MULHERES
18/11/2018 11:53 -02 | Atualizado 18/11/2018 11:53 -02

Como um time de jogadoras quebrou o teto de gelo do hóquei indiano

Usando equipamentos emprestados e treinando em lagos congelados, um grupo de ex-patinadoras no gelo sonha com a conquista de um torneio internacional.

Uma seleção que depende de lagos congelados, equipamentos emprestados e tem menos recursos governamentais que a Federação Indiana de Pular Corda.
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Uma seleção que depende de lagos congelados, equipamentos emprestados e tem menos recursos governamentais que a Federação Indiana de Pular Corda.

Em certas noites do inverno de 2013, Rigzen Yangdol e um grupo de amigas da escola Students' Educational and Cultural Movement of Ladakh (Secmol) e agasalhavam e saíam do alojamento para enfrentar o ar gelado do Himalaia. Elas iam até um banheiro que ficava perto do prédio principal, enchiam baldes de água e os despejavam num campo de terra próximo.

3 horas depois, à meia-noite, as mulheres, adolescentes ou de 20 e poucos anos, voltavam com os baldes para repetir o processo, preenchendo os pedaços que faltavam. Faziam o mesmo às 2h, quando a temperatura tinha caído para cerca de 20 graus negativos.

Quando o campo inteiro estava coberto por uma fina camada de gelo, elas finalmente iam dormir. E, quando amanhecia o dia, elas pegavam os tacos de hóquei, calçavam os patins -- ambos doados -- e arrastavam as pequenas traves para completar seu rinque improvisado. Depois do primeiro inverno de Rigzen na Secmol, as coisas ficaram um pouco mais fáceis: a água que vai formar o gelo do rinque agora vem de um cano.

"Era bem difícil", diz Rigzen, hoje com 23 anos. Ela está sentada em um tronco à beira do campo e segura um caderninho que tem na capa uma foto de Andrew Ference, um ex-jogador canadense de hóquei no gelo. O inverno acabou, e um grupo de meninos está jogando futebol. Hoje, Rigzen e suas amigas treinam sob a supervisão de um técnico canadense. Muitas das jogadoras não pertencem apenas ao time da Secmol – elas também fazem parte da seleção feminina da Índia de hóquei no gelo.

Em um país de 1,4 bilhão de habitantes, é de Ladakh – uma região com menos de meio milhão de habitantes que só é acessível de avião durante os meses de nevasca – que saem todas as integrantes da seleção. Uma seleção que depende de lagos congelados, equipamentos emprestados e tem menos recursos governamentais que a Federação Indiana de Pular Corda.

Poucos jogadores de nível internacional treinam regularmente ao ar livre; menos ainda o fazem a 4.000 metros de altitude, ainda menos em rinques improvisados. Então, quando a equipe venceu duas partidas na edição de 2017 do maior torneio de hóquei no gelo da Ásia, a surpresa foi tão grande que jogadores, árbitros e espectadores choraram quando tocou o hino nacional da Índia.

Na época, o hóquei só era praticado de forma organizada em Ladakh havia 15 anos. A imensa maioria das jogadoras treina ao ar livre, o que significa uma temporada de apenas dois meses. Mas, depois das duas vitórias, elas se tornaram uma espécie de sensação internacional: encontraram o premiê canadense, Justin Trudeau, em fevereiro, receberam a visita – e equipamentos – de Hayley Wickenheiser, ganhadora de quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Inverno, e foram assunto para incontáveis reportagens.

"Temos muito talento, apesar de tudo – a Índia tem muita energia no esporte nos níveis mais básicos --, então se quisermos conquistar algo, isso é mais que possível", diz a jornalista de esportes Sharda Ugra. "Criamos esse time competitivo de hóquei no gelo a partir do nada. Não temos nem sequer um rinque. Mas as pessoas jogam por amor."

Um investimento incerto

Como no resto do mundo, o esporte feminino na Índia cresceu à sombra dos homens. Um punhado de mulheres anglo-indianas competiu no torneio de tênis de Wimbledon na primeira metade do século passado, e os Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952, contaram com a primeira presença de atletas indianas. Das 28 medalhas que o país conquistou em sua história, cinco pertencem a mulheres. Atletas de ambos os gêneros dependem de recursos do governo e de suas federações. Mas as mulheres têm um obstáculo adicional: expectativas enraizadas da sociedade.

