MULHERES
07/11/2018 04:00 -02 | Atualizado 07/11/2018 04:00 -02

Não denunciei o estupro que sofri há 14 anos. Por que resolvi falar agora?

A jurista Christine Blasey Ford teve que fazer uma escolha difícil. Algumas semanas atrás, eu fiz a minha.

Illustration by Tara Jacoby

Três semanas antes de Christine Blasey Ford depor contra Brett Kanavaugh diante do Comitê do Senado para o Judiciário, relatando a agressão sexual que sofreu em 1982, eu estava sentada diante de um delegado com cara de criança, registrando a denúncia do estupro que eu mesma sofri 14 anos atrás.

O centro de atendimento a vítimas de violência e agressão sexual ficava alguns degraus abaixo do nível da rua, e, para chegar à sala nos fundos da casa, tive que atravessar uma sala de espera cheia de brinquedos e com um rack de roupas de segunda mão, como se fosse em parte consultório pediátrico, em parte brechó. Estava um pouco frio no local. Fiquei olhando o relógio na parede enquanto aguardava a chegada do policial, enquanto uma defensora de vítimas de violência sexual conversava comigo, dizendo coisas que eu mal conseguia ouvir. Num bloquinho à minha frente eu havia anotado uma lista de informações básicas sobre o homem que me violentou: nome, idade, possível número de telefone e endereço.

O delegado que me atendeu tinha cabelo cortado rente à cabeça e ostentava tatuagens nos dois braços. Ele fez anotações lentamente, virando-se a toda hora para falar comigo e então voltando a olhar para a mesa onde estava escrevendo. Ele explicou que não queria me dar as costas. Ele geralmente registrava os boletins de ocorrência na delegacia de polícia. Quando ele pediu meu endereço, tive dificuldade em soletrar o nome de minha rua. Talvez eu também devesse ter colocado minhas próprias informações básicas no papel.

O policial disse que não podia imaginar o que eu passara, mas podia sentir empatia comigo. Ele já tivera que trabalhar traumas pessoais próprios.

O encontro com o policial, em setembro, marcou o ponto culminante de um mês de deliberações em que me perguntei algo semelhante ao que Christine Blasey Ford disse que se perguntou: "Para quê sofrer essa aniquilação toda se não vai fazer diferença?".

Meu caso não virou espetáculo da mídia. Meu estuprador não era candidato a juiz da Suprema Corte. Mas, assistindo a Ford depor diante do Comitê do Senado para o Judiciário e relatar o trauma que sofrera anos antes, senti que eu estava entendendo um pouco do cálculo doloroso que ela foi obrigada a fazer. Quando ela falou em aniquilação, quis dizer algo mais profundo do que simples prejuízo à sua reputação. Estava falando em perder o controle de sua própria história, ou seja, dela mesma.

O policial me falou em tom gentil: "Quando digo que vou fazer tudo que estiver ao meu alcance, saiba que estou falando sério". Eu me preparara para ser ouvida com ceticismo ou até hostilidade. Aquela não era a reação que eu tinha previsto de um homem em cargo de autoridade. Ele me entregou o boletim que acabara de redigir, para que eu o lesse. Era a história do meu estupro escrita na letra de outra pessoa.

***

"Estou aqui não porque eu queira estar", Ford estava dizendo, com a voz trêmula. "Estou apavorada." Eu tinha me fechado dentro de uma sala de conferências para assistir à audiência e podia ouvir os televisores da redação com o volume virado muito alto para todos acompanharem a audiência. Meus ombros estavam tensos. O cabelo de Ford estava no rosto dela, e ela soava jovem, mais jovem do que eu imaginara. Eu também estava apavorada.

Quando recentemente o presidente Donald Trump colocou a credibilidade de Ford em questão, tuitando que, "se o ataque à Dra. Ford tivesse sido tão sério quanto ela disse", ela ou seus pais o teriam denunciado à polícia nos anos 1980, eu me senti como se ele tivesse me questionado também, apesar de saber que minha história é uma história mais do que comum, uma verdadeira história americana.

A maioria das mulheres não denuncia à polícia quando é estuprada. Segundo o Escritório de Estatísticas Judiciais, apenas 23% dos casos de estupro e agressão sexual são denunciados à polícia. Depois do tuíte de Trump, muitas mulheres despejaram seus traumas online, compartilhando seus relatos sobre o porquê de não terem denunciado quando sofreram violência sexual, usando a hashtag #WhyIDidntReport (Por que não denunciei). Eu não postei nada, mas até um mês atrás eu estava nessa situação.

