MULHERES
11/11/2018 07:14 -02 | Atualizado 12/11/2018 14:58 -02

‘Não basta ser mulher, é preciso encampar as lutas feministas’, diz deputada eleita Talíria Petrone

Professora de história e amiga pessoal de Marielle Franco, Petroni foi eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro.

Petrone foi uma das 77 deputadas federais eleitas em 2018; sua candidatura pelo Psol teve mais de 107 mil votos.
Arquivo Pessoal
Petrone foi uma das 77 deputadas federais eleitas em 2018; sua candidatura pelo Psol teve mais de 107 mil votos.

Aos 33 anos e na sua segunda eleição, Talíria Petrone, será uma das mulheres a compor a maior bancada feminina da história da Câmara dos Deputados. A professora de história e vereadora de Niterói foi uma das 77 deputadas federais eleitas em 2018 e sua candidatura pelo PSOL teve mais de 107 mil votos no Rio de Janeiro.

Mulher negra e feminista, Petrone carrega consigo a responsabilidade de levar adiante a luta e o legado da amiga e colega de partido, a vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março.

Formada em história, sua trajetória foi focada na educação popular. Ela deu aulas na rede estadual de ensino e no curso pré-vestibular comunitário da favela da Maré, na zona norte do Rio, onde conheceu Marielle. "Sempre achei que a sala de aula tinha um potencial transformador, de mudar o mundo, mas resolvi me filiar ao PSOL, me organizar, porque percebi que era preciso estar além da sala de aula", contou ao HuffPost Brasil.

A política carrega duas esferas, do poder e do público, que historicamente são negadas para gente.

Associated Press
"O parlamento não é aceito historicamente para quem é mulher", afirma Talíria Petroni ao HuffPost Brasil.

Na militância no partido, ela e Marielle se aproximaram e a amizade se fortaleceu ainda mais quando ambas se candidataram e foram eleitas vereadoras em 2016, uma de cada lado da ponte Rio-Niterói. Com a candidatura mais votada da cidade, Petrone foi a única mulher na Câmara Municipal de Niterói durante quase todo o seu mandato e era com Marielle que compartilhava as dificuldades e os desafios que enfrentava.

"O parlamento não é aceito historicamente para quem é mulher. A política carrega duas esferas, do poder e do público, que historicamente são negadas para gente", explicou Petrone.

A deputada comemora que a bancada do seu partido, o Psol, será igualitária na próxima legislatura da Câmara dos Deputados, composta por 5 homens e 5 mulheres. Para ela, no entanto, ser mulher não é o bastante. "No meu entendimento sobre política, é preciso ser uma mulher que encampe as lutas feministas, de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, que encampe a luta das mulheres negras, de enfrentamento ao encarceramento dos jovens negros, que encampe as lutas populares. Infelizmente nem toda mulher encampa isso."

No meu entendimento sobre política, é preciso ser uma mulher que encampe as lutas feministas.

NurPhoto via Getty Images
Mulher negra e feminista, Petrone carrega consigo a responsabilidade de levar à diante a luta e o legado da amiga e colega de partido, a vereadora Marielle Franco, assassinada em março.

Petrone avalia que a prioridade nos próximos quatro anos será a construção de uma aliança pela democracia - que considera ameaçada pela eleição de Jair Bolsonaro (PSL)à Presidência. Mas, apesar do cenário mais conservador no Congresso, não pretende deixar de lado pautas feministas, como a legalização do aborto e o enfrentamento à violência contra a mulher.

Em conversa por telefone com o HuffPost Brasil na semana anterior ao segundo turno das eleições, a deputada eleita falou sobre por que tomou a decisão de se candidatar neste ano, quais desafios deve enfrentar e como pretende atuar no Congresso, além da importância da eleição de outras mulheres negras pelo País. Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Por que decidiu se candidatar a deputada federal neste ano?

Talíria Petrone: Eu estava muito convencida não sair candidata neste ano. A gente tem um mandato [de vereadora] que é muito necessário para cidade de Niterói, que é muito desigual. E a gente conseguiu incidir na cidade com o nosso mandato. Mas a decisão se deu depois da execução da Marielle. A execução política da Mari expressa um momento muito grave que a gente está vivendo no Brasil, de grande retrocessos democráticos, em que é possível assassinar uma parlamentar eleita.

Isso fez com que a gente achasse muito importante dar uma resposta política a esse fato. E uma resposta política seria a ocupação do Congresso Nacional com as nossas lutas, nossas falas, nossas cores e nossas vozes. Tomamos a decisão de ampliar o trabalho que a gente faz em Niterói e tivemos mais 100 mil votos. Nesse momento de tanto retrocesso, isso para nós é uma vitória.

Embora a Câmara dos Deputados tenha mais mulheres a partir do ano que vem, o cenário se mostra mais difícil para avançar em pautas feministas. Como serão os próximos quatro anos, na sua avaliação, e qual será o seu papel?

Acho que o fato de ser mulher no parlamento é algo que provoca muito mais violência, porque o parlamento não é aceito historicamente para quem é mulher. A política carrega duas esferas, do poder e do público, que historicamente são negadas para gente. Essa dificuldade que eu tinha na Câmara [municipal], foi um desafio que a gente enfrentou de forma corajosa e coletiva, e também será um desafio no Congresso. Embora a gente precise entender que não basta ser mulher. No meu entendimento sobre política, é preciso ser uma mulher que encampe as lutas feministas, de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, que encampe a luta das mulheres negras, de enfrentamento ao encarceramento dos jovens negros, que encampe as lutas populares. Infelizmente nem toda mulher encampa isso.