"Acho que o paradigma para a maioria das meninas ainda é o casamento", diz Madhumita Das, pesquisadora de esporte e gênero em Nova Déli. "O casamento é visto como a parte mais importante da vida de uma menina ou mulher."

As ladakhis desfrutam de mais igualdade de gênero que suas compatriotas, mas ainda há poucos exemplos de mulheres de sucesso que combinem esporte, carreira e família.

"Saber que essa talvez seja minha primeira e última oportunidade, você dá 200%", diz Das. Para as meninas que querem seguir uma carreira no esporte, "você tem de provar para todo mundo, e o tempo todo, que o investimento vale a pena".

O Início
Mepham
O time de hóquei no gelo original de Ladakh.

Quando o inverno chega a Ladakh, as estradas que ligam a região ao resto do país fecham, e lagos como o Gupuks e o Karzoo, na cidade de Leh, congelam.

"Não dá para jogar críquete, não dá para jogar futebol – hóquei no gelo é a única opção", diz Jigmet Angchuk, secretário-geral do Clube de Esportes de Inverno de Ladakh, que organiza a maioria dos campeonatos de hóquei na região.

Mas como o esporte chegou a Ladakh? Por volta de 1969, um grupo de soldados achou um sapato esquisito com uma lâmina na sola em um depósito do Exército. Quem me conta a história é Tonzang, o último remanescente do time original da região. Alguém disse que dava para andar no gelo com aquele calçado. Mas a ideia parecia tolice – a lâmina cortaria a superfície de gelo, e a pessoa cairia na água gelada.

"Disse que era algum tipo de maçaneta chique", lembra Tonzang. Mas os soldados se convenceram depois de ver fotos de pessoas patinando.

Então Tonzang e seus colegas improvisaram lâminas para as solas das botas militares, tacos e bolas. Em 1972, eles jogaram o primeiro torneio entre militares, perto da fronteira com a China. Oito anos depois, surgiria o primeiro time de civis.

"Não conhecíamos as regras na época", diz Tonzang. "Improvisávamos sabendo que não tínhamos os equipamentos. A uma certa altura, o goleiro começou a usar equipamentos de críquete." Proteções acolchoadas para o corpo e capacetes só viraram itens obrigatórios em 2006, ano em que Tonzang, hoje com 67 anos, pendurou os patins.

O Clube de Esportes de Inverno de Ladakh estima que entre 10 000 e 12 000 jovens joguem hóquei no gelo em Ladakh. No principal jogo da temporada, que sempre acontece em janeiro, milhares de pessoas vão ao lago Karzoo, alguns aboletados em árvores para ver melhor. Equipamentos e técnicos chegam anualmente do Canadá. (Em Ladakh, a versão corrente é que os ricos canadenses usam os equipamentos uma única vez antes de doá-los.) O único rinque de dimensões oficiais da Índia, na cidade de Dehradun, está fechado há anos, porque o governo local afirma que os custos de operação são excessivamente altos. O gelo de um lago é muito diferente do que se encontra num rinque – é mais duro e cheio de imperfeições, enquanto os rinques são preparados especificamente para a prática do esporte.

Onde tudo começou

O campus principal da Secmol – escola onde nasceu o hóquei no gelo organizado da Índia – fica a cerca de 15 minutos de carro da cidade de Leh. A estrada é sinuosa e acompanha o leito do rio Indus, passando por instalações militares, pelo lago Gupuks e casas decoradas com bandeiras budistas coloridas.

A escola alternativa foi fundada em 1988 para estudantes que tinham dificuldades nas escolas do governo – especialmente aqueles que vinham de famílias pobres da área rural. A escola tem alguns exemplos cintilantes de sustentabilidade: uma máquina de lavar roupas que funciona à base de uma bicicleta; uma casa subterrânea construída com a carroceria de uma van e enormes espelhos côncavos que concentram a luz do sol para ferver água na cozinha. No saguão principal, um aluno aponta os troféus nacionais e internacionais conquistados pelos times de hóquei no gelo da escola.

No começo dos anos 2000, as meninas já tinham tomado gosto pelo gelo, mas no esporte mais tradicionalmente "feminino" da patinação artística. O hóquei no gelo viria em 2002, quando Sonam Wangchuk, fundador da escola, apareceu com um instrutor e uma mala cheia de patins. Pedaços de metal fixados em cabos de vassoura viraram tacos. Um pedaço do campo de futebol coberto de gelo virou o rinque, e pedaços de pau serviam como traves. "Joelhos dobrados, bunda para trás!", gritava o instrutor, enquanto as meninas mal conseguiam parar em pé.

