POLÍTICA
06/11/2018 16:02 -02 | Atualizado 06/11/2018 16:02 -02

'O futuro da esquerda não é o futuro do PT', diz Ruy Fausto

Para o especialista no pensamento de esquerda, partido vai passar por uma "discussão interna muito séria".

Nacho Doce / Reuters

O PT e suas lideranças "falharam inteiramente" nas eleições deste ano e o partido deverá passar por uma discussão interna "muito séria" sobre seu futuro. A análise é do professor do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo) Ruy Fausto, especialista no pensamento de esquerda.

"Foi um erro lançar o Lula, eles deveriam ter lançado de início um candidato independente, como o [Fernando] Haddad, com um programa autocrítico, ou então ter feito a aliança com o Ciro Gomes", disse o especialista em entrevista ao HuffPost Brasil.

Para Fausto, também é preciso "tirar da cabeça a ideia de que o futuro da esquerda é o futuro do PT". "É preciso acompanhar os outros partidos. Ver o que o PDT vai fazer, o que o Psol também vai fazer. Acho que o Psol precisa avançar. O Boulos tem um discurso bolivariano que ele precisaria corrigir", afirmou.

Nas eleições presidenciais, Fernando Haddad ultrapassou Jair Bolsonaroem apenas 6 capitais do País. O petista obteve 44,87% dos votos válidos contra 55% do militar da reserva.

A nível nacional, o PT elegeu 56 deputados e será a maior bancada do Congresso. Em seguida vem a sigla de Bolsonaro: o PSL deixou de ser nanico e tem 52 deputados eleitos.

"Inegavelmente é um partido que tem muita força viva. O PT foi um partido hegemônico, mas hoje eu já não sei se é", diz Fausto.

HuffPost Brasil: Qual o saldo do PT após as eleições?

Ruy Fausto: O PT não sai nada fortalecido desse pleito. O partido e a direção falharam inteiramente. E quando eu falo na direção, estou me referindo a Gleisi [Hoffmann] e suas companhias. Foi um erro lançar o Lula, eles deveriam ter lançado de início um candidato independente, como o Haddad, com um programa autocrítico ou então ter feito a aliança com o Ciro Gomes. O Ciro queria a chapa Ciro-Haddad, o Haddad queria, só o PT não quis, e acho que o Lula também não quis.

O PT tem importância, mas tem uma direção que tem que ser criticada. Não é possível uma dirigente do partido, as vésperas da eleição fazer um elogio à Venezuela, e não apenas por questões técnicas, mas por questões táticas. Isso é um erro, não interessa à esquerda, e é preciso romper com isso. É preciso também falar toda a verdade sobre o governo Lula, um governo que fez muitas coisas boas, mas que havia muita corrupção, muita mesmo.

Como o partido deve se estruturar a partir de agora?

Eu acho que vai ter uma discussão interna muito séria no PT. Se isso vai levar a uma ruptura, eu não sei, eu não estou lá dentro. É preciso acompanhar os melhores que estão por lá e não deixar que tudo se transforme em água benta. Se uma parte da direção disser que o PT sempre esteve certo ou que foi culpa do Haddad [a derrota], isso vai me dar medo.

Inegavelmente é um partido que tem muita força viva. E conseguiu vitórias políticas importantes no Nordeste. Por outro lado, é preciso acompanhar os outros partidos. Ver o que o PDT vai fazer, o que o Psol também vai fazer. Acho que o Psol precisa avançar. O Boulos tem um discurso bolivariano que ele precisaria corrigir. A gente precisa de uma esquerda democrática. E o que é mais importante: tem que se pensar em conversar com a massa de centro e de esquerda que não apoia nenhum partido.

O único porém nisso tudo é que a gente não sabe como será um governo Bolsonaro. Pode acontecer o pior. Com o que ele já disse, com o que ele está prometendo. Mas não sabemos, não temos ideia do que será o país em 1º de janeiro. É preciso se preparar com calma, lucidez e firmeza para enfrentar alguma coisa muito nova e muito séria que está se desenhando. Ele é uma máquina. Inclusive, internacionalmente, tem ligações com gente da pior espécie.

Com o enfraquecimento do PT, a esquerda perde espaço?

A esquerda não é o PT. O PT foi um partido hegemônico, mas hoje eu já não sei se é. A gente precisa parar com esse fetichismo de partido. Não podemos jogar o PT fora, claro, tem muita gente boa lá dentro, mas tem muita gente variada. E os partidos podem servir como alavancas ou como freios para as pessoas. É preciso tirar da cabeça a ideia de que o futuro da esquerda é o futuro do PT. Isso seria um desastre para a esquerda brasileira. O PT continuará tendo peso no País, mas não podemos fetichizar isso.