MULHERES
15/11/2018 08:46 -02 | Atualizado 30/11/2018 14:03 -02

Michelle Obama conta em livro ter ouvido que 'não fazia o tipo de Princeton'

HuffPost Brasil publica com exclusividade trecho de "Minha História", livro de memórias da ex-primeira-dama dos Estados Unidos.

"[Em Princeton] Eu precisava dos meus amigos negros. Ajudávamos e apoiávamos uns aos outros", conta Michelle em livro.
Cortesia do arquivo da família Obama-Robinson
"[Em Princeton] Eu precisava dos meus amigos negros. Ajudávamos e apoiávamos uns aos outros", conta Michelle em livro.

A ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, nem sempre ocupou lugares de prestígio e reconhecimento internacional como hoje. Tampouco entrou em uma faculdade e conseguiu se formar sem carregar consigo um marcador social. "Eu precisava dos meus amigos negros. Ajudávamos e apoiávamos uns aos outros. Muitos tinham chegado à faculdade sem sequer ter a noção de nossas desvantagens", escreve em seu novo livro Minha História (Editora Objetiva), lançado mundialmente nesta semana.

Michelle escreve que, do seu ponto de vista, "era impossível ser uma estudante negra de uma faculdade de maioria branca e não sentir a sombra da ação afirmativa". Isso porque, em meados de 1980, ela não só era a única aluna negra de sua sala do curso de sociologia em Princeton, mas também a segunda integrante de sua família a cursar uma universidade. "Eu quase conseguia ver o escrutínio no olhar de certos estudantes e até de certos professores, como se quisessem dizer: 'Eu sei por que você está aqui'", lembra.

Escrever foi uma profunda experiência pessoal.Michelle Obama, em seu Twitter

Cortesia do arquivo da família Obama-Robinson
O livro de memórias faz parte de um acordo editorial conjunto com Barack Obama.

O livro, traduzido para mais de 28 idiomas, começou a ser vendido na última terça-feira (13) e mostra uma Michelle sem medo de revisitar o passado e tocar em feridas. Ela escreve abertamente não só sobre sua infância humilde no sul de Chicago e de sua relação com Barak Obama, mas também sobre enfrentar o racismo na vida pública e de sua incredulidade ao ser a 1ª primeira-dama negra dos Estados Unidos, de 2009 até 2017. Ela também classifica a campanha de Donald Trump como "preconceituosa e perigosa".

A publicação faz parte de um acordo editorial conjunto com Barack Obama. As memórias do ex-presidente também serão publicadas em breve. Parte dos ganhos serão doados para instituições, incluindo a Fundação Obama. Para divulgar seu livro, Michelle Obama fará uma turnê durante novembro e dezembro nos Estados Unidos. A obra impressa custa R$ 59,90 e o e-book R$ 39,90.

"Escrever foi uma profunda experiência pessoal. Falo sobre minhas raízes e de como uma garota encontra sua voz. Espero que minha viagem inspire os leitores a encontrar o valor para conseguir tudo a que aspiram", escreveu Michelle em seu Twitter. "Chicago moldou quem eu sou. Quero também prestar um tributo à comunidade de South Side que me deu tanto amor desde sempre."

"Vou mostrar a você": Leia um trecho exclusivo de Minha História

Em um trecho publicado com exclusividade pelo HuffPost Brasil, Michelle conta que, mesmo com um currículo exemplar e compatível com o nível de Princeton, chegou a ouvir de uma orientadora que "não fazia bem o tipo" da universidade.

"Naquele dia, ao sair da sala da orientadora, eu estava furiosa, o ego ferido mais do que tudo. Naquele momento, meu único pensamento era: vou mostrar a você", escreve. A jovem desejava seguir os passos de seu irmão mais velho Craig, que se formou lá em 1983.

Meses depois, uma carta chegou à caixa de correio da casa em que morava com seus pais, em Chicago, oferecendo uma vaga. Michelle não só entrou para cursar Sociologia, mas fez especialização em estudos afro-americanos e, mais tarde, deu continuidade à sua carreira acadêmica estudando Direito em Harvard.

"Ninguém da minha família mais próxima tinha muita experiência direta com faculdades", conta em livro. "Nunca achei que entrar na faculdade seria fácil, mas estava aprendendo a me concentrar e a ter fé na minha própria história.". Leia um trecho exclusivo de Minha História:

"Quando chegou a hora de pensar nas faculdades, tanto Santita quanto eu tínhamos interesse em universidades da Costa Leste. Ela chegou a ir a Harvard visitar a faculdade, mas ficou decepcionada quando um oficial de admissões a atormentou por causa da visão política de seu pai, e tudo o que ela queria era ser vista por si mesma. Passei um fim de semana com Craig, em Princeton, onde ele parecia ter entrado em um ritmo produtivo de jogar basquete, assistir às aulas e passar o tempo no centro do campus projetado para estudantes de minorias. O campus era amplo e lindo — o edifício era coberto de hera — e os amigos de Craig pareciam legais. Ninguém da minha família mais próxima tinha muita experiência direta com faculdades, portanto havia pouco o que debater ou examinar. Então achei que, se Craig gostava de lá, eu também gostaria, e o que ele conquistasse eu também seria capaz de conquistar. E assim Princeton se tornou minha primeira opção.


