ENTRETENIMENTO
09/11/2018 17:28 -02 | Atualizado 09/11/2018 17:28 -02

A nova Sabrina Spellman mora num quarto perfeito para uma bruxa teen

Lisa Soper, a designer de produção de “O Mundo Sombrio de Sabrina”, nos mostrou a casa dos Spellman.

Alguns dias antes de seu aniversário de 16 anos, Sabrina Spellman está em seu quarto. Está frio –uma das janelas está aberta, e há marcas de garras de cada lado do peitoril. "E agora?", ela se pergunta em voz alta.

Foi uma semana longa. O diretor da escola de Sabrina não quer repreender os alunos idiotas que vivem assediando sua amiga. Três garotas conhecidas como as Irmãs Esdrúxulas rogaram uma praga contra Sabrina depois de interromper a tentativa dela de convocar um goblin na floresta para ser seu "espírito familiar" (seu ajudante). E até o final da semana Sabrina terá que decidir se entrega seu nome ao diabo, para sempre.

De repente uma entidade desconhecida chama seu nome. "Mostre-se", Sabrina comanda. Uma figura demoníaca estica a cabeça para fora do seu divisor de quarto, um biombo tríplice vintage, ao lado de algumas fotos polaroides que ela grudou na parede. E então, em um instante, a forma da figura que lembra um monstrengo desaparece. Em seu lugar, um gato preto simpático se aproxima de Sabrina.

Mundo, conheça Salem Saberhagen.

É assim que o novo seriado da Netflix, "O Mundo Sombrio de Sabrina", nos apresenta a Salem, o espírito familiar que assumiu a corpo de um gato para servir melhor à sua senhora bruxa. A cena também funciona como a estreia do quarto de Sabrina, que, tirando a ocupação demônica momentânea, é o esconderijo dos sonhos de uma adolescente.

O espaço é ricamente decorado, cheio de toques retrô que permeiam toda a cidade de Greendale (próxima a Riverdale, do universo de quadrinhos Archie). Desde o calendário antiquado de gato preto que Sabrina usa para ir assinalando com X os dias passados até seu aniversário, até sua casa de bonecas e a mistura de referências da cultura pop que ainda gera confusão em torno da época em que se passa o seriado (entre elas, The Beatles, David Bowie, The Monkees, Jason Voorhees), há um equilíbrio delicado entre toques de bruxa e detalhes típicos de adolescente, refletindo os dois mundos que Sabrina habita: o reino mágico e o mortal.

O criado-mudo de Sabrina tem um telefone antigo, do tipo discado, e uma bola Magic 8.

"Há alguns elementos totalmente pontuais", disse a designer de produção Lisa Soper, apontando para a janela redonda atrás da cama de ferro de Sabrina. "Essa é a única janela diferente das outras para quem olha a casa por fora. E tem o formato de uma teia de aranha."

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Como qualquer outra adolescente que habita um cantinho da casa de sua família, a decoração do quarto de Sabrina tem um toque maníaco, fruto de uma estética que não está totalmente sob o controle dela, mas sobre a qual ela quer imprimir sua marca, mesmo assim.

Um tema persistente na série é que os dilemas de Sabrina parecem tão adolescentes (atenção para spoilers muito leves pela frente): será que ela deve optar por uma vida semi-imortal e a capacidade de enfeitiçar seu namorado doce, mas um pouco indeciso, Harvey Kinkle? Ela deve aprender magia com outras bruxas ou fundar um clube com suas amigas do colégio? Deve obedecer suas tias e preparar-se para seu batismo de sombras na floresta ... ou ir a uma festa de Halloween e dançar ao som de "Monster Mash"?

Comparada a seus pares não mágicos, Sabrina (representada por Keirnan Shipka, de "Mad Men") não está passando apenas pelo trauma singular da adolescência. Ela vive numa gangorra complexa, entre as expectativas pesadas que seu futuro mágico lhe impõe e as esquisitices agradáveis do mundo mortal.

Ela não é uma simples garota, mas ainda não é uma bruxa.

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The Spellman family home.

O quarto de Sabrina me lembra de meu próprio quarto de adolescente, em seu espírito, mesmo que não sua estética. Sem conseguir pintar por cima das paredes cor de rosa com as quais cresci – e talvez com um pouco de medo de como eu me sentiria quando elas desaparecessem --, eu primeiro as cobri de pôsteres de Leonardo DiCaprio e Fuscas, mais tarde de fotos de meus amigos e m inhas paixões passageiras, além de piadas que só meus amigos entendiam, tudo isso na esperança de poder olhar para as paredes de meu quarto e me enxergar, me sentir em casa.