Durante anos eu praticamente não falei sobre o incidente, apesar de ele ter influído sobre meus relacionamentos e amizades com homens. Contei a alguns namorados em que senti confiança, algumas amigas e um terapeuta. Mas, apesar de eu não falar sobre isso com frequência, o estupro foi um fato que ajudou a moldar minha vida. Ele mudou o modo como interajo com homens e me deixou sempre em guarda com meus conhecidos e colegas de trabalho homens.

Os detalhes de minha história não são incomuns. Como Ford, eu estava numa festa nos tempos do colégio. Tinha 17 anos. Eu nunca tinha feito sexo antes de ser violentada.

O tempo todo eu me esforçava para esquecer. Me lembro de ter conversado com um namorado sobre a repórter Lara Logan, do programa "60 Minutes", que foi agredida sexualmente em 2011 quando fazia a cobertura da primavera árabe. "Não consigo imaginar como é ser estuprada", eu disse. Meu namorado me olhou. "Não consegue imaginar? Pensei que você tivesse passado por isso." Meu esquecimento forçado tinha sido tão completo que eu precisava de outra pessoa para me lembrar do que passei.

De vez em quando, quando eu já tinha mais de 20 anos, meu sentimento de culpa por nunca ter denunciado o estupro voltava à tona. Aos 17 anos, eu queria proteger minha identidade ainda não plenamente formada. Eu me concentrei no que estava diretamente à minha frente. Queria que o estupro saísse de minha cabeça, que fosse desvinculado de quem eu era. Queria que desaparecesse. Com o passar do tempo passei a ter preocupações mais amplas, que não se limitavam ao âmbito pessoal. E comecei a pensar na possibilidade de o homem que me estuprou ter feito a mesma coisa com outras mulheres. Será que meu silêncio me estava tornando cúmplice de seus atos?

Em agosto deste ano, liguei para meu namorado dos tempos do colégio, a única pessoa a quem eu tinha contado sobre o ataque na época em que aconteceu. A gente não se falava havia sete anos, mas sua voz estava idêntica. "Conversamos sobre isso uma vez, e pronto", ele disse. "Eu me sentia incômodo em falar do assunto. Não sabia bem até que ponto você estava traumatizada."

Como muitas vítimas de estupro, que depois de agredidas se voltam para dentro, eu não passava a impressão de estar aflita. "Você não estava visivelmente abalada", ele me explicou. "Parecia estar chateada, mas não tanto quanto eu achei que deveria estar." Em vez de sentir raiva, algo que apareceria anos mais tarde, eu reagi com estoicismo.

Nem sequer passou por nossa cabeça ir à polícia.

Dissemos um ao outro que, se fosse hoje, faríamos diferente. Mas o desejo de cobrar a responsabilidade, de ver a verdade prevalecer, é um impulso adulto. A preocupação primeira de uma adolescente é preservar a si mesma.

***

"Tirando a agressão propriamente dita, estas duas últimas semanas foram as mais difíceis de minha vida", depôs Ford. "Fui obrigada a reviver meu trauma diante do mundo inteiro. Vi minha vida ser dissecada por pessoas na televisão, na mídia e nesta entidade, pessoas que não me conhecem e nunca falaram comigo."

Ela se vira em um dilema terrível, tendo que optar entre o que considerou ser seu dever de cidadã e, por outro lado, sua reputação e segurança pessoal. "Minha responsabilidade é contar a verdade", ela disse.

Diferentemente de Ford, eu não recebera ameaças de morte nem assédio da mídia ou de outro tipo. Meus amigos e minha família todos me deram apoio total. Mesmo assim, numa carta que escrevi a uma amiga recentemente descrevi os meses que antecederam o registro de minha queixa como "os mais emocionalmente difíceis de minha vida". Pensando no escrevi, à luz do depoimento de Ford, percebi que também eu estava tentando falar a verdade, e que se danassem as consequências. "Isto faz parte de meu esforço maior este ano de reconhecer coisas que são difíceis e desagradáveis, para depois poder superá-las", escrevi.

Em abril, esquecer passou a ser mais difícil. Enquanto escovava os dentes, a cena do meu estupro passou pela minha cabeça, e eu vomitei. Comprei uma escova de dentes nova, elétrica. Finalmente, liguei para meu pai e disse que eu precisava voltar para casa. Eu esperara 14 anos, mas naquele momento, de repente e urgentemente, eu precisava saber se ele iria acreditar em mim.

