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07/11/2018 16:36 -02 | Atualizado 07/11/2018 17:58 -02

Democratas recuperam o controle da Câmara nos EUA, mas Trump mantém Senado

Oposição tentará atrair republicanos moderados e confrontará presidente em temas como saúde e imigração.

Após oito anos sofridos como minoria, os democratas vão voltar a controlar a Câmara dos Deputados, com uma nação profundamente dividida entregando a seu partido uma vantagem estreita de cerca de 10 cadeiras na casa.

Não foi exatamente o tsunami pelo qual os democratas estavam torcendo. Mesmo com uma vantagem de 9 pontos no voto popular, os republicanos conseguiram evitar os cenários piores na Câmara e aumentaram sua maioria no Senado, quando Indiana, Missouri e Flórida – Estados que votaram no presidente Donald Trump em 2016 – mandaram embora seus senadores democratas.

Apesar disso, os dois partidos puderam declarar vitória na terça-feira. Com os democratas conquistando o controle da Câmara, as iniciativas legislativas da presidência Trump terão que avançar muito mais lentamente. Enquanto isso, os republicanos poderão apontar para seus avanços no Senado para afirmar que os eleitores ainda preferem sua visão sombria e pessimista de governança.

Na realidade, uma das principais lições que os republicanos vão tirar do que aconteceu é que eles precisam abraçar ainda mais o estilo de Trump. Uma vitória avassaladora para o Partido Democrata não chegou a se concretizar porque os republicanos conseguiram energizar seus eleitores com uma campanha cheia de tensão racial e questões que remetem a uma guerra cultural.

Mesmo com os democratas provavelmente conquistando mais cerca de 30 lugares na Câmara, o mais notável talvez seja quantos deputados republicanos conseguiram sobreviver. Para que os democratas conseguissem reconquistar a Câmara, foi preciso os republicanos tentarem enfraquecer as proteções populares para pessoas com problemas médicos preexistentes [sobre a lei de saúde], a aprovação de uma lei impopular de redução de impostos e a realidade Trump -- e, mesmo assim, os democratas só conseguiram a duras penas.

Onde os democratas realmente conquistaram cadeiras novas, seus ganhos se deram sobretudo em regiões onde Hillary Clinton já havia passado à frente de Donald Trump em 2016, apesar de democratas terem promovido viradas em distritos eleitorais em todo o país. Eles conquistaram três cadeiras na Virgínia, três na Pensilvânia, duas no Texas e um punhado de lugares em Nova York, Iowa, Illinois e Nova Jersey, e ainda faltam ser contabilizados os resultados de dezenas de distritos.

Os democratas também conquistaram algumas vitórias inesperadas, como na área de Staten Island, favorável a Trump, e até mesmo um distrito no Oklahoma, Estado de maioria republicana de longa data. Mas seus avanços ocorreram principalmente nas áreas suburbanas, ricas e de alto nível de instrução que já vinham cada vez mais aderindo ao Partido Democrata.

A mensagem básica transmitida pelos democratas durante a campanha de 2018 – que eles protegeriam a saúde para os doentes, enquanto os republicanos fariam o oposto – parece ter sido ouvida em todo o país.

Os candidatos democratas usaram quase todas as oportunidades possíveis para redirecionar as discussões para a questão da saúde. Eles canalizaram a frustração com um presidente historicamente impopular para uma energia de base que os impeliu de volta ao poder em vários distritos que não eram representados por democratas havia anos, em alguns casos décadas, como o distrito da Virgínia onde a democrata Agibail Spanberger derrotou o republicano Dave Brat, um distrito que não é representado por um democrata desde 1970.

