14/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 14/11/2018 00:00 -02

Roseli Tangi, a aposentada que fez da paixão por jardinagem um grande negócio

Após 30 anos como bancária, ela virou empreendedora: “Queria fazer algo que eu gostasse e que pudesse ganhar um dinheirinho", disse em entrevista ao HuffPost Brasil.

Roseli Tangi é a 252ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Roseli Tangi é a 252ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Praticamente toda semana ela vai às compras. Já sabe o que vai levar, mas sempre fica de olho em algo novo. "Adoro plantinha diferente", diz, animada. No fim das contas, muitas vezes tem que fazer um milagre para tudo caber no carro. Não raro ela volta para casa com uma muda ou outra no colo mesmo. Mas está em ótima companhia. E feliz da vida com a nova rotina e com as adaptações todas que essa atividade trouxe. Chegando em casa, a garagem não é mais lugar apenas de guardar o carro. Ao menos 4 estantes ocupam as paredes, cheias de plantas. Ao fundo está sua bancada de trabalho e na escada descoberta que dá acesso ao andar superior mais matéria prima: plantas. "Essas precisam de sol, então tenho que deixar aqui na escada". No andar de cima, a sala também ganhou uma nova decoração. Na mesa de jantar estão os vasos grandes e ao lado do sofá os vasos menores, em prateleiras.

Roseli Tangi, 56 anos, abriu o Sekai Ateliê, sua empresa de jardinagem, há cerca de um ano e meio, logo após deixar a vida de décadas como bancária. "Trabalhei 30 anos no banco, era daquelas bem estressadas. Eu aposentei e começou a me dar aquela 'depressãozinha' e fui fazer um monte de cursos. Queria fazer alguma coisa, algo que eu gostasse e que pudesse ganhar um dinheirinho". Nessa, acabou parando na jardinagem. Influenciada pela mãe, sempre gostou de plantas e no curso uma das participantes ensinou a fazer terrários em vidros. "Foi só com eles que me deu um estalo de que eu queria, gostava e que era comercialmente interessante". Gostou mesmo da coisa. Começou a pesquisar, aprimorar as técnicas, aumentar a produção, mas ainda como hobbie apenas. "No natal de 2016 a família inteira ganhou terrário de presente!", brinca.

Trabalhei 30 anos no banco, era daquelas bem estressadas. Eu aposentei e começou a me dar aquela depressãozinha e fui fazer um monte de cursos.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Roseli se diz "feliz da vida" com a nova rotina e com as adaptações que o Sekai Ateliê trouxe.

Mas foram muito bem recebidos. Tanto que na sequência, passou a receber encomendas de vizinhos e conhecidos e foi quando ela viu que podia e queria de fato seguir nessa atividade não apenas como uma ocupação do seu tempo, mas como um negócio de verdade. Além dos terrários em vidros, Roseli começou também a fazer os chamados "kokedamas" – arranjos de planta fixados em uma esfera feita com musgo – e os clientes foram aumentando. Incentivada pela filha, foi então em busca de um nome e de uma marca. "Sekai quer dizer 'mundo' em japonês. E na hora que monto o terrário quero que ele pareça um mundinho, um mundinho dentro do vidro. E o kokedama também remete a esse formato do mundo e assim nasceu a empresa".

Em pouco tempo o ateliê começou a participar de feirinhas e a marca foi crescendo. Atualmente, a filha e a sobrinha ajudam na parte administrativa e de divulgação e o marido faz as entregas aos finais de semana. "Uma coisa bem familiar", ela define. Hoje, além das vendas pela internet, Roseli participa de bazares e feiras praticamente toda semana.

Sekai quer dizer mundo em japonês. E na hora que monto o terrário quero que ele pareça um mundinho, um mundinho dentro do vidro.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Sekai quer dizer 'mundo' em japonês", diz Roseli. E ela tenta colocar um universo inteiro em cada produção.

Costume aliás, que não é nada estranho para ela. Filha de feirantes – os pais japoneses vieram para o Brasil na década de 60 – ela e os irmãos sempre acompanhavam os dois na venda de verduras e legumes em São Paulo. "A gente ia junto. Era um tempo que não tinha muita opção... ou as crianças ficavam sozinhas em casa ou acompanhavam os pais e eu e meus irmãos ajudávamos, tínhamos esse contato com o público, essa coisa de comércio. Isso sempre foi natural para a gente".

O que não era natural era vender as próprias criações. Roseli lembra que ficou um bom tempo insegura com seus terrários e diz que tinha dúvida se eram realmente bonitos. "Eu achava que era interessante, mas tinha receio. Hoje já olho e acho que são bonitos". E pegou muita prática. Em poucos minutos ela é capaz de montar um terrário. Pega seus utensílios – usa objetos comuns como colher de pau e hashi – e faz a mistura de musgo, carvão, pedras, terra e plantinhas. Com muita tranquilidade.

Eu e meus irmãos íamos junto [na barraca de feira dos pais], ajudávamos, tínhamos esse contato com o público, essa coisa de comércio. Isso sempre foi natural para a gente.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Bastam poucos minutos para Roseli transformar musgo, carvão, pedras, terra e plantinhas em um terrário.

Isso, por sinal, é algo necessário para esse tipo de trabalho. Roseli gosta de ter rotina e horário para fazer as suas peças e destaca que é um momento em que é importante ficar relaxada e zen. "Um dia briguei feio com o meu filho e logo depois fui lá fazer terrário. Aí respirei fundo... e passou todo aquele mal estar. Você vê como aquele trabalho faz bem. Fico até meio emocionadinha, mas acho que o mais legal é as pessoas gostarem, aquilo fazer bem para elas. O bem que você sentiu na hora de fazer passa para quem compra também".

É claro que nem sempre é essa plenitude de espírito, sejamos honestos. Roseli diz que vez ou outra fica irritada e um pouco estressada com a falta de lugar para colocar as plantas e a confusão que às vezes acaba armando na casa para dar conta dos terrários e dos kokedamas e garantir que seus cachorros fiquem longe das plantas. Mas isso passa bem longe do stress que sentia quando trabalhava no banco. Apesar de ter sofrido um pouco em ficar sem produzir no formato de antes, dessa escolha ela não se arrepende. "Precisava me desvencilhar, já tinha sido demais pra mim, eu estava no meu limite. Não que eu não gostasse do que eu fazia, mas tinha muita cobrança. Já tinha dado meu tempo no banco".

Acho que o mais legal é as pessoas gostarem, aquilo fazer bem para eles. O bem que você sentiu na hora de fazer passa para quem compra também.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Roseli encontrou um trabalho que alia retorno financeiro com propósito e prazer. E para ela não há mundo melhor.

Hoje, em seu próprio mundo, aquele que criou para si, Roseli encontrou um trabalho que alia retorno financeiro com propósito e prazer. Não há mundo melhor. Agora é só regar com cuidado. E atenção: não precisa de muita água. Um pouquinho já é suficiente. De resto, é só contemplar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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