13/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 13/11/2018 11:58 -02

O desejo de Iná Sales: Ajudar outras pessoas a encontrar um emprego

Após muitos desafios pessoais e profissionais, ela foi promovida e criou grupo de apoio para recolocação no mercado: “Cada vez que alguém posta que conseguiu um emprego, é melhor que o meu salário."

Iná Sales é a 251ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Iná Sales é a 251ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Lembra que desde criança tinha um pensamento diferente. Nascida na periferia de São Paulo, no Campo Limpo, brincava no quintal de terra de sua casa, mas não era como a maioria das garotas. "A gente brincava de fazer comidinha, mas eu falava que eu não ia fazer comidinha porque eu trabalhava em um grande banco! [Risos]". Dito e feito. Há mais de 10 anos é isso que faz. Não começou logo de cara nessa profissão, mas acreditava que ia chegar lá. Colocava os melhores pensamentos nesse sonho. E um monte de ação também, tanto que começou a trabalhar cedo para depois poder estudar e ir atrás do que queria – e pensava.

Fica mexida e emocionada ao lembrar do primeiro emprego de sua vida, de recepcionista, quando tinha 16 anos. "Foi naquela rua de trás, passei por ali agora", conta ao chegar para conversar com a equipe do HuffPost Brasil na zona oeste de São Paulo. Inaray Sales, 41 anos, a Iná, sabe bem do valor e da importância de ter um trabalho. Para pagar as contas, claro, mas para o crescimento e desenvolvimento pessoal. Tanto que após ter precisado se afastar do seu por mais de 1 ano, passou a se dedicar a ajudar outros a encontrarem posição no mercado. "Eu amo de paixão trabalhar onde eu trabalho, estou lá há 12 anos, sou muito grata por tudo que eu conquistei, até pelo que eu sou hoje. Mas tenho isso de ajudar o próximo e mostrar o outro que ele pode. Esse é meu dom: mostrar que as pessoas podem ir aonde elas quiserem".

Tenho isso de ajudar o próximo e mostrar o outro que ele pode. Esse é meu dom: mostrar que as pessoas podem ir aonde elas quiserem.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Inaray Sales, 41 anos, a Iná, sabe bem do valor e da importância de ter um trabalho.

E é isso que ela procura fazer com o projeto Unidos Somos Mais, criado há cerca de 2 anos. Hoje são quase 5 mil pessoas no Facebook e há grupos pelo País: um no Nordeste, um no Rio de Janeiro, na baixada Santista e no interior de São Paulo. O trabalho é de revisão de currículos – cerca de 100 por semana –, divulgação de vagas e dicas para entrevistas e processos seletivos. Iná calcula que o grupo ajuda cinco pessoas por semana a se recolocar. "Pode parecer pouco, mas para aquelas pessoas que estão há um, dois anos desempregadas é uma vitória! Cada vez que alguém posta no grupo que conseguiu um emprego, é melhor que o meu salário", conta.

Isso porque Iná consegue ver a superação de cada um. Disso ela entende muito bem. Após passar por uma depressão depois de um problema de saúde que chegou a paralisar uma de suas pernas, ela ficou afastada por um ano e oito meses do banco em que trabalha. Ficou quase um mês internada em um centro psiquiátrico depois que tentou se suicidar, até que conseguiu retornar ao trabalho. "Fiquei bem doente mesmo, mas queria voltar, queria minha vida de volta. Saí com 53 kg e voltei com quase 90 kg. Eu era outra pessoa. Quando voltei para o banco todo mundo me olhava estranho". Foi um período difícil para readaptação e em seis meses Iná engravidou – ter o segundo filho era o sonho de sua vida. E enfrentou novos meses de desafio com uma gravidez de risco em que novamente precisou se afastar do trabalho.

Quando retornou às atividades após o nascimento do filho, a área em que trabalhava não existia mais e ela virou uma quebra-galho no banco. "Eles não sabiam o que fazer comigo e fiquei lá. Mas nesse meio tempo fui ao RH e perguntei por que não pagavam pós-graduação para analista e falei que tinha muita vontade de fazer, mas não tinha condições. Depois de quatro meses eles abriram [o benefício] para analista e eu fui fazer".