Mas os republicanos conseguiram conservar a maioria de suas cadeiras em distritos de tendência incerta, apelando para sua base de eleitores republicanos. Em estados como a Flórida, onde poderia ter perdido muitas cadeiras, o Partido Republicano acabou perdendo apenas em áreas onde os democratas já eram populares. Uma disputa para governador que opôs a energia da base democrata, canalizada para o candidato Andrew Gillum, à base de Trump, com o candidato republicano Ron DeSantis, deu a vantagem aos republicanos.

Em um primeiro momento, os republicanos haviam tentado uma estratégia baseada em um tipo diferente de mensagem. Eles tentaram apresentar seu pacote de corte dos impostos como uma vitória importante para os eleitores, argumentando que a economia forte é subproduto de suas políticas.

Mas, com as pesquisas consistentemente indicando pouco mais de 40% de aprovação popular para a lei dos impostos, os republicanos passaram a basear suas campanhas em mensagens mais ligadas à guerra cultural e de teor mais racial, que mantiveram o tsunami democrata previsto à distância.

O Partido Republicano apostou que poderia resistir aos piores efeitos de uma onda democrata, abraçando os argumentos de Trump e energizando seus próprios eleitores. E, em sua maioria, os republicanos tinham razão.

Em última análise, a possibilidade de [a líder dos democratas Nancy] Pelosi voltar a presidir a Câmara vai depender da composição exata desta, e de ela conseguir que alguns democratas reneguem a promessa que fizeram aos eleitores de que não a apoiariam para o cargo.

Mesmo assim, reconquistar a Câmara é uma vitória tremenda para os democratas, que tentarão frear os piores efeitos da presidência de Trump.

É quase certo que eles não aceitarão os esforços republicanos para esvaziar a lei de saúde promovida por Obama. É provável que não tornem as reduções nos impostos permanentes, como querem os republicanos. E, como já é o caso, não darão a Trump o muro na fronteira que foi uma de suas promessas fundamentais de campanha -- não sem conseguir concessões importantes sobre o programa Daca, que protege jovens que migraram para os EUA na infância.

Em vez disso, disseram democratas, eles vão propor um pacote infraestrutural que tem o objetivo de atrair a adesão de alguns republicanos moderados e do presidente. Eles proporão sua própria legislação sobre o Daca e desafiarão Trump a fazer oposição a ele. E submeterão o presidente a uma fiscalização mais rigorosa, se bem que já haja dúvidas sobre até onde os democratas poderão levar um possível processo de impeachment.

Disputa pela Presidência da Câmara

A líder da minoria na Câmara, deputada democrata Nancy Pelosi, da Califórnia, já deixou claro que o impeachment de Trump não será uma prioridade sob a liderança dela. Mas isso pode mudar se houver uma fiscalização do Congresso ou se a investigação de Robert Mueller render novas revelações. E não está certo, tampouco, que Pelosi conserve sua posição de líder democrata na Câmara.

Vários dos democratas que venceram na terça-feira -- incluindo Spanberger na Virgínia, Jason Crow no Colorado, Mikie Sherrill em Nova Jersey e Anthony Brindisi em Nova York -- já disseram que não serão a favor de Pelosi se tornar a nova presidente da Câmara.

E, com uma maioria democrata que ainda pode se revelar muito pequena, o domínio de Pelosi sobre essa posição é muito tênue. Não é de hoje que ela enfrenta pressão de democratas como Tim Ryan, do Ohio, Seth Moulton, do Massachusetts, e Jim Cooper, do Tennessee, para abrir mão de sua posição de líder democrata na Câmara.

Em última análise, a possibilidade de Pelosi voltar a presidir a Câmara vai depender da composição exata desta e de ela conseguir que alguns democratas reneguem a promessa que fizeram aos eleitores de que não a apoiariam para o cargo.

A eleição ainda não estava definida em vários distritos na noite de terça-feira, incluindo a maioria dos distritos da Califórnia onde a disputa era mais apertada. Muitas dessas corridas apertadas serão cruciais para determinar a maioria exata dos democratas e a possibilidade de Nancy Pelosi conservar sua posição.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.