09/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 09/11/2018 00:00 -02

Raquel de Oliveira, a ex-traficante que superou traumas e achou a cura na escrita

Líder do tráfico da maior favela do Brasil nos anos 1980, hoje ela tem 3 livros publicados, prepara o terceiro e tem textos presentes em várias coletâneas de poesias.

Raquel de Oliveira é a 247ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Raquel de Oliveira é a 247ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Ainda na infância, Raquel de Oliveira, hoje com 57 anos, teve de lidar com uma das piores crueldades do ser humano: a pedofilia. Vítima do pai dentro da própria casa, ela também não encontrou suporte no colo da mãe, que a abandonara por longos períodos trancada dentro do barraco em que morou a vida inteira. Aos seis anos, quando a mãe parou de levar a menina como acompanhante nos trabalhos de doméstica, Raquel experimentou cola de sapateiro, maconha e cigarro.

Aos 25 anos, começou a viver a história de amor que mudou toda a sua vida: tornou-se a "mulher do Naldo", líder do tráfico na maior favela do País, e que três anos depois deixaria a chefia como herança para a amada. Há 13 anos sóbria, mas em constante recuperação do vício em cocaína, hoje ela faz questão de contar a sua história e destacar: o crime não leva a lugar nenhum, e foi dentro da sala de aula, na escrita de seus livros e no suporte que dá a outros dependentes que encontrou sentido para a vida.

Raquel encontrou a reportagem do HuffPost Brasil na praia de São Conrado, que fica em um dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro e a poucos metros da Rocinha, que tem cerca de 100.000 habitantes. Foi ali naquela comunidade que ela viveu e escreveu toda a sua história. Ainda criança, a cola de sapateiro era a única droga possível por ser barata e tapear a fome. Quando a mãe saía de casa por longos períodos, não tinha o que comer, e ver um grupo de meninos brincando nos telhados chamou a sua atenção. A menina Raquel juntou-se ao que chama de gangue, e já aos 11 anos sabia portar arma de fogo, o funcionamento do tráfico de drogas e, "graças a Ogum", livrou-se de ser explorada sexualmente.

O vínculo psicológico com a droga, de usar a droga para suprir alguma coisa foi muito forte na minha vida.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Parecia que eu era a única que tinha noção de que uma hora para outra estaria todo mundo morto."

Hoje, Raquel auxilia dependentes químicos que também estão em tratamento, como ela. Por estudar o assunto, ela consegue enxergar o caminho que a levou até a dependência. "O vínculo psicológico com a droga, de usar a droga para suprir alguma coisa foi muito forte na minha vida. Depois que o meu amor morreu, eu usei a cocaína para substituir o desejo por sexo, porque também tenho compulsão nessa área, também na comida. O transtorno obsessivo compulsivo já estava dentro de mim, não surgiu", explica.

O amor, claro, é Naldo. "Fugido" da Rocinha, ele foi encontrado e morto numa operação policial em um morro na região metropolitana do Rio, e junto com ele boa parte da gangue da infância. Raquel se escondeu numa mata e foi a única sobrevivente. Depois de uma semana, voltou para a favela em que nasceu e foi criada.

"Parecia que eu era a única que tinha noção de que uma hora para outra estaria todo mundo morto. Mas quando aconteceu, fiquei bolada, puta da vida, pensando por que eu não morri também. A minha dependência tem uma característica de me tornar também suicida, e é uma ilusão que a mente cria, são desvios e atalhos que o cérebro cria para sofrer menos. Então fiquei abatida, jogada na cama, sem querer fazer nada, sem pensar em nada", relembra.

A minha dependência tem uma característica de me tornar também suicida, e é uma ilusão que a mente cria.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, Raquel auxilia dependentes químicos que também estão em tratamento, como ela.

Ao terceiro dia de luto, bateram à sua porta para avisar que Naldo havia deixado uma herança: armas, drogas e um lote de cocaína pura e paga que estava a caminho da comunidade. Raquel conta que ela e Naldo se comunicavam muito por códigos e mensageiros, devido à dificuldade de comunicação da época e à vida que os dois levavam. Então, no momento em que soube da "herança", sabia o que ele queria dizer: o comando, agora, seria seu.

Ela tentou desistir, mas os outros postulantes ao cargo estavam sem condições: loucos, "convertidos ao cristianismo" ou mortos, segundo ela. Tinha aprendido com seu histórico e também a vida com Naldo a preparou para aquele momento.

"Com ele, eu controlava a contabilidade, fazia o pagamento, controlava as entregas. A gente era parceiro, cúmplice. Eu não era a 'dondoquinha' mulher de bandido, que até existe em maioria, porque [o tráfico] é um mundo machista e os caras preferem manter as mulheres longe, uma ilusão para eles mesmos: quanto mais pessoas viverem com glamour em volta deles, mais ele se isenta da culpa pela vida que leva, psicologicamente falando", opina Raquel, que conta sua história com detalhes, mas reconhecendo que tudo aquilo não era o melhor caminho.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Raquel comandou as vendas de drogas e deu um jeito na "bagunça" da comunidade durante 3 anos.

Hoje escritora, mãe de dois filhos já adultos, ela pensa que jamais imaginaria estar onde está: "Quando conheci o Naldo e entrei para aquela vida, eu sabia que existia outras possibilidades, mas eu não via chance nenhuma para mim, em lugar nenhum. Eu não sabia nem sair da Rocinha", relembra.

Raquel comandou as vendas de drogas e ditou regras na comunidade durante 3 anos, inclusive com distribuição de cestas básicas e remédios para moradores mais pobres. Manteve uma caça aos pedófilos, mas disse que teve "plena certeza" de que "estava no lugar errado" quando reparou que sua crueldade "aumentava conforme o tempo passava".