Na verdade, muitos quartos de garotas adolescentes do cinema e TV já me marcaram ao longo dos anos, além de outros quartos devido ao número de posts dedicados a eles no Tumblr e Pinterest. O quarto preocupantemente acessível por escada de "Clarissa Sabe Tudo", a colcha floral de Angela Chase, que parece algo feito por uma avó, com seus pôsteres bacanas. Este ano, o quarto bonitinho de Kayla no filme "Eighth Grade" revela a pessoa que ela queria ser, a teen animada e autoconfiante que ela retratou em seus vídeos no oYouTube.

E talvez o sentimento mais visceral de todos tenha sido despertado pelo quarto de adolescente de "Lady Bird – a Hora de Voar", cheio de objetos, pôsters, coisas novas e velhas. Me senti dolorosamente vista quando assisti à personagem titular riscando o nome de seu namorado antigo, escrito na parede, e escrevendo o de seu novo amor no lugar.

Mesmo a série espiritual predecessora, "Sabrina, Aprendiz de Feiticeira", do final dos anos 1990, tinha uma decoração interna invejável e própria para a idade e para a época: era "bruxesca", mas filtrada por uma lente do Fleetwood Mac, com papel de parede lilás cheio de formas, vidro colorido e luas de aparência serena. Sobre a mesa de Sabrina, um caldeirão era seu porta-lápis – o tipo de coisa da qual poderia precisar um ser mágico que também tinha lição de matemática para fazer.

"Com o espaço de Sabrina e todos os espaços que levam a seu quarto, tudo é construído em cima da dualidade, de ter que fazer uma escolha", disse Soper, falando da decoração interior do novo "Sabrina". "Ela pode escolher o caminho da luz ou o caminho da noite."

Quando Sabrina entra em sua casa, ela se depara com uma grande escadaria que se divide em dois, indo para a esquerda e a direita. Dentro do quarto de Sabrina há várias portas pequenas, que representam ainda mais opções.

"Sabrina está traçando seu próprio caminho, por isso eu sempre lhe dou uma opção", explicou Soper. "Normalmente, nas histórias, o lado das bruxas é o lado esquerdo. Então quando ela está pendendo mais para o lado sombrio, ela pode virar à esquerda. Quando está querendo habitar mais seu mundo mortal, do colégio, ela vira à direita."

E há indicações menos óbvias no quarto que remetem a elementos de feitiço ou magia.

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"O papel de parede do quarto dela foi escolhido porque ... havia histórias sussurradas sobre bruxas que se escondiam na mata, transformando-se em coelhos. ... Em vez de criar um papel de parede assustador ou alguma coisa muito antiga e gasta, dei a Sabrina uma coisa um pouco mais madura e feminina", disse Soper.

As cores rosadas do papel de parede também combinam com os belos tons vermelhos vistos ao longo da série, especialmente com a própria Sabrina, vista frequentemente com uma bolsa ou um casaco vermelhos. E a porta da casa dos Spellman é de uma cor vermelha profunda.

Quanto ao piso, Soper conta que criou uma forma de espinha de peixe que espirala para dentro – a espiral é um símbolo poderoso no paganismo e na bruxaria. As formas também são um elemento importante fora da casa dos Spellman: a Academia das Artes Invisíveis (a escola de bruxaria que Sabrina acaba cursando) é composta de uma série de pentágonos perfeitos e interligados, com os cinco pontos remetendo ao pentagrama de cinco pontas.

Mas são os toques humanizadores no quarto de Sabrina – os pôsters e as fotos que dá para imaginar que ela própria pregou à parede – que deixam a personagem mais conectada com a realidade, de modo que ela e seus caprichos de adolescente ficam mais verossímeis.

No segundo episódio, a benevolente tia Hilda conversa com Sabrina sobre seu pai, que teria morrido ao lado de sua mãe num acidente aéreo. Hilda vai dar boa noite à sua sobrinha e se senta no pé da cama, uma presença maternal lembrando a Sabrina e aos espectadores que a jovem bruxa tem muita história sombria para trabalhar, mas que, dentro de seu quarto, ainda pode ficar em segurança por enquanto.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.