LGBT
14/11/2018 04:20 -02 | Atualizado 14/11/2018 09:25 -02

Como é ser transgênero e utilizar aplicativos de relacionamento nos EUA

Homens e mulheres trans contam suas experiências em aplicativos e o que esses apps poderiam fazer para ser mais amigáveis.

Jackson Bird e Dawn Dismuke contam suas experiências com os aplicativos.
Ji Sub Jeong/HuffPost
Jackson Bird e Dawn Dismuke contam suas experiências com os aplicativos.

Vamos falar a verdade: em tempos em que a tecnologia chega a nortear até os relacionamentos, não estar em algum aplicativo de relacionamento pode fazer de você uma pessoa muito solitária. Porém, esses aplicativos não são os acolhedores para homens e mulheres trans. Apps mainstream como Tinder, Grindr e OkCupid têm demorado para reconhecer as necessidades dos usuários trans. Foi somente em 2016 que o Tinder permitiu que os usuários especificassem suas identidades como "transgênero", "homem trans" e "queer".

Aplicativos que atendem a homens e mulheres trans deixam muito a desejar. O Transdr, um dos mais conhecidos, foi chamado de "uma grande trapalhada" por usar termos depreciativos tanto na sua publicidade como no próprio app.

E, mesmo que você encontre um match, encontrar na vida real pode ser arriscado. Apesar de cerca de 1,4 milhão de americanos se identificar como transgênero, ainda há pouca compreensão das questões entre o grande público. E, infelizmente, a transfobia está em alta: 2017 foi o ano com o maior número de mortes violentas de pessoas trans, com pelo menos 28 mortes contabilizadas pela Human Rights Campaign.

Mas existem pontos positivos: nos Estados Unidos já há uma movimentação. Os criadores do @_personals_, uma conta de Instagram para lésbicas, gays, transgêneros e pessoas não-binárias que funciona como uma espécie de "classificado amoroso à moda antiga", está com uma campanha de crowdfunding com o objetivo de criar um aplicativo. E, em setembro, o OkCupid tornou-se o primeiro app mainstream a criar um espaço específico para que os usuários LGBTQ+ escolhessem seus pronomes.

Para entender melhor como é a vida dessas pessoas nesses apps, a reportagem do HuffPost US conversou com três homens e mulheres trans sobre seus relacionamentos, como eles mantêm o otimismo e o que os apps poderiam fazer para serem mais inclusivos. Leia a entrevista abaixo:

Como você descreveria sua experiência com apps de relacionamento? Você menciona que é trans no seu perfil?

Christiana Rose, 24, YouTuber, de St. Louis: Falo que sou transgênero na minha bio porque acho mais fácil separar de saída os caras que não estão interessados em mim. Mesmo assim, passei por várias experiências decepcionantes. O maior problema é que os caras já saem perguntando o que tenho nas calças -- é muito desrespeitoso. E muitos caras só te enxergam como fetiche, o que machuca muito, sinceramente. Sou mulher, não sua fantasia sexual.

Dawn Dismuke, 22, YouTuber e aspirante a modelo, de Los Angeles: Quando os homens descobrem que a mulher da foto principal é trans, acaba o respeito. Começam com perguntas tipo "Você ainda tem as partes masculinas?", como se fosse OK! Você vira fetiche imediatamente. Relacionamento online já é difícil, mas, como mulher transgênero, é ainda pior.

Jackson Bird, 28, apresentador do podcast "Transmission"e da série do YouTube "Queer Story", de Nova York: Se você revela que é trans logo de cara, a vantagem é que as pessoas que têm problema com isso nem vão te abordar. Mas também significa que você pode atrair pessoas que têm fetiche com trans e só estão interessadas em você porque você é trans. Mas se você não diz nada... quando dizer? Quanto mais tempo você demora para contar, mais complicado fica.

A surpresa agradável é quando você encontra outros trans. Mesmo que vocês não estejam a fim um do outro, é legal conversar e reclamar das merdas que a gente vê no app.

Arquivo Pessoal
Revelar que você é trans pode atrair quem tem fetiche, diz o YouTuber Jackson Bird.

Você tenta encontrar as pessoas fora dos apps?

Christiana: Na verdade nunca procurei na vida real. Só saio com pessoas que conheci online, e sempre depois de revelar que sou trans. Não me sentiria à vontade de contar para um cara num bar ou num lugar em que você encontra caras. Os crimes de ódio contra trans ainda são um problema grande na comunidade, e eu e minhas irmãs corremos o risco de ser assassinadas ou espancadas só por vivermos a vida como realmente somos.