Eu sabia que existia outras possibilidades, mas eu não via chance nenhuma para mim.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"A Número Um" conta a história de toda a sua vida como esposa de um dos maiores traficantes da Favela da Rocinha.

A posição que ocupava começou a pesar para Raquel, porque "é uma posição muito cruel onde a vida e a morte andam de mãos dadas, mais pra morte do que pra vida". Depois da morte de Naldo, Raquel perdeu o medo de morrer, mas não queria que isso acontecesse como fruto de uma traição dos membros do tráfico. Ela conta que em um momento, apesar de não ter lidado diretamente com machismo quando exercia a sua função, queriam tirá-la do poder por ser mulher.

A junção desses fatores foi fundamental para que ela largasse o comando do tráfico. Ela tentou recomeçar a vida trabalhando com faxinas e limpezas em geral, mas sempre rodeada pela cocaína, durante toda a década de 1990. Somente em 2005 ela descobriu que sofria de uma "doença incurável, progressiva e de determinação fatal, que é a dependência química". Abraçada por um amigo de uma igreja, foi convidada a sentar nas cadeiras da instituição para um projeto de jornal de comunidade -- só que, na verdade, ouviu outros dependentes dividindo suas dores. Compreendeu que tudo que a dependência causava na sua vida tinha tratamento, e "se jogou" nele.

No tratamento, uma das etapas pedia para que o dependente descrevesse o seu dia. "Eu tinha que escrever as emoções que dominavam meu dia: o que eu senti, quando fiz tal coisa, quando senti raiva, do que achei graça. Para saber o que ia me interessando além da droga. Então eu comecei a escrever muito e nasceu a poesia. Dei continuidade a essa escrita, e a poesia foi se intensificando, Eu e as outras pessoas à minha volta percebemos que a escrita era boa e ajudava as pessoas", conta a autora de A Número Um.

Eu estudei muito para criar, não é um livrinho que uma ex-mulher de bandido foi lá e escreveu, não.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

A Número Um, lançado em 2015, é o primeiro romance publicado por Raquel, e conta a história de toda a sua vida como esposa de Naldo, comandante do funcionamento do tráfico no morro da Rocinha. Baseado em fatos reais, "porque os nomes são fictícios e os diálogos não têm como ser literais", ela faz questão de pontuar a importância da obra.

"É um romance, uma obra literária. Eu estudei muito para criar, não é um livrinho que uma ex-mulher de bandido foi lá e escreveu, não. É um livro que é inspirado no Mário de Andrade, meu muso inspirador. Tem um estilo colcha de retalhos, com reflexão e leitura rápidas. Eu sou uma sobrevivente, e fico muito feliz de colocar essa história no papel. Sinto que o livro é necessário, e fico satisfeita de transformar em uma obra tão relevante algo que foi tão ruim", destaca.

Raquel conta que sua vida é cercada por sinais, e lembra do sinal que deu o pontapé na sua trajetória também como professora. Em 2008, bem antes de A Número Um existir, Raquel viu uma faixa de rua convidando para inscrições em um colégio que formava professores. Só com o ensino básico, ela voltou às carteiras escolares já na casa dos 40 anos, para perseguir um sonho que naquela altura nem lembrava que tinha.

Meu endereço certo era o cemitério sem nenhum sonho.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Seu lado professora, de sorriso largo e abraço maternal, continua ativo nas palestras que promove.

"Desde pequena eu tinha essa vontade de ser professora, porque eu tenho uma história com livros. Fui criada até os seis anos numa cobertura em Copacabana, onde minha mãe trabalhava, e lá eu tinha contato com os livros. O filho da patroa levava giz, e eu brincava de dar aula para as bonecas", relembra, com saudosismo e alegria contida de quem reencontrou um grande amor, os livros e a sala de aula, a tempo. Depois de concluir o ensino médio, Raquel fez o Exame Nacional do Ensino Médio, ganhou uma bolsa integral para cursar pedagogia em uma universidade particular e tornou-se efetivamente professora.

Até 2016, deu aulas em escolas de ensino básico da capital fluminense, mas a rotina cansativa, a falta de dinheiro e um problema nos joelhos a impedem de voltar às salas de aula. Seu lado professora, de sorriso largo e abraço maternal, continua ativo nas palestras que promove em colégios da cidade, principalmente para falar de suas obras, seja nos encontros com outros dependentes. Além de A Número Um, Raquel também é autora de um livro de poesias, está escrevendo outro romance a ser lançado no próximo ano e participa de várias coletâneas de poesia. O seu livro autobiográfico deve virar filme em breve. Salva pela poesia, como ela mesmo conta, fica feliz com a forma como seu destino foi conduzido.

O que eu tinha para pagar, paguei escrevendo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"O importante é não usar drogas só por hoje, e aí a gente vai para onde quiser."

"De jeito nenhum me imaginaria aqui hoje. Meu endereço certo era o cemitério sem nenhum sonho. Todas aquelas leituras me faziam viajar, mas eu drogada não conseguia fazer nada: ler, conversar, ver televisão ou tomar banho. O arrependimento que eu tenho, não é arrependimento, o que eu sinto é pena de mim como pessoa, de ter sido tão massacrada quando pequenininha. Com a inteligência que eu tenho, penso nas possibilidades que eu tinha", analisa.

Todos os crimes que relata no seu livro estão prescritos. Ela diz que o importante é olhar sempre para projetos e ambições futuras, não mais para trás. "Eu paguei escrevendo. Sofri para caramba, tive recaídas emocionais terríveis. Mas estou firme na recuperação. O importante é não usar drogas só por hoje, e aí a gente vai para onde quiser", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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