A ideia é que a gente esteja em conjunto com as mulheres do campo democrático no Congresso. A gente já tinha o Congresso mais conservador desde 1964, agora esse Congresso está ainda mais conservador. Aumentou muito a bancada da bala, a bancada fundamentalista, aqueles que usam o discurso do ódio como mobilizador. E essa é uma tarefa que a gente vai enfrentar, em especial enquanto mulher feminista, mulher de luta. Não tenho dúvida que não serão tempos fáceis, mas também aumentou o número de mulheres do campo progressista, o que torna desafio um pouco menos solitário.

Dentro da bancada de mulheres, embora a composição seja diversa e tenham muitas mulheres que não identifiquem com as pautas do feminismo, é possível trabalhar em conjunto em alguns assuntos?

A primeira coisa nesse momento é construir um campo democrático para enfrentar o avanço do fascismo que está instalado no Brasil. Neste campo democrático cabe muita coisa, inclusive divergências em pautas que eu não estaria ao lado de algumas mulheres. Esse é o ponto de partida. A segunda coisa é o enfrentamento à violência contra mulher e a luta pelos direitos trabalhistas iguais entre mulheres e homens, é possível ter alguma unidade em torno disso. Mas me parece que isso só é possível com mulheres que estão no campo democrático. Aquelas que não se importam com a democracia acho que dificilmente vão ter isso como bandeira e vai ser difícil fazer qualquer tipo de aliança.

Considera possível priorizar e avançar em pautas feministas, como a descriminalização do aborto, neste Congresso?

Isso precisa ser priorizado mesmo neste momento. É muito necessário fazer alianças amplas em defesa da democracia, mas isso não pode nos fazer retroceder em pautas que são os motivos pelos quais a gente tomou a decisão pela candidatura e pelos quais a gente foi eleita. Se a gente não forçar um espaço com lutas que tem a ver com a vida das mulheres, não serve ocupar aquele espaço.

A defesa da legalização do aborto, entender o aborto como uma questão de saúde pública, não como caso de polícia; a defesa da legalização e regulamentação das drogas, o uso abusivo de drogas tem que ser tratado pelo SUS e pelo Caps [centros de atenção psicossocial], não pela Segurança Pública; a desmilitarização das polícias. São pautas que têm muito a ver com as mulheres, principalmente com as mulheres negras, que estão chorando as mortes dos seus filhos pelas balas do Estado. E a gente não vai abrir mão da defesa dessas pautas, mesmo com o avanço fascista. Para enfrentar este momento, é preciso também uma radicalização das lutas de defesa da vida e da liberdade.

Qual é a importância da eleição de mais mulheres negras do seu campo político e como isso reflete o legado da Marielle?

Isso é muito fundamental. No Congresso Nacional, o Psol aumentou a bancada de 6 para 10 deputados, e metade da bancada é de mulheres. Isso é algo histórico, inclusive para o meu próprio partido, que também reproduzia essa lógica de figuras públicas masculinas. Aqui no Rio, mais da metade da bancada do Psol na Alerj é de mulheres negras, da periferia. Isso é algo muito significativo no que diz respeito a verdadeira renovação da política. Acredito que muito do crescimento do fascismo vem de uma desilusão das pessoas com a política. Nem todo mundo que apoia esse setor é fascista. As pessoas estão cansadas de uma política que não tem a cara delas, que não se aproxima da vida delas, que não reflete o que é a realidade concreta delas.

Acho que as nossas eleições, dessa bancada de mulheres na Câmara e dessa bancada de mulheres negras no Rio, refletem um desejo muito grande das pessoas se sentirem representadas, de olharem a política e ver algo que tem a ver com a vida delas. A gente tem uma tarefa muito grande de se aproximar dos territórios, de escutar essas pessoas e fazer de fato uma política que tenha conexão com a vida delas. E sem dúvidas, isso tem a ver com Marielle.

A execução da Mari provocou uma indignação muito grande. Não apenas por ter sido uma execução bárbara de uma mulher, que já seria motivo de indignação, mas porque a execução da Marielle foi uma exceção política, que tentou calar pautas pelas quais ela lutava muito bravamente, da favela, das mulheres negras, das mulheres LGBTs, das mulheres trabalhadoras.

A mobilização no mundo em torno da morte da Mari foi uma mobilização em torno das pautas dela. As pessoas corresponderam à nossa decisão de dar uma resposta a isso e optaram por eleger tantas mulheres negras porque não querem mais mulheres negras parlamentares silenciadas. Que bom que hoje temos uma bancada, e não só uma.

Pretende replicar de alguma forma o que fez em Niterói, e ter um mandato mais participativo no Congresso?

Eu não acredito na política de outro jeito. Em Niterói, a gente fez o gabinete itinerante e circulava pelos bairros semanalmente. Isso é um grande desafio, ainda mais agora dividindo Brasília com o Rio. Nossa ideia é tentar fazer um planejamento anual, para visitar todas as regiões do estado durante o ano e consolidar conselhos políticos territoriais. Ainda estamos pensando em como vamos fazer isso. Mas para nós é muito importante construir esse mandato vinculado aos bairros, aos territórios, e que as pessoas tenham o poder de incidir sobre aquilo que a gente está tocando.

Essa presença nos territórios pode ser uma resposta para a esquerda conversar com mais pessoas?

Acho que não tem outra saída. Já achava isso antes e hoje eu tenho muita convicção de que a gente precisa voltar aos territórios. O parlamento não serve, o parlamento é ferramenta para as resistências já tocadas no território. Vamos escutar aquela mulher que cuida do filho da outra porque não tem creche, que se junta quando cai barranco, essas pessoas que pegam 2 horas de ônibus. E não se faz essa política baseada na escuta sem estar no território. O mandato deve ser ferramenta, um instrumento que priorize a escuta das pessoas, em especial das mulheres, que carregam nas costas o que é esse Brasil tão desigual.