No começo do meu último ano na Whitney Young, fui à primeira entrevista obrigatória com a orientadora a quem fui atribuída.


Não sei muito o que dizer sobre a orientadora porque quase instantaneamente escolhi apagar essa experiência da minha cabeça. Não me lembro de sua idade, cor ou como ela me olhou no dia em que apareci na porta de seu escritório, orgulhosa de me formar entre os 10% dos melhores alunos da turma, de que tinha sido eleita a tesoureira da classe, entrado para a organização National Honor Society (que dá reconhecimento aos melhores estudantes do ensino médio nos Estados Unidos) e conseguido superar praticamente todas as inseguranças que tinha ao chegar lá, tensa, no nono ano. Não sei se ela conferiu meu boletim antes ou depois que anunciei o interesse em ir para Princeton no outono seguinte, onde meu irmão já estudava.


Na verdade, é possível que na breve reunião a orientadora tenha me dito coisas positivas e úteis, mas não me recordo de nada. Porque, estando ela certa ou errada, eu me concentrei em apenas uma frase que ouvi.


"Não sei bem se você é do tipo de Princeton", disse ela, me lançando um sorriso superficial e paternalista.


Seu julgamento foi tão ligeiro quanto desdenhoso, provavelmente baseado em um cálculo rápido que abarcava minhas notas na escola e minhas pontuações nos exames para a faculdade. Era uma versão, imagino, do que aquela mulher fazia o dia inteiro e com uma eficiência vinda da experiência, dizendo a alunos do último ano onde se encaixavam ou não. Tenho certeza de que ela imaginava que era meramente realista. Duvido que tenha repensado nossa conversa.


Mas, como eu já disse, o fracasso começa como um sentimento bem antes de se tornar um resultado verdadeiro. E, para mim, parecia ser exatamente o que ela estava plantando — uma sugestão de fracasso bem antes de eu tentar o sucesso. Ela estava sugerindo que eu baixasse as expectativas, o inverso de tudo o que meus pais já tinham me falado na vida.


Caso eu acreditasse nela, sua afirmação teria derrubado minha autoconfiança de novo, ressuscitando o velho bordão: 'Não basta, não basta'.


Mas três anos ao lado dos ambiciosos estudantes da Whitney Young me ensinaram que eu era mais. Não deixaria a opinião de uma pessoa desfazer tudo o que eu achava de mim mesma. Preferi mudar o método sem mudar a meta. Eu me candidataria a Princeton e a outras faculdades de minha escolha, mas sem levar em conta as opiniões da orientadora. Procurei a ajuda de quem realmente me conhecia. O sr. Smith, diretor assistente e meu vizinho, conhecia meus pontos fortes como estudante e, além disso, confiava os próprios filhos a mim. Concordou em me dar uma carta de recomendação.


Ao longo da vida tive a sorte de conhecer vários tipos de pessoas extraordinárias e talentosas — líderes mundiais, inventores, músicos, astronautas, atletas, professores, empreendedores, artistas e escritores, médicos e pesquisadores pioneiros. Alguns (mas não o suficiente) são mulheres. Alguns (mas não o suficiente) são negros. Alguns nasceram pobres ou tiveram histórias de vida que, para muitos de nós, pareceriam injustamente repletas de adversidades, e ainda assim essas pessoas agem como se tivessem todas as vantagens do mundo. Aprendi o seguinte: todos tiveram quem duvidasse deles. Alguns continuam com uma coleção estrondosa e gigantesca de críticos e céticos que dizem Eu bem que avisei a cada erro ou passo em falso. O barulho não some, porém os mais bem-sucedidos que conheço descobriram uma forma de conviver com ele, de se apoiar nas pessoas que acreditam nelas e de seguir em frente com seus objetivos.


Naquele dia, ao sair da sala da orientadora, eu estava furiosa, o ego ferido mais do que tudo. Naquele momento, meu único pensamento era: Vou mostrar a você.


Então me acalmei e voltei ao trabalho. Nunca achei que entrar na faculdade seria fácil, mas estava aprendendo a me concentrar e a ter fé na minha própria história. Tentei contá-la inteira na redação de admissão. Em vez de fingir que era muito intelectual e que achava que me daria muito bem dentro das paredes cobertas de hera de Princeton, escrevi sobre a esclerose múltipla do meu pai e a falta de experiência da minha família com a educação superior. Assumi o fato de que estava tentando algo difícil. Dada a minha história, tudo o que me restava fazer era tentar.


E, no fundo, imagino que tenha mostrado àquela orientadora, pois seis ou sete meses depois, uma carta chegou à nossa caixa de correio na Euclid Avenue, me oferecendo uma vaga em Princeton. Naquela noite meus pais e eu comemoramos pedindo uma pizza na Italian Fiesta. Liguei para Craig e contei a novidade aos berros. No dia seguinte bati à porta do sr. Smith para contar que tinha sido aceita e agradecer por sua ajuda. Nunca fui à orientadora para contar que ela estava errada — que eu fazia o tipo de Princeton, sim. Não teria mudado nada para nenhuma de nós. E, no fim, eu não precisava lhe mostrar nada. Estava apenas mostrando a mim mesma."