12/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 12/11/2018 00:00 -02

Nívia Raposo: A voz da mãe que defende a memória do filho assassinado

Filho da historiadora foi morto na porta de casa após negar “pedágio” para uma milícia da Baixada Fluminense. Hoje, ela luta para garantir que isso não aconteça mais.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Nivia Raposo é a 250ª entrevistada do

"Rodrigo, levanta daí". São essas três palavras que fazem Nivia Raposo, 43, acordar todos os dias em busca de justiça. Quem as disse foi Thiago, filho caçula, em 17 de outubro de 2015, no momento em que viu seu irmão, Rodrigo Tavares, caído no chão depois de levar um tiro nas costas e outro no peito. O menino, então com 12 anos, perdeu ali sua referência, e Nivia perdeu seu filho mais velho, à época com 19 anos, namorando e soldado do Exército Brasileiro. O crime, ainda sem respostas, fez com que Nivia desse uma guinada rumo à luta por justiça não só para ela, mas para outras mães e jovens assassinados. Hoje ela é militante da Rede de Mães e Familiares Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense e não desiste de fazer com que as mães sejam acolhidas e a memória dos jovens assassinados seja honrada.

Não tem como uma pessoa que nunca passou por isso, nunca perdeu um filho, acolher uma mãe.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Desse dia em diante eu pensei que nunca mais iria ficar impotente, sem fazer nada."

"A gente faz o que outras mães fazem com a gente: a gente se acolhe porque sabe a dor da outra. Não tem como uma pessoa que nunca passou por isso, nunca perdeu um filho, acolher uma mãe", explica a historiadora em entrevista ao HuffPost Brasil.

Rodrigo foi morto pela milícia da cidade de Nova Iguaçu. Nivia conta que, uma semana antes do crime, ele foi abordado por um homem, policial militar, que o conhecia desde criança. O policial disse a Rodrigo que "tinha conhecimento" de que ele estaria praticando roubos no bairro vizinho, e cobrou um "pedágio" de R$ 500 para que o jovem continuasse a fazê-lo. A ordem deveria ser cumprida uma vez por semana, a começar pela seguinte, ou então o soldado iria morrer. Como não era verdade a prática de roubo, principalmente porque Rodrigo passava a semana no quartel, ele "deixou para lá".

"Ele me contou, e eu cheguei até a abrir o site da corregedoria da Polícia Militar, mas ele não deixou denunciar porque iria prejudicar o cara 'à toa'. Ele achava que o cara estava bêbado, 'doidão', e a gente nem sabia que ele fazia parte da milícia daqui", relembra Nivia.

Mas o aviso era sério. Liberado do quartel somente aos finais de semana, Rodrigo saiu da base, foi à praia com amigos e retornou para a casa em que morava com sua família — "e morreu com o mesmo short da praia". Horas antes do crime, a mãe comprou seu biscoito favorito para mimar o filho. Ele cortou o cabelo porque planejava ir ao baile à noite e esperava a mãe chegar em casa para comprar um celular novo. Prometeu jogar bola com os amigos no campo que ficava a poucos metros da casa, mas nunca conseguiu chegar lá. Ao sair do portão, foi abordado por um homem que só teve de confirmar o nome do filho de Nivia antes de sacar uma arma de fogo e disparar contra ele. O assassino errou os primeiros tiros e Rodrigo correu, mas foi atingido pelas costas. Depois, no peito. E algumas vezes mais, até que o homem deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. Não era o mesmo que o ameaçou e, até hoje, ninguém foi preso.

Desse dia em diante eu pensei que nunca mais iria ficar impotente, sem fazer nada.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
No quintal de casa, Nivia cultivou flores em um dos tênis preferidos de Rodrigo:

Thiago, ciente de que o irmão realmente não iria levantar como ele tanto pediu, ligou para a mãe, que não acreditou até chegar no local. "Quando eu cheguei e vi a rua cheia, vi que era verdade e só pensei 'tomara que dê tempo de chegar ao hospital'. Quando eu toquei nele, eu o senti gelado, mas minha irmã diz que quem estava gelada era eu. E então eu pedi desculpas para ele, por não ter feito nada para ajudar. Desse dia em diante eu pensei que nunca mais iria ficar impotente, sem fazer nada. Algo tem que ser feito na hora", afirma ela, emocionada.

O contato com os militantes de Direitos Humanos da Baixada Fluminense demorou para acontecer, "porque cada mãe tem o seu tempo de luto", segundo ela. "No enterro, um moço da igreja [católica] foi até o meu irmão e orientou que eu procurasse o movimento dos direitos humanos. Eles estavam preocupados, porque todo mundo gostava muito do meu filho, ele sempre foi muito solícito. Meu irmão falou comigo, e eu disse que depois ia", relembra. E completa: "Nunca tinha ouvido falar sobre esse movimento na Baixada Fluminense, as pessoas aqui não conhecem".