Sam Goldman
Stanzin Dolker é uma das pioneiras do hóquei no gelo feminino na Índia.

Uma das meninas daquele time original era Stanzin Dolker, que começou a construir sua história no esporte local em 2004, quando o Clube de Esportes de Inverno de Ladakh impedia que mulheres participassem de competições.

"Como eles diziam: 'Mulheres não sabem jogar hóquei – esse hóquei é só para homens'", diz Ladakh, hoje com 36 anos. Professora de educação física na cidade de Turtuk, perto da fronteira com o Paquistão, Stanzin fala com a calma de uma atendente de biblioteca.

Então as mulheres decidiram protestar – no gelo. Elas cantaram músicas de protesto e invadiram o rinque com uma faixa exigindo direitos iguais.

"Se não fizer nada esportivo, minha vida não terá sido completa", disse Stanzin para uma equipe de TV sueca que fez um documentário sobre a jornada dela, de patinadora que se exibia no intervalo dos jogos masculinos a principal jogadora de hóquei no gelo da Índia. "É por isso que tenho de gritar. É por isso que tenho de protestar", disse Stanzin.

A "proibição" da participação de mulheres acabou caindo, e, em 2005, Stanzin e suas colegas da Secmol subiram num ônibus e viajaram até Kargill para um amistoso. Com o sucesso do jogo, elas receberam o OK para fazer um jogo de volta, em casa. Usando agasalhos cinza e tacos improvisados, elas jogaram num gelo que mais parecia a superfície de Enceladus, a lua gelada de Saturno. Quedas e escorregões eram frequentes, e só as goleiras usavam capacetes e outros equipamentos de proteção.

9 anos depois, as jogadoras de hóquei ainda eram tão poucas que Stanzin mal conseguia formar dois times. Ela tinha de pedir a ajuda da Ladakhi Women's Travel Company – uma agência de viagens de Leh formada só por mulheres – para completar as equipes.

"Depois do fim de um torneio, liguei para todas as mulheres e para as capitãs e disse que ninguém nos apoiava", diz ela. "Temos de melhorar. Temos de criar uma associação."

No ano seguinte, depois de recolher a papelada necessária para entrar com o pedido formal, nascia a Fundação de Hóquei no Gelo Feminino de Ladakh.

Hoje, os representantes do Clube de Esportes de Inverno estima que cidades maiores, como Leh, tenham entre oito e dez times masculinos, que participam de até seis campeonatos, dependendo dos recursos disponíveis e do tipo de clube. No feminino, são quatro os times – um a mais que os três mínimos necessários para montar um campeonato. A fundação e a Secmol compram e distribuem os equipamentos e são responsáveis pela arrecadação. Os homens tiveram de se adequar à nova realidade, diz Stanzin.

"Antes, eles diziam: 'as mulheres não sabem jogar, não sabem, os homens é que jogam de verdade'", afirma ela. "Mas agora os tempos mudaram, e as mulheres são muito fortes, estão voando no gelo."

Em 21 de janeiro de 2016, a Secmol derrotou sua arquirrival, a Siachen, por 4 a 3 na final regional. "Não vai demorar para que elas encham Ladakh de orgulho em nível internacional", afirmou Tashi Dolma, autoridade do governo de Leh e convidado de honra da partida, depois do jogo.

Facebook/Ladakh Winter Sports Club
A final nacional de 2015, disputada no lago Karzoo, em Leh.

Querendo mais

Durante anos, Disket Angmo fez parte do grupo de meninas que se apresentava no intervalo das partidas masculinas. A estudante de literatura da Universidade de Nova Déli, uma das menores jogadoras no gelo, calçou os patins por insistência do pai, policial e integrante do Clube de Esportes de Inverno. Ele arrastava Disket e o irmão dela para os eventos do clube durante as longas férias de inverno.

Disket começou a patinar só para apaziguar o pai, mas os incentivos dele foram a fundação do que viria a ser uma carreira esportiva de 22 anos. "Acho que foi tudo por causa dele", diz Disket, falando do pai, que morreu há quatro anos.