A noite caía enquanto eu atravessei o rio Hudson de trem, vendo a paisagem urbana dar lugar aos campos e chaminés das cidades menores pós-industriais do interior do Estado. Quando o trem parou na estação à margem do rio, desci e me acomodei no banco da frente do carro do meu pai.

Olhando fixamente pela janela, contei todos os detalhes do estupro ao meu pai.

"Você teve vontade de se vingar?", meu pai me perguntou, finalmente.

"Não", respondi. "Tive vontade de fugir para longe."

"Você acha que esse cara estuprou outras pessoas?"

"Acho."

"Você denunciou à polícia?"

"Não."

"Por que não contou para nós?"

"Fiquei com medo de você matá-lo. Não deve ser verdade, mas foi o que eu pensei na época."

Na manhã seguinte fiz a busca no Google que eu vinha adiando havia mais de uma década. Meu estuprador apareceu imediatamente no registro policial local. Nos 14 anos passados desde que ele me atacara, ele já tinha sido detido mais de uma vez, incluindo uma vez por um crime violento. Peguei o telefone e liguei para um serviço nacional de denúncia telefônica de casos de violência e agressão sexual.

As leis sobre denúncias de estupro são complicadas e variam de um estado para outro, mas eu imaginei que meu agressor não pudesse mais ser levado à justiça, porque tanto tempo já se passara. Enquanto dez estados americanos praticamente não têm limites de tempo para se abrirem a abertura de queixa-crime por agressão sexual violenta, na maioria dos estados as vítimas têm tempo limitado para denunciar o crime. Em Nova York, onde eu moro, a vítima tem prazo de cinco anos para denunciar agressões sexuais. Mas os crimes de estupro mais casos não prescrevem, segundo uma lei que foi atualizada em 2006 e que tem efeito retroativo para 2001 nos casos ocorrido em até cinco anos antes disso.

"Sei que o crime já prescreveu, mas quero denunciar o estupro que sofri 14 anos atrás", expliquei. "Acho que o homem que me atacou já estuprou outras pessoas. Quero que minha denúncia apareça se ele atacar outra pessoa."

"Não é bem assim que funciona", me falou a mulher que atendeu a ligação. "Para que uma observação seja colocada na ficha policial dele, é preciso que ele tenha sido preso em algum momento.

"Mesmo assim", ela prosseguiu, "se você ainda estiver interessada em apresentar a denúncia, pode ser que o prazo não tenha vencido."

Falei que eu estava interessada, sim. Eu estava farta de me esquecer intencionalmente.

***

É impossível saber o que levou Ford a finalmente ir a público com sua denúncia. Mas na carta que enviou em julho à senadora Dianne Feinstein, descrevendo a agressão, ela mencionou um sentimento subjacente de culpa. "É angustiante falar de agressão sexual e suas repercussões", ela escreveu, "mas, como cidadã, eu me sinto culpada por não dizer nada."

Segundo o relato de Ford, há uma tensão entre querer controlar a história de seu trauma e, por outro lado, o dever que ela sentia ter de apresentá-la ao mundo. Esse dilema é algo que as vítimas de agressão carregam, algo que eu senti profundamente. Minhas próprias razões para fazer a denúncia este ano, 14 anos mais tarde, foram complicadas.

Não foi por querer que meu agressor enfrentasse as consequências criminais por seu ato – eu imaginava que o crime tivesse prescrito muito tempo antes. Mas o silêncio tinha deixado de ser aceitável. Por tempo demais eu fui a única testemunha de um crime do qual também fui vítima. Eu estava me rebelando contra o modo como tinha lidado com isso, ignorando-o para ver se deixava de existir. E tinha medo de que o homem que me agredira na adolescência ainda estivesse fazendo mal a outras mulheres. Eu não tinha provas disso, mas não conseguia parar de especular. E se eu não fosse a única? E se houvesse outras vítimas?

Nos dias antes de ir à polícia fazer a denúncia, meu corpo se revoltou. Ainda era verão, mas fiquei com dor de garganta constante. Todas as manhãs quando eu abria os olhos, a escuridão me dominava e eu tinha dificuldade em sair da cama. Uma terapeuta da organização de apoio a vítimas de agressão sexual me ajudou a enfrentar esse processo e me orientou a pensar antes sobre o que eu iria dizer, me aconselhou a não me apressar, me avisou que o policial talvez não fosse receptivo ou talvez fizesse perguntas insensíveis. Ela me perguntou o que eu esperava ganhar pelo fato de denunciar o estupro, para ter a certeza de eu não estar depositando todas minhas esperanças em um resultado determinado.

