fazer dela o pior possível, para que a humanidade se odeie tanto a ponto de um dia cometer suicídio. Sim, o Projeto Totalitário, do qual o "Partido dos Trabalhadores" faz parte integralmente até a medula dos seus ossos e até o fundo do buraco que tem no lugar do coração, é levar a humanidade ao suicídio. Para isso precisa destruir a alegria de viver, que depende da liberdade. Censurar o Whatsapp é mais uma tentativa.

PT e China

Vocês acham que o PT vai largar o poder depois de quatro anos? Oito? Desesseis? Não largará nunca. Não será um novo governo, será um novo regime, um império do crime, apoiado no conluio entre as oligarquias nacionais e num novo eixo socialista latino-americano, sob os auspícios da China maoísta que dominará o mundo.

Justiça social e minorias

O que há é uma ideologia manipuladora que cria uma histeria permanente sobre justiça social e minorias, sem fazer absolutamente nada concreto nem pelas minorias nem pela maioria, sem nenhum compromisso em melhorar a vida real de ninguém, e que veste o manto da justiça social para roubar e tentar sair com o produto do roubo, desrespeitando tanto a justiça social quanto a justiça propriamente dita. Essa ideologia faz de tudo para destruir qualquer poder mobilizador autêntico que ela não controle, e por isso dedica-se a sufocar o desejo de grandeza associado ao sentimento nacional.

A esquerda não tem o menor interesse em justiça social, mas utiliza esse conceito para contaminar a água da nação, para criar pessoas raivosas e ignorantes e assim desmobilizar o povo, proibi-lo de ter ideais, separá-lo de si mesmo, desligar a energia criativa. Justiça social, direitos das minorias, tolerância, diversidade nas mãos da esquerda são apenas aparelhos verbais destinados a desligar a energia psíquica saudável do ser humano. A aplicação dessa ideologia à diplomacia produz a obsessão em seguir os 'regimes internacionais'. Produz uma política externa onde não há amor à pátria mas apenas apego à 'ordem internacional baseada em regras'.

'Brasil Grande e Forte'

Quando eu era criança, pela metade dos anos 70, ficava horas folheando um livro chamado "Atlas das Potencialidades Brasileiras" cheio de mapas de reservas energéticas e minerais, produção industrial e agrícola, etc. O subtítulo do livro dizia: "Brasil Grande e Forte". Hoje, querem colocar nas mãos das crianças livros sobre sexo, mas se vissem uma criança lendo um livro chamado "Brasil Grande e Forte" prenderiam os pais e mandariam a criança para um campo de reeducação onde lhe ensinariam que o Brasil não é nem grande nem forte, mas apenas um país que busca a justiça social e os direitos das minorias.

'Sadismo abortista'

Eles querem uma sociedade onde ninguém nasça, nenhum bebê, muito menos o menino Jesus. Pergunto inclusive se o sadismo abortista da esquerda não provém de uma pretensão niilista de, em cada bebê, estar matando o Cristo antes de nascer.