Quando Disket começou a patinar, algumas mulheres a abordaram, perguntando se ela não estava interessada em jogar hóquei. Apesar de a patinação artística ser um esporte relativamente popular para as meninas locais, as roupas chamavam um tipo de atenção indesejada. Esse é um dos motivos pelos quais as roupas grandes e neutras têm apelo. "Acho que há menos críticas no hóquei", diz ela. "Foi por isso que escolhi esse esporte."

Seu irmão mais velho, Tsewang Gyaltson, já era um jogador conhecido. Ela pediu conselhos para ele.

"Ele disse algo do tipo: 'Não, não, não é para meninas'", afirma Disket. Em 2016, quando o país formou a primeira seleção feminina, "até ele dizia: 'É, acho que você deveria treinar'".

Algumas jogadoras aprenderam a patinar com os irmãos mais velhos. Outras tiveram contato com o esporte de um jeito mais parecido com o de Tonzang, o ex-soldado pioneiro do hóquei na região. "Jamais imaginaria que um patim seria assim", lembra uma mulher. Elas entraram para clubes e começaram a participar de campeonatos. Mesmo sabendo pouco das regras oficiais do esporte, elas queriam mais.

A seleção

Sete anos depois da estreia internacional da seleção masculina, a Associação de Hóquei no Gelo da Índia fez os primeiros testes para a escolha de uma equipe feminina. Eles foram procurar as candidatas em Ladakh.

Tsetan Dolma estava na Secmol quando soube que tinha sido convocada para a primeira seleção feminina do país.

"Pensei: 'Não, não faz piada com isso'." Com certeza uma menina de 20 anos quase sem experiência não teria sido escolhida para a equipe. Aí, outra pessoa a procurou para dizer a mesma coisa. A resposta foi a mesma: "'Não, não faz piada com isso'". Finalmente, Tetsan, hoje com 23 anos, acreditou: dois anos depois de começar a praticar o esporte, a defensora direita iria jogar na Challenge Cup of Asia, evento da Federação Internacional de Hóquei no Gelo (IIHF, na sigla em inglês), em Taipei.

Mas não seria a seleção indiana de hóquei feminino se não houvesse outro tropeço. Algumas jogadoras, nascidas e criadas em uma das áreas mais remotas do país, não tinham nem sequer passaporte. Algumas delas não foram a Taiwan.

Tsetan correu para providenciar a documentação, com ajuda de mentores da escola e depois de dias inteiros resolvendo burocracias. A equipe foi para Nova Déli para treinar em um rinque miniatura, e foi na capital indiana que ela recebeu seu passaporte. "Consegui nove passaportes em dois dias", diz Harjinder Singh, presidente da Federação Indiana de Hóquei no Gelo, "o que é um recorde histórico na Índia".

Para muitas das jogadoras, a viagem foi a primeira oportunidade de sair do país. O tamanho do rinque oficial as deixou perplexas; Tsetan calcula que ele tinha o dobro do tamanho daquele usado nos treinos em Nova Déli. E havia outro probleminha. Tsetan e as companheiras estavam acostumadas a jogar segundo regras não-oficiais. "Sim, eu sei jogar hóquei no gelo", explica ela, "mas eu não conhecia as regras oficiais da IIHF". As jogadoras tiveram de aprender na marra, durante as quatro partidas que disputaram.

E então tinha a questão do gelo. As 21 jogadoras eram patinadoras experientes, mas teimavam em escorregar na superfície lisa do rinque oficial – como se nunca tivessem patinado no gelo antes. "Para começo de conversa, a gente tinha de entender como ficar em pé no gelo", diz Disket. "Era muito escorregadio. Era tão diferente que a gente mal conseguia controlar o disco." A goleira Noor Jahan teve de jogar com o taco emprestado da jogadora de Taiwan, pois o seu quebrou – e uma de suas luvas tinha um furo no dedão.

Facebook/Ice Hockey Association of India
Noor Jahan recebe o prêmio de melhor goleira da edição de 2016 da Challenge Cup of Asia, em Taipei, Taiwan.

A seleção indiana, que jogou com um uniforme reluzente cor de açafrão e outro azul – estreou no dia 22 de março de 2016, 14 anos depois da primeira partida organizada em Ladakh. Disket, Tsetan e companheiras perderam de 8 a 1 da equipe de Cingapura. No dia seguinte, tomaram 12 a 1 da Tailândia. As coisas pioraram quando Disket quebrou a perna num lance de azar. "Foi ruim", diz ela. "Muito ruim, mesmo." A essa altura, começou o mar de lágrimas. "Primeiro, elas estavam perdendo", diz ela sobre as companheiras. "E não sabíamos nada desse jogo... aí as pessoas começam a se machucar. Ficamos muito abaladas."