Numa manhã fresca de setembro, sem nuvens no céu, fui da casa dos meus pais ao escritório da entidade de apoio às vítimas, onde tinha uma hora marcada para apresentar minha denúncia a um policial, na presença de uma assessora do centro. Sombras se desenhavam na rua.

Tenho 31 anos, mas isso não transparece na gravação de áudio que fiz no carro, a caminho do centro. "Estou revivendo o que aconteceu comigo quando eu tinha 17 anos", eu digo na gravação, com minha voz quase sumida sob o ronco do motor de um caminhão.

"Há um aspecto disto que não parece uma coisa adulta de se fazer. Isso é um absurdo, porque quando era adolescente eu não me senti capaz de fazer isso. Eu não sabia que era uma opção. Nunca passou pela minha denunciar à polícia."

E depois falei: "Eu queria ter trazido minha mãe junto".

***

Eu estava em Nova York outra vez, no dia seguinte à denúncia, quando meu telefone tocou, e o número que apareceu no visor tinha código de área de minha cidade natal. O homem ao telefone se apresentou.

"Sou o investigador designado para seu caso", ele falou.

Grudei meu ouvido ao telefone, atenta às palavras que imaginava que ia ouvir: que já era tarde demais, que o crime já havia prescrito, que ele sentia muito mas não havia nada mais a ser feito.

Em vez disso, o investigador pediu para me encontrar cara a cara. "Quero ter um rosto para acompanhar seu nome na denúncia", explicou. Ele me pediu o endereço exato de onde ocorreu o estupro e os nomes de pessoas que pudessem corroborar meu relato. Perguntou se poderia falar com as pessoas na semana seguinte e disse que eu deveria entrar em contato com elas primeiro para avisar que ele iria procurá-las. O investigador já estava avançando a pleno vapor enquanto eu ainda estava recuando, pasma.

Minha cabeça parou. O crime não havia prescrito? Insisti com ele. O investigador disse que os casos de estupro agravado não prescrevem. Insisti de volta, repassando os detalhes que eu tinha fornecido em meu depoimento escrito ao policial. "Você está dizendo que o que aconteceu teria sido mais como um estupro em terceiro grau?", ele respondeu.

Diferentemente de um estupro em primeiro grau, uma categoria que inclui o uso de força, um estupro em terceiro grau seria um crime menor e que já teria prescrito.

Falei que eu não sabia. Eu tinha lido os estatutos extensamente, mas talvez não entendesse completamente o espírito deles.

Agora que o processo começara a andar, eu entrei em pânico. Pelo fato de ter contado a meus pais sobre o estupro, ele se tornara real. A denúncia à polícia o tornara oficial. Receber o telefonema de um investigador me fez questionar tudo. Me preocupei, ansiosa, querendo saber que forma a justiça poderia assumir depois de tanto tempo. Antes disso eu queria que a agressão deixasse de ser responsabilidade apenas minha, mas, agora que estava nas mãos da lei, eu a queria de volta.

Perguntei quanto controle eu teria sobre o que aconteceria a seguir. Eu queria ter o poder de dar o sinal verde antes de a investigação seguir adiante, antes de o investigador entrar em contato com meu agressor.

"A bola agora está nas minhas mãos", o investigador me disse.

Depois que Ford apresentou seu depoimento diante do Senado, os senadores democratas a elogiaram, descrevendo-a como corajosa e heroica. Mulheres ergueram cartazes e vestiram camisetas estampadas com as palavras "acredito na Dra. Ford". Elas estavam reforçando Ford, mas também tomando a si o relato dela, para elas mesmas e para a história.

"Não existe certeza", me garantiu a defensora das vítimas de violência sexual. "Precisamos seguir adiante com as decisões que tomamos e aceitar o que vier pela frente."

"A bola agora está nas minhas mãos", disse o investigador. Seu tom foi gentil, mas foi assustador ouvir aquilo – ao mesmo tempo uma libertação e uma aniquilação. Pensei nisso durante o depoimento da Dra. Ford. Ela o encarou em termos de seu dever de cidadã, ciente de que a história de sua agressão deixaria de pertencer apenas a ela. Ela estava descrevendo uma transfiguração, o singular virando o plural, o pessoal se convertendo no público. Ela nos entregou a história de suas coisas duras e desagradáveis sofridas, abriu mão do controle sobre ela, nos confiou sua história para que nós a conduzíssemos até a luz.

Sua história agora é nossa.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.