POLÍTICA
13/11/2018 18:02 -02 | Atualizado 10/01/2019 18:17 -02

General Augusto Heleno: É 'questão de coerência' escalar militares no governo

Para futuro ministro-chefe do GSI, presença de generais no gabinete não representa "militarização" e críticas a essas escolhas são "preconceito".

Adriano Machado / Reuters
O general Augusto Heleno, que chefiará o GSI, com o presidente eleito, Jair Bolsonaro.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, anunciou nesta terça-feira (13) mais um militar para seu gabinete: o general Fernando Azevedo e Silva, que já foi chefe do Estado-Maior do Exército, será ministro da Defesa.

O primeiro e mais influente dos militares apontados por Bolsonaro, o general Augusto Heleno, que chegou a ser cotado para a Defesa e agora assumirá o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), diz ver uma "questão de coerência" ao escalar generais para o governo.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Heleno afirmou que com o governo Bolsonaro "parece que o Brasil resolveu se valer do investimento que faz na preparação dos militares".

"Achar que os militares estarem participando do governo é uma 'militarização' não tem nada a ver. É um aproveitamento natural de um recurso humano disponível, bem preparado e que pode perfeitamente ser aproveitado", disse.

O que a gente pode considerar é que, por uma questão de coerência, o Brasil parece que resolveu se valer do investimento que faz na preparação dos militares. Achar que os militares estarem participando do governo é uma 'militarização' não tem nada a ver.

Segundo Heleno, há "preconceito" com relação aos generais no governo, "plantado por gente que quer manter esse ranço quanto aos militares".

"[Vamos] Esquecer esses preconceitos, essas bobagens de que 'os militares estão voltando'. Não tem nada disso. Mas somos cidadãos, pagamos impostos, votamos, temos um zelo. Fazemos parte das entidades que mais zelam pela democracia no Brasil. Então tem que passar uma régua e esquecer", disse, por telefone.

O general também criticou a Comissão Nacional da Verdade, que segundo ele, "contou a história só de um lado". A Comissão investigou, entre 2012 e 2014, crimes da ditadura militar e apontou 377 pessoas como responsáveis diretas ou indiretas pela prática de tortura e assassinatos no período.

Recentemente, o presidente eleito afirmou que os militares não ocupariam mais de um terço do seu gabinete.

Poucas horas depois do anúncio do nome de Fernando Azevedo e Silva, Bolsonaro disse a jornalistas que, apesar de o general hoje assessorar o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, a sugestão do nome não veio do ministro. "Essa é uma questão entre nós, e eu ouço muito o general Heleno para bater o martelo nessas questões", afirmou o presidente eleito.

Os dois generais da reserva do Exército serviram juntos no início da missão de paz no Haiti, entre 2004 e 2005. Heleno foi o primeiro comandante das tropas da Minustah (Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti) e tomava conta de 14 contingentes. Azevedo e Silva foi chefe de operações da brigada brasileira no mesmo período.

Questionado sobre a proximidade dos dois à época, Heleno respondeu que teve contato com Azevedo e Silva "a vida inteira". Para ele, uma possível transferência do conhecimento obtido na missão para suas atuações no governo teria que ser "muito cuidadosa". "O Haiti é outra situação: missão de paz, uma ação excepcional. Aqui é diferente", disse. "Mas quando você vai tomar uma decisão, sem sentir, a sua bagagem acaba influenciando. A gente acaba aplicando os conhecimentos."

Leia a entrevista na íntegra com o general Heleno.

HuffPost Brasil: O general da reserva Fernando Azevedo e Silva foi indicado nesta terça-feira para o ministério da Defesa, na confirmação de mais um militar no gabinete de Jair Bolsonaro. Como o sr. vê essa presença de militares no alto escalão do governo? É, de certa forma, uma tentativa de retomar o prestígio das Forças Armadas?

General Augusto Heleno: O prestígio das Forças Armadas sempre foi grande. Elas sempre foram muito consideradas pela população, é só ver as pesquisas de grau de confiança... As Forças Armadas sempre foram praticamente líderes das pesquisas.

O que a gente pode considerar é que, por uma questão de coerência, o Brasil parece que resolveu se valer do investimento que faz na preparação dos militares. Achar que os militares estarem participando do governo é uma 'militarização' não tem nada a ver. É um aproveitamento natural de um recurso humano disponível, bem preparado e que pode perfeitamente ser aproveitado.

Eu estava fazendo as contas outro dia: são 5 anos de escola primária, 7 anos de colégio militar, mais 4 de academia militar e 2 do curso de capitão, mais 3 da escola de Estado-Maior e mais 1 ano do curso de estratégias. São 17 anos de investimento da nação no militar que chega ao generalato. Isso é uma instrução financiada pelo dinheiro público. Não usar isso aí é uma bobagem sem tamanho.

Na sua opinião, por que há tanta repulsa em relação à presença de militares no governo?

Puro preconceito. É uma palavrinha só: preconceito. Plantado por gente que quer manter esse ranço quanto aos militares. Os caras vêm falando em regime militar, não sei o quê. Outro dia o general Villas Bôas [comandante do Exército], em uma entrevista à Folha, falou uma coisa muito interessante: sobre como é que o pessoal gosta de resgatar coisas de 54 anos atrás. Imagine se na época do Getúlio Vargas [as pessoas] tivessem falando em 1900. É mais ou menos isso aí. É a mesma distância histórica.