No outro dia, Taiwan fez 13 a 0 nas indianas. A melhor performance do time aconteceu em 25 de março: uma derrota por 6 a 3 contra a Malásia. No final do campeonato, o time fez oito gols e tomou 36.

Depois da fratura, "minha mãe literalmente me mandou parar de jogar hóquei", afirma Disket. "Fiquei muito deprimida. Pensei: 'Merda, não era para estar acontecendo uma coisa dessas'. Tentei convencer minha mãe: "Por favor, por favor, não faça isso comigo'."

Momento de arrepiar

As jogadoras dizem que mantiveram o otimismo; ao menos elas tinham de respeitar aqueles que as apoiaram com dinheiro e equipamentos.

Nos meses seguintes, Disket tratou de convencer a mãe a permiti-la a voltar ao gelo. Ela chegou a mandar vídeos de jogadoras de hóquei profissional trocando socos e saindo do rinque com o nariz sangrando. Está vendo como há lesões muito piores? Aos poucos, ela foi dobrando a mãe. "Até que ela finalmente disse: 'OK, vamos ver no que dá'."

Depois das surras em Taiwan, a equipe repassou as regras e aprendeu os detalhes tão importantes: como apertar os patins, como vestir os equipamentos de proteção da maneira correta (alguns dos quais eram emprestados da seleção masculina). A federação decidiu que os lagos congelados de Ladakh e o mini-rinque da capital não eram suficientes. Depois de uma campanha de crowdfunding, o time foi treinar no Quirguistão, num rinque de verdade. Os homens passaram um mês treinando para um campeonato no Kuwait; as mulheres, duas semanas, para um evento na Tailândia.

A edição de 2017 da Challenge Cup of Asia teve sete participantes. A Índia perdeu o primeiro jogo para os Emirados Árabes Unidos por 6 a 4. No dia seguinte, chegaram ao terceiro período ganhando de 1 a 0. As equipes se alternaram marcando gols e, quando soou o apito final, as meninas de Ladakh tinham sua primeira vitória: 4 a 3. Disket jogou o taco para o ar.

"Nem acreditava que aquilo era verdade", diz ela. "A expectativa era ganhar pelo menos um jogo e, quando aconteceu, parecia um sonho que virou realidade."

Um ano depois, ela ainda pausa no meio das frases, como se quisesse explicar exatamente o que aconteceu: "Todas as críticas, todo o trabalho, o sofrimento, as dificuldades que enfrentamos até ali – tudo veio pra fora."

Dessa vez, as lágrimas foram de alegria. Disket lembra de ver os árbitros chorando também. O auge foi quando tocou o hino indiano. "Foi coisa de outro mundo", diz Disket.

"Choramos só de olhar para a bandeira", diz Tsetan. "Todo mundo pensando: 'Essas meninas são incríveis'."

O dia seguinte era de folga, mas depois vieram as partidas mais difíceis da curta história da seleção: derrotas para Nova Zelândia, Tailândia e Cingapura, por um placar total de 39 a 3. A última partida foi uma espécie de redenção, com a vitória de 5 a 4 sobre a Malásia. O jogo foi muito emocionante. A Índia estava na frente no placar quando faltavam apenas 11 segundos para o fim do jogo. A Malásia tirou a goleira do gelo para colocar uma atacante extra, mas as indianas seguraram o resultado. Quando tocou a buzina indicando fim de jogo, elas sabiam que ouviriam o hino mais uma vez. "Foi um momento de arrepiar", lembra uma das jogadoras.

Disket foi eleita a melhor jogadora indiana pelo técnico, o que garantiu de vez o apoio de sua mãe – que ficou com o troféu.

Sam Goldman
A crescente coleção de troféus, medalhas e fotos na casa da mãe de Disket Angmo, em Leh. (Foto: Sam Goldman)

Atenção internacional

A comemoração começou assim que a equipe posou no aeroporto de Leh. Amigos, parentes e torcedores foram recepcionar a equipe.