Vi que podia ajudar uma pessoa a levar o sustento para a casa e aquilo me deu uma força e o medo de perder o emprego diminuiu e fui me libertando. Fui me descobrindo como mulher e como profissional.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela procura ajudar outras pessoas com o projeto Unidos Somos Mais, criado há cerca de 2 anos.

No entanto, apesar do ânimo em voltar a estudar – e do esforço porque como estava de quebra-galho no banco mudava de horário com frequência, trabalhava de madrugada e ainda dava um jeito de estudar e cuidar dos dois filhos – o mais velho hoje tem 16 anos e o caçula está com cinco – Iná precisou enfrentar mais um desafio. "Tive minha avaliação e minha chefe disse que não tinha como me manter no banco por muito tempo. Isso me balançou muito e foi a melhor coisa que aconteceu para mim". Nessa época, entrou em uma ONG que uma amiga dela estava abrindo justamente para ajudar a recolocar no mercado uma leva de profissionais de tecnologia que havia sido demitida de uma grande multinacional.

"Fui como administradora, mas fui também para pedir ajuda, para revisar meu currículo, comecei a me movimentar". Depois de um tempo, esse grupo ficou desativado, mas Iná continuou recebendo pedido de ajuda – e não só de gente que trabalhava em tecnologia, mas de todo tipo de profissional. "Foi daí que criei o Unidos Somos Mais e comecei a postar vaga, postava de madrugada, o tempo todo e quando elas começaram a se recolocar aquilo me deu a sensação de que eu podia ajudar uma pessoa a levar o sustento para a casa e me deu uma força e o medo de perder o emprego que eu tinha diminuiu e fui me libertando. Fui me descobrindo como mulher e como profissional".

Vi que não estava pra trás, estava pra trás naquele momento, mas era só eu estudar e comecei a fazer isso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

Nascida em família humilde, Iná sempre estudou em escola pública e não teve muitas chances de estudar. Fez faculdade de administração, mas passou muitos anos da vida dedicada a outras questões. "Meu primeiro casamento foi com um cara errado que era dependente químico e passei a vida dentro de clínica e cuidando do meu filho, então não tive tempo de me cuidar. Dentro de uma multinacional eu via que estava pra trás e a ONG me deu essa força. Vi que não estava pra trás, estava pra trás naquele momento, mas era só eu estudar e comecei a fazer isso".

Paralelamente, muita coisa mudou em seu trabalho também - e não acabou em demissão. Sob uma nova chefia, Iná mudou de área e foi promovida. Atualmente é gestora de projetos na área de portais. "Ele me entregou o papel da promoção e eu nem conseguia ler de emoção. Recuperei minha carreira, fiz 7 certificações ano passado, terminei minha pós e sempre falo que temos que estudar, o poder é de quem estuda". Deixa isso claro para todo mundo com quem conversa já que além da atuação no grupo, Iná faz palestras gratuitas sobre o assunto.

Recuperei minha carreira, fiz 7 certificações ano passado, terminei minha pós e sempre falo que temos que estudar, o poder é de quem estuda.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

E, só para deixar claro, ela nunca trabalhou com recursos humanos ou na área de recrutamento. Mas virou uma especialista. A primeira pessoa que ajudou foi seu irmão, falecido há cinco anos, que sempre enfrentou dificuldade de permanecer em um emprego e contava com a dedicação e auxílio de Iná para buscar oportunidades. "É uma coisa que eu aprendi a fazer sozinha e vem de dom mesmo. Minha mãe nunca me falou para estudar para eu ser alguém. Tanto que sou a única que estudei e fiz faculdade dos meus irmãos". Estudou e colocou na cabeça, desde pequena, que chegaria longe. Em um grande banco, para ser mais exata.

Agora, além de estar realizada em sua carreira, segue com a sua missão de ajudar pessoas a conseguir um emprego e descobrirem que também são capazes. Ela sabe que isso é possível. Pensa, com todas as forças, que as pessoas podem.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.