Dawn: Como mulher trans e negra, definitivamente é mais seguro e mais fácil procurar online, porque é mais fácil revelar que você é trans no perfil. As pessoas já sabem o que esperar. Do contrário, você tem de criar coragem para contar pessoalmente. Todo mundo tem o direito de saber quem está do seu lado na cama!

Jackson: Prefiro conhecer por meio de amigos em comum. Apesar de todas as informações na internet, todo mundo ainda parece meio desconhecido. Ainda acho que tenho essa mentalidade estranha de perigo que tinha quando estava crescendo. Além disso, já disse que sou péssimo de abordar as pessoas? É muito melhor que os amigos armem alguma coisa. Mas pessoalmente é complicado, porque você não sabe a hora certa de contar que é trans. Para mim, que sou muito aberta em relação a ser trans, nunca sei se tenho de contar com o fato de terem pesquisado meu nome no Google. Às vezes fico sem saber se eles sabem ou não -- e, se não souberem, qual vai ser o grau de decepção quando eu contar.

Arquivo Pessoal
Por segurança, Christina Rose só sai na vida real depois de conhecer a pessoa online e contar que é trans.

Se os desenvolvedores quiserem tornar seus apps mais acolhedores para a comunidade trans, que mudanças deveriam fazer?

Jackson: Bom, eu definitivamente não gosto de apps que permitem que pessoas não aprovadas te mandem mensagens. No Tinder, os dois têm de arrastar para a direita para trocar mensagens. Esse tipo de consentimento simples corta muito do assédio ou das mensagens nojentas que as pessoas trans podem receber.

Apps que não expandiram as opções de gênero e sexualidade além do padrão binário: o que vocês estão fazendo? Como uma pessoa não binária vai usar seu app se não existe a opção para o gênero dela?

Dawn: No começo, os apps não davam a opção de "transgênero" para mulheres trans, mas agora isso é possível. Também acho que os usuários deveriam ter a opção de escolher se estão procurando homens ou mulheres trans, para ter mais acesso a nós.

Christiana: Sinceramente não quero uma opção "procurando transgêneros" nos apps de relacionamento – acho que seria usado por caras que nos tratam como fetiche. Mas o Tinder precisa ser mais inclusivo. Muitos trans, e me incluo nesse grupo, são suspensos do Tinder porque caras não leem sua bio e quando descobrem que você é trans te denunciam. Se isso acontece muitas vezes, sua conta é examinada e você pode ser banida do app porque teve muitas denúncias.

Jackson: No geral, acho que todo app social se beneficiaria de melhorias dinâmicas e contínuas do sistema de denúncia. Abuso, assédio, spam e mais vão acontecer em toda plataforma, é inevitável. Seu app vai se destacar pela maneira como lida com essas situações, não agindo como se elas não existissem.

Que conselho você daria para uma pessoa que nunca saiu com um transgênero? E, olhando para a frente, que tipo de abordagem elas deveriam ter em se tratando de sexo?

Jackson: Pesquise. Procure no Google informações básicas. Leia artigos e assista vídeos de pessoas que são de fato trans. Lembre que te educar não é obrigação da pessoa com quem você está saindo (nem de qualquer trans, a propósito). E lembre também que não é nada de mais.

Se e quando for rolar sexo, pergunte se tem algum limite e como se referir às diferentes partes do corpo da pessoa. Esse tipo de comunicação aberta é boa em qualquer tipo de relação sexual, mas especialmente para pessoas trans, não binárias e não conformistas em relação a gênero. Além disso, questione o que você pensa em relação a gênero, tanto o seu próprio quanto o do outro. O que significa para quem não é mulher ter vagina e para pessoas que não são homens ter um pau? Questione sua atração sexual além da genitália e foque no ser humano por inteiro.

Dawn: Ter a cabeça aberta e ser resistente: as pessoas vão fazer comentários negativos porque você está saindo com um trans. Se você conhecer uma pessoa trans e estiver OK com isso, não saia fazendo perguntas pessoais logo de cara, a menos que elas digam que tudo bem quando você pedir permissão. E, se não for OK para você o fato de a pessoa ser trans, seja gentil e diga que não está aberto para esse tipo de experiência. Não precisa ser grosso e sair xingando. Uma vez estava conversando online com um cara e ele não fazia a menor ideia que eu era trans. Com base em experiências anteriores, fiquei com medo, porque achei que ele não fosse se interessar. Mas ele foi muito doce e disse que não se importava, porque só enxergava uma mulher. Meu passado não importava para ele.