O sucesso se traduziu em mais fãs. As duas vitórias na competição multiplicaram o público nas partidas locais. A história da equipe das jovens mulheres – que não tinham lugar adequado para treinar, precisavam pegar equipamentos emprestados de vizinhos e amigos e faziam tudo com um orçamento mínimo – logo ganhou a atenção da mídia internacional. Pequenos artigos e vídeos das meninas patinando no gelo áspero do lago Gupuks correram o mundo. Andrew Ference, ganhador de quatro medalhas de ouro olímpicas e recém-aposentado da liga americana de hóquei profissional, a NHL, foi visitar a equipe.

A atenção internacional, até então restrita à equipe masculina, se voltou para as mulheres – uma mudança que Singh, presidente da federação, acha que não ajuda o esporte. Os homens também passam por dificuldades, afirma ele. "Os homens são muito disciplinados, mas os próprios jogadores têm de arcar com parte dos custos", diz Singh. "As mulheres não fizeram o mesmo; elas sempre receberam tudo de bandeja."

Tente dizer isso para o premiê do Canadá, Justin Trudeau, que encerrou sua visita oficial à Índia com um encontro com as jogadoras da seleção de hóquei. "A equipe feminina de hóquei no gelo da Índia está rompendo barreiras, aceitando desafios e mostrando para meninas que tudo é possível", tuitou Trudeau.

"Nunca imaginamos que um jogador da NHL pudesse vir para Leh", diz Disket. "Dá para imaginar – fala sério – as pessoas que você assiste todos os dias na internet, e de repente elas estão aqui para te ensinar?"

Mas, menos de um mês antes da celebração com Trudeau, o hóquei tinha dado uma parada em Leh. Sonam Dawa Lopo, a mais alta autoridade da cidade, morreu repentinamente, vítima de um ataque do coração sofrido durante um torneio local. Todos os eventos oficiais foram cancelados. Os treinos foram suspensos. A equipe não iria de novo para a temporada de treinos no Quirguistão.

A seleção chegou a Kuala Lumpur, na Malásia, praticamente sem treinar para a edição deste ano da Challenge Cup. As jogadoras tiveram de entrar em forma no primeiro jogo, contra os Emirados Árabes Unidos: derrota de 6 a 1. No dia seguinte, tomaram 5 a 0 das donas da casa. Dois dias depois, no último dia da competição, as indianas estavam ganhando das filipinas por 2 a 0 no final do primeiro período. Mas, no fim da partida, a equipe adversária saiu vencedora: 6 a 2. Foi a partida que decidiu a medalha de bronze.

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A seleção feminina de hóquei no gelo posa para foto na edição deste ano da Challenge Cup of Asia, em Kuala Lumpur, Malásia. (Foto: Ice Hockey Association of India)

"Agora as meninas precisam melhorar o jogo delas", diz o secretário do Clube de Esportes de Inverno Noney Wangchok numa conversa no lobby do hotel mais chique de Leh. As autoridades já não mandam as meninas saírem do gelo, mas as exigências para que elas continuem jogando continuam altas. "Elas estão melhorando, mas não sei", diz ele, reticente. "Mulheres são mulheres, afinal de contas."

Mas o time não perdeu tempo chorando as derrotas. Entre as aulas e as partidas de pingue-pongue e as mensagens de WhatsApp, agora elas fazem um período de preparação "fora do gelo" – praticando técnicas e trabalhando o condicionamento físico. Elas acreditam que podem vencer duas partidas na temporada de inverno, e talvez até mesmo um título da Challenge Cup of Asia não seja um objetivo inalcançável.

"Taiwan é um bom time, Cingapura, também", diz Stanzin, que se aposentou depois do torneio de 2016. "Mas ser campeãs não é impossível. Somos capazes."

Muitos desafios

Segundo o Ministério da Juventude e dos Esportes, não houve verbas destinadas ao hóquei no gelo desde o ano fiscal 2014-2015. Entre 2011 e 2015, o esporte recebeu somente Rs 3,5 lakh. Segundo os números mais recentes, para o ano 2016-2017, a Hockey India (entidade que governa o hóquei na grama, modalidade muito mais popular do esporte no país) recebeu Rs 12,2 crore. A Federação de Futebol All India recebeu Rs 9,1 crore (1,4 milhão de dólares) e Rs 74,7 lakh (115 000 dólares) foram destinados à federação nacional de tae kwon do. A federação nacional de bridge – que governa o jogo de cartas – recebeu Rs 8,7 lakh (13 400 dólares) naquele ano.

