15/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 15/11/2018 00:00 -02

Morena Mariah e o afrofuturismo como opção para alcançar novas perspectivas

A partir de sua experiência no audiovisual e acúmulos de pesquisa, estudante pretende levar conceito de um futuro melhor e possível para negros e moradores de favelas.

Morena Mariah é a 253ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Morena Mariah é a 253ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Você já ouviu falar em afrofuturismo? O termo foi cunhado pela primeira vez nos anos 1990, mas o conceito existe bem antes disso. Antes associado a uma estética distópica, hoje o afrofuturismo está nas favelas e nas ruas, pautando uma nova possibilidade de futuro para pessoas negras que fuja dos estereótipos e das violências. E se depender de Morena Mariah, de 27 anos, o conceito vai ser cada vez mais ampliado, difundido e, principalmente, útil para um novo futuro. Produtora audiovisual, aluna do curso de Estudos de Mídia na Universidade Federal Fluminense (UFF) e hacker das tecnologias a favor de causas sociais, ela explica que seu maior interesse é "conhecer o passado para ter uma referência no futuro".

O acúmulo das leituras sobre o tema veio do tempo em que ela, sozinha, buscava novas referências políticas e sociais, para além daquelas apresentadas em movimentos sociais já conhecidos, como o feminismo. À reportagem do HuffPost Brasil ela explica que o afrofuturismo, por ser um conceito novo, ainda tem sua definição em disputa.

O afrofuturismo é uma visão de mundo: se enxergar como povo negro e entender o estado de coisas em que a gente está inserido e como elas chegaram até aqui.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ela explica que seu maior interesse é "conhecer o passado para ter uma referência no futuro".

"O afrofuturismo que eu reivindico, que tem uma potência grande, não é uma visão só política, filosófica, cultural, um movimento estético ou artístico, mas é uma visão de mundo: se enxergar como povo negro e entender o estado de coisas em que a gente está inserido e como elas chegaram até aqui. Ou seja, conhecer o passado e como ele nos trouxe ao momento em que a gente está", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Para explicar o "momento em que a gente está", ela cita o que chama de neoescravidão: encarceramento em massa, genocídio do povo negro. O afrofuturismo defendido por Morena, então, toma consciência dessas violências e, a partir daí, pensa ações para mudar o futuro que está posto - que, se não mudar, irá continuar a perpetuação dessas dores. Por muito tempo o movimento foi associado ao caráter apenas estético, mas a estudante explica que não é só isso: "Para mim vai além do estético e do artístico, e pode ser ampliado para uma forma de estar no mundo e de se pensar em negritude mesmo, em quem somos nós, enquanto povo, e para onde a gente precisa ir".

Para divulgar cada vez mais o conteúdo e o conhecimento acumulado sobre o tema, Morena coordena o projeto "Afrofuturo", que hoje consiste em textos e em breve terá um próprio canal no Youtube, com a intenção de aproximar-se cada vez mais dos jovens e do que eles consomem e acreditam. Se a juventude é futuro, então é para ela que deve-se falar. Morena também é coordenadora pedagógica do GatoMÍDIA, um espaço de aprendizado em tecnologia no Complexo do Alemão. Nesta semana o grupo terminou o primeiro laboratório afrofuturista com jovens moradores de favelas da cidade.

"Se o afrofuturismo acelera alguns processos de discussão e reflexão sobre negritude, essa discussão tem que chegar na favela. A gente desenvolveu o laboratório para trabalhar narrativa 360º com a galera da favela", explica. A ideia era fazer com que os presentes no laboratório construíssem vídeos e narrativas diferentes dos estereótipos de violência abordados na mídia tradicional e, assim, recontassem a história (sua e do povo negro) de uma maneira diferente, a partir também dessa estética.

O conceito pode ser ampliado para uma forma de estar no mundo e de se pensar em negritude.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"É uma visão de mundo: se enxergar como povo negro e entender o estado de coisas em que a gente está inserido e como chegaram até aqui."