Um ano depois da morte de Rodrigo, com o apoio dos militantes, Nivia compreendeu que havia muito a ser feito. Ela acreditava que a polícia iria investigar o caso e encontrar um suspeito, mas descobriu que não é bem assim. "Tem que ter um acompanhamento. Quando alguém da gente, do povo, chega para fazer o B.O, percebi que as perguntas são tendenciosas, como se a vítima fosse culpada, criminalizando o jovem."

Nunca tinha ouvido falar sobre esse movimento de direitos humanos na Baixada Fluminense.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Um ano depois da morte de Rodrigo, com o apoio dos militantes, Nivia compreendeu que havia muito a ser feito.

No acompanhamento do caso e junto aos militantes de direitos humanos, ela descobriu a Rede de Mães, grupo que surgiu depois do episódio que ficou conhecido como "Chacina da Baixada Fluminense". No emblemático dia 31 de março do ano de 2005, policiais militares atiraram a esmo contra um sem-número de pedestres em Nova Iguaçu e na cidade vizinha, Queimados, matando 29 deles. A motivação dos assassinos foi insatisfação com o comando do batalhão da área.

Depois de receber o apoio da rede, ela decidiu que também seria uma mãe acolhedora: "Eu já sabia que o que eu passava, elas também estariam passando. Eu sabia da criminalização da pobreza, então toda a informação que tive, senti que tinha a obrigação de dividir, e também de acolher essas mães", explica. O grupo tem o objetivo de fortalecer a luta pela justiça e memória dos jovens pobres assassinados, que também em sua maioria são negros.

Aqui na baixada eles têm falta de perspectivas, é um horizonte de classe.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Um dos frutos do trabalho de Nivia e suas colegas de militância é o documentário "Nossos Mortos Têm Voz".

Nas conversas com essas mães tão machucadas pela realidade dura da região em que moram, um comportamento chamou a atenção de Nivia: a demonização do termo "direitos humanos". "A primeira coisa é fazer elas saberem que têm direitos sim, e tentar fazer com que elas entendam que direitos humanos não são só para bandidos. Eu acho que tem alguém que se beneficia do discurso de que direitos humanos são só para bandidos, e não somos nós. Algumas mães não aceitavam a ajuda porque achavam que iriam assumir que seus filhos eram bandidos. Eu falava que elas tinham que sair do senso comum", relembra. Para ela, "as pessoas têm de ser educadas sobre seus direitos".

Um dos frutos do trabalho de Nivia e suas colegas de militância é o documentário Nossos Mortos Têm Voz, que reúne depoimentos de mães de vítimas, inclusive ela. "Nós somos os invisíveis. Por isso o nome do documentário. A partir daquele momento que aquele jovem, adulto querido, morre ou desaparece, a sensação que se tem é que acabou, mas as mães conseguem fazer com que o caso ande. E são as mães do movimento social, por isso são importantes os movimentos sociais", ressalta.

Então toda a informação que tive, senti que tinha a obrigação de dividir.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Dando continuidade às ações do filho, a historiadora pretende lecionar em pré-vestibulares para "dar o mínimo de esperança para o jovem".

Militar pelo bem comum é um caminho que Nivia não esperava trilhar, mas hoje ela compreende que o trabalho que faz já é uma extensão do trabalho que Rodrigo fazia nas ruas de Nova Iguaçu com seus amigos: "Ele era um defensor dos direitos humanos e nem sabia. Ele trazia bichos de rua para casa, para tirar da rua. Ele não conseguia ficar omisso diante das injustiças", relembra.

Nivia conta que Rodrigo tentava, a todo tempo, evitar com que os jovens que cresceram com ele se envolvessem com a criminalidade. "Ele sempre dava um start para os garotos não entrarem nessa. Ele costumava incentivá-los a entrarem no exército, porque por mais que recebesse pouco e trabalhasse muito, o dinheiro era certo e não tinha risco de morrer", explica a mãe do rapaz, orgulhosa da criação que deu para filho, mas sem evitar questionar os rumos que a vida têm. "É muito triste criar um filho para o filho dizer não à violência e acontecer isso."

Eu acho que tem alguém que se beneficia do discurso de que direitos humanos são só para bandidos, e não somos nós.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
No acompanhamento do caso e junto aos militantes de direitos humanos, ela descobriu a Rede de Mães, grupo que surgiu depois do episódio que ficou conhecido como "Chacina da Baixada Fluminense".

Dando continuidade às ações do filho em outra frente, a historiadora pretende lecionar em pré-vestibulares sociais para "dar o mínimo de esperança para o jovem". "Aqui na baixada eles têm falta de perspectivas, é um horizonte de classe. Eles não pensam em ser advogados, médicos, porque acham que podem menos. Eles estão no pré-vestibular, e a maioria quer ser militar. Acho bacana, mas por que não ser um médico da Marinha? Eles precisam ocupar os espaços para mudar o pensamento de quem está lá", avalia.

Diante de todas as frentes de trabalho para melhorar as condições de quem vive na Baixada ou honrar a memória de quem teve sua vida ceifada pela violência da região, Nivia não crê em outra opção que não seja lutar: "Não temos políticas públicas que nos atendem, então assim vamos sobrevivendo. A Baixada Fluminense é sobrevivência", afirma.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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