"Apertado", portanto, é um termo generoso para descrever o orçamento das seleções de hóquei no gelo. Segundo Singh, a campanha das mulheres no ano passado – incluindo a temporada de treinos no Quirguistão e as viagens para Nova Déli e Bancoc – custaram cerca de Rs 35 lakh (54 000 dólares). (A conta da seleção masculina, que passou o dobro do tempo no Quirguistão e competiu no Kuwait, ficou em cerca de Rs 49 lakh, ou 75 600 dólares). "Desenvolvimento de jogadores" e conferências esportivas são custos extra. A Secmol e a Fundação de Hóquei no Gelo Feminino de Ladakh ajudam com campanhas de crowdfunding.

Mas os recursos para as temporadas de treino no Quirguistão podem ser ainda mais importantes – pois a mudança climática pode estar afetando as regiões mais frias da Índia. Um professor de Ladakh me mostrou as anotações minuciosas que seu pai fazia do tempo. As temperaturas em Leh estariam entre 7 e 10 graus fahrenheit mais altas que no começo dos anos 1990.

Sam Goldman
A construção de uma arena de hóquei em Leh está paralisada por falta de recursos. A ideia é que o rinque seja coberto, para permitir treinos e partidas entre outubro e março. (Photo: Sam Goldman)

Uma solução é uma arena de concreto que está sendo erguida perto do campo de críquete. Vigas de aço brotam das colunas, e a arquibancada começa a tomar forma. A ideia é que o rinque tenha algum tipo de cobertura, para que o espaço seja aproveitado de outubro a março. Mas os recursos acabaram – e jogadores de críquete usam o espaço para treinar. A expectativa oficial é que a arena esteja pronta em cinco anos – mas, se surgirem recursos adicionais, as obras podem ser concluídas em somente um ano.

O clima, os problemas fiscais e a falta de equipamentos, porém, é só metade da história. As mulheres de Ladakh têm outros obstáculos para superar: falta de apoio da família, pressão para conseguir "empregos de verdade" e também a pressão para casar e começar uma família.

"Casei em 2012", diz Stanzin. "Meu filho tem cinco anos, e eu ainda jogava hóquei depois do nascimento dele."

O que ninguém nega é o fato de que uma carreira no esporte não tem efeito prático para quem almeja um emprego no serviço público – que, na prática, é uma ocupação para toda a vida.

O estado de Jammu e Caxemira, centro do hóquei no gelo indiano, não reconhece o esporte oficialmente. Isso significa que os anos no gelo não contam pontos nos concursos que determinam quem vai conseguir um desses cobiçados empregos públicos. Ou seja, mesmo que um jogador ou uma jogadora de hóquei no gelo tenha uma carreira com conquistas – caso de Disket, por exemplo --, isso não representa nenhuma vantagem na hora de concorrer a uma vaga de professora. Stanzin conseguiu seu emprego atual porque teve bom desempenho num concurso.

"Não posso ficar pressionando as mulheres, dizendo: 'Jogue hóquei, jogue hóquei, jogue hóquei'", diz Stanzin. Quando chegar a hora de elas procurarem um emprego, a pressão "já será grande o suficiente".

Olho no futuro

O pragmatismo de Stanzin não significa que suas ex-companheiras de equipe estejam desanimadas. Algumas pensam em fazer carreira como árbitras; outras dizem receber apoio dos técnicos para seguir carreira no esporte. Já existem clínicas para novas técnicas e técnicos, e os eventos atraem até 70 crianças cada um – uma maneira de preparar as futuras gerações, diz uma jogadora. De qualquer modo, elas querem voltar a ouvir o hino nacional indiano – "colocar a bandeira no lugar mais alto", diz Tsetan. Mas a coisa mais importante, concordam as atletas, é que as pessoas do resto do mundo saibam como se joga o hóquei no gelo aqui – e que o esporte é praticado por mulheres e meninas.

Será que as barreiras de gênero já foram rompidas? Será que esse grupo improvável de jogadoras será um exemplo para as novas gerações de meninas locais? Stanzin fica pensativa. "Sim, sim, vamos chegar lá, vai mudar", diz ela. "Tenho certeza que vai mudar."

"Às vezes, lá no fundo, é tipo: 'OK, talvez não seja nada, estamos perdendo tempo'", afirma Disket. Mas aí um ex-jogador profissional e dono de quatro medalhas de ouro aparece no seu canto do mundo. E você dá um high-five no primeiro-ministro do Canadá.

"Acho que o hóquei no gelo tem um bom futuro no país", diz ela. "E estou otimista, vai ser incrível."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.