Morena acredita que a principal potência do movimento é exatamente o diálogo com todos. "Eu acho que é uma encruzilhada de visões de mundo que tem uma potência de atingir pessoas que não dialogam com o conhecimento formal. Atingir a galera de 15 anos que está na favela e ouve podcast de funk. Eles são super antenados, mas dentro daquele espaço e daqueles grupos que gostam da mesma coisa. O caminho é alargar o conceito para todo mundo que é preto e quer pensar futuro, independentemente do que ouve e pensa como arte", afirma.

Com voz grave, apesar de sempre baixa, Morena carrega no olhar firme um brilho particular de quem acredita que um futuro melhor é possível. Essa certeza não foi construída rapidamente. Na infância, ela sofreu abuso sexual e por muito tempo não reconheceu o que viveu como violência, "por conta de todo esse processo do machismo que está invisível pra gente quando não temos acessos às discussões". Nos últimos anos, porém, ela tem conseguido avançar na cura desse episódio.

"A terapia me ajuda muito. Me permitir como ser humano tratar isso, como eu vivenciei isso, fez toda a diferença. As leituras colaboram nesse processo, porque eu acho que a gente entender o contexto de destruição, não só do processo de escravidão que aconteceu, mas de como essas formas de morte e racismo se atualizam a todo tempo, é importante. O racismo parece um monstro de várias caras", avalia.

Se o afrofuturismo acelera alguns processos de discussão e reflexão sobre negritude, essa discussão tem que chegar na favela.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Para Morena, "a maneira da gente resistir é entender nosso lugar."

Foi um encontro feminista que ajudou Morena a entender a sua vivência de experiência, mas com o passar dos tempos não sentiu-se mais encaixada nas lutas porque "as pautas sobre racismo sempre são tratadas como identitárias, como recorte". Isso não era suficiente. Depois de romper com o feminismo, a jovem se aproximou dos estudos de autores africanos. Ali, ela percebeu que ter os costumes do continente como referência é o melhor caminho possível para a cura e para o entendimento da sociedade em que vivemos. Junto com a terapia, permitiu entender o que havia acontecido e não culpar-se por ter sido vítima.

O processo de entender o que viveu, dividir com a família - principalmente com a sua mãe - e resgatar uma união a partir disso não foi instantâneo, mas sempre ancorado nos valores em que ela acredita. Na sua fala, Morena faz questão de destacar a importância da construção de uma família saudável para o povo negro, visando, claro, o futuro.

"Família é quilombo primeiro, então é o primeiro lugar em que a gente entende o que é o mundo. Eu acho que entender a falta de afeto e a importância do amor, do afeto na nossa trajetória, é importante. É entender que em algum momento o amor salvou a gente de alguma coisa, e que a gente pode e deve pensar nossas famílias. Não é dado a nós esse direito de construir afeto coletivamente, então temos que parar e pensar mesmo: como foi o processo da minha família até aqui e o que eu posso fazer para colaborar na mudança?", provoca a estudante.

O racismo parece um monstro de várias caras.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Porque o que está dado nesse sistema que a gente existe é parar, morrer e não falar". E o que Morena mais quer é falar.

Críticas ao afrofuturismo e às novas perspectivas de futuro são recorrentes, mas Morena não se surpreende. "Dizem que acreditamos na 'África mítica', que é impossível se relacionar entre negros, mas se isso é impossível, o que é possível? Se não for dessa forma, que encontremos outra, mas temos que repensar o futuro", analisa.

Seja da forma que for, o que Morena não pretende é voltar a associar o afrofuturismo só com distopia. "Eu não disputo distopia porque acho que que a gente já vive um genocídio, é invisibilizado, já vive em estado de exceção e sem direitos: isso já é ser preto e favelado no Brasil, mas que os brancos ainda veem como distopia. A gente precisa "distopizar" o futuro, que tipo de utopia é interessante para a gente? Porque desgraça já tem muita", dispara.

Não é dado a nós esse direito de construir afeto coletivamente.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Seja da forma que for, o que Morena não pretende é voltar a associar o afrofuturismo só com distopia.

As violências que acometem o povo negro têm de parar, mas enquanto elas seguem, a resistência de movimentos como o afrofuturismo e de pessoas como Morena segue também. "A postura de resistência que temos que ter é essa. A maneira da gente resistir é entender nosso lugar, produzir as narrativas e não parar. Porque o que está dado nesse sistema que a gente existe é parar, morrer e não falar", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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