Christiana: Trate-os como qualquer outro cara ou outra menina cisgênero. Não queremos ser o freak com quem você tentou sair. Nos tratar diferente nos faz sentir assim. Tenha cuidado com as perguntas que vai fazer; perguntar sobre cirurgia pode ser traumatizante para certas pessoas. E, se chegar à transa, a esperança é que você tenha chegado ao ponto de conseguir falar de limites. Mantenha a cabeça aberta.

É irritante ver quantos caras acham que tudo bem que a primeira mensagem seja uma pergunta sobre que partes do corpo eu tenho.Christiana Rose, YouTuber de 24 anos

Em uma palavra, como você descreveria relacionamentos do ponto de vista de um transgênero em 2018?

Christiana: Irritante. É irritante que os caras nos apps achem que tem de falar de você para você. Recebo muitas mensagens de caras desinformados, dizendo: "Você não é mulher. Pare de brincar com a maquiagem da sua mãe e tire esse vestido". E é irritante ver quantos caras acham que tudo bem que a primeira mensagem seja uma pergunta sobre que partes do corpo eu tenho.

Jackson: Estressante. Isso é minha opinião e talvez não seja uma leitura muito precisa do clima geral, mas tenho que dizer que é muito estressante não saber se a outra pessoa está OK com o fato de você ser trans, se estão constrangidas ou se querem te assassinar. Não ficaria surpreso se uns fanáticos e intolerantes usassem esses apps com o objetivo de nos assediar ou potencialmente agredir fisicamente. É por isso que prefiro sair com pessoas queer e amigos de amigos, aí tenho a confiança de que eles não têm problemas com pessoas trans.

Dawn: Difícil. É difícil porque você nunca sabe quem é bem intencionado. Você não sabe quem vai te tratar com respeito, como trataria qualquer outra mulher, e quem está te usando só pelo seu corpo.

Qual é sua orientação sexual? Que tipo de pessoa te atrai mais, em termos de como ela se identifica?

Jackson: Sou bissexual (ou seja, sinto atração por pessoas do mesmo gênero que o meu ou diferente – então sinto atração por pessoas sem gênero, não binárias etc., não só homens e mulheres), mas tendo a me sentir à vontade só com pessoas que se identificam de alguma forma como parte da comunidade queer. Seja verdade ou não, tenho medo de que homens ou mulheres cisgênero fiquem decepcionados, confusos ou até mesmo sintam nojo do meu corpo. Não os descarto de antemão, mas tenho cuidado.

Dawn: Eu só sentia atração por homens que se identificavam como héteros, mas agora me abri para homens que se identificam como bissexuais. Ainda tenho aquele toque masculino de que preciso, mas ele também não têm expectativas irrealistas em relação a mim e costuma ter a cabeça mais aberta! Fico longe de idiotas que perguntam coisas como: "E aí, você ainda tem as partes masculinas?"

Christiana: Me identifico como mulher hétero. Sinto interesse por caras hétero! Não tenho um tipo. Mantenho distância de caras que já ficaram com outras meninas trans. Não quero um cara que fique com trans por causa de fetiche.

Se você estiver procurando por amor de longo prazo, o que mais quer do parceiro?

Christiana: Adoraria um relacionamento duradouro. Meus desejos são simples: não quero ser um segredo. Quero conhecer os amigos dele, a família. Não quero que ele esconda que eu sou trans. Foi uma longa jornada para mim, e me orgulho dela.

Dawn: Para mim também é muito simples: quero sinceridade, confiabilidade e respeito. Se não houver respeito no relacionamento, não existe nada.

Jackson: Sou monógama convicta, então quero um parceiro de longo prazo. Só quero uma pessoa que me permita ser eu mesma e que fique à vontade fazendo o mesmo. Adoro a palavra "parceiro", porque essa igualdade e equilíbrio são exatamente o que eu quero num relacionamento. Acho que os melhores relacionamentos são aqueles que trazem à tona o que as pessoas têm de melhor, que te fazem rir juntos, colaborar em projetos e compartilhar a vida, mais que ser parceiros românticos. Essa idealização ingênua talvez explique por ainda estou solteira.

Que conselho você daria para outros trans que têm receio de procurar relacionamentos e de se apresentar de forma autêntica?

Christina: Diria que eles devem ser abertos a respeito de quem são desde o começo. Se você estiver lendo isso e começando a entender que é trans, saiba que você é lindo e não precisa aturar as pessoas te tratando de um jeito diferente nos apps -- você vai encontrar o amor. Sei que isso é o que mais me dava medo.

Dawn: Diria para não sentir medo, porque sempre tem alguém que vai te curtir. Pode demorar um pouco, mas todo mundo encontra alguém!

Jackson: Sinceramente? Acho que quem precisa de conselho sou eu.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.