Então você tem que parar com esse troço. Vamos tocar o Brasil pra frente, vamos fazer um Brasil novo. Esquecer esses preconceitos, essas bobagens de que 'os militares estão voltando'. Não tem nada disso. Mas somos cidadãos, pagamos impostos, votamos, temos um zelo. Fazemos parte das entidades que mais zelam pela democracia no Brasil. Então tem que passar uma régua e esquecer.

Como fazer isso num País em que a lembrança das torturas da ditadura ainda estão tão presentes e em que o presidente eleito elogia publicamente um torturador?

[As pessoas] toda hora provocam isso para ouvir as mesmas coisas. Contam uma história diferente da realidade e aí, naturalmente, há uma reação de quem é atingido por uma história mal contada.

Essa Comissão da Verdade — é uma vergonha o que eles fizeram, contaram a história só de um lado. Houve uma anistia, e as pessoas não se convencem de que houve uma anistia. Então toda hora resgatam esse negócio. Não leva a nada isso aí. Isso aí é uma doutrinação da esquerda. A esquerda é capaz de transformar o fato da história para contar a história do jeito que eles acham que foi. Isso é desonestidade intelectual, só isso.

Essa Comissão da Verdade — é uma vergonha o que eles fizeram, contaram a história só de um lado. Houve uma anistia, e as pessoas não se convencem de que houve uma anistia. Então toda hora resgatam esse negócio. Não leva a nada isso aí. Isso aí é uma doutrinação da esquerda.

Daniel Morel / Reuters
O general Augusto Heleno, enquanto comandava a missão militar da ONU no Haiti.

O sr. e o general Fernando Azevedo e Silva serviram juntos no Haiti, bem no início da missão de paz da ONU no país. Como essa experiência pode influenciar no próximo governo?

Não tem relação direta [a passagem pelo Haiti], não. É apenas porque as escolhas para o Haiti já procuram incidir sobre aqueles que foram bem sucedidos na carreira [militar]. Pela natureza da missão, por tudo que se esperava lá, é natural que essa escolha fosse muito criteriosa.

É lógico que a experiência do Haiti foi muito enriquecedora. E é lógico que nada do que nós vivemos é desprezível. Foi uma situação nova, em que nós estávamos sob o foco do mundo inteiro, então para nós valeu muito. Tenho certeza que acrescentou para ele [general Azevedo e Silva] também. Não é uma coisa que esteja presente em todos momentos, mas quando você vai tomar uma decisão, sem sentir, a sua bagagem acaba influenciando. A gente acaba aplicando os conhecimentos.

Mas cada caso é um caso, e a transferência de conhecimento tem que ser muito cuidadosa. O Haiti é outra situação: missão de paz, uma ação excepcional. Aqui é diferente.

Entre os militares, a escolha de mais um nome do Exército não gera ciúmes entre Marinha e Aeronáutica?

Nada a ver, essa é uma bobagem. Tenho certeza que não tem nada disso. As forças são muito harmônicas, muito integradas. Elas não têm essa ciumeira. Já tivemos ações conjuntas, combinadas, multifocais: a própria missão de paz no Haiti tinha fuzileiro naval, tinha Exército, tinha Força Aérea transportando. A Amazônia é um exemplo típico de integração de esforços.

E tem várias funções dentro do Ministério da Defesa de generais de quatro estrelas, que naturalmente serão ocupadas pelas outras forças — exatamente para buscar esse equilíbrio e essa troca de conhecimentos, de experiências. Isso traz um retorno muito positivo. As forças têm características bastante marcantes, e quando ela se juntam, fazem valer suas características, suas aspirações.

Como o sr. vê a declaração dada pelo comandante do Exército, general Villas Bôas, à Folha de que há risco de politização dos quartéis?

Eu discordo totalmente, descarto totalmente [a politização], não acho que tenha possibilidade de isso acontecer. As Forças Armadas estão vivendo uma outra época, mas foram completamente vacinadas contra essa politização. Por que vão se politizar agora?

Tivemos 33 anos [desde o fim da ditadura militar], e não aconteceu nada de politização. Não vai acontecer. As Forças Armadas estão vacinadas contra essa provocação. Não vai acontecer.

As Forças Armadas estão vivendo uma outra época, mas foram completamente vacinadas contra essa politização. Por que vão se politizar agora?

O prazo da intervenção federal no Rio de Janeiro termina em 31 de dezembro. O governo Bolsonaro pretende prorrogar a atuação dos militares no Rio?

Não sei, isso não foi conversado, pelo menos que eu saiba. E não é da minha área. Isso aí tem que ser conversado pelo governador do estado e pelo presidente da República.

E qual a posição do presidente eleito?

Não sei, nunca conversei com ele sobre esse assunto.

Vocês estão prevendo um esquema reforçado de segurança para Jair Bolsonaro na posse, considerando o atentado contra ele durante a campanha?

Não foi definido ainda o esquema que será montado. Não podemos deixar de levar [a segurança] em consideração, mas também não podemos exagerar — e ele mesmo não gosta de exageros. Isso aí ainda vai ser elaborado, ainda falta muito tempo. Falta mais de um mês.