ENTRETENIMENTO
06/11/2018 16:32 -02 | Atualizado 06/11/2018 16:34 -02

Michelle Gomez é a melhor coisa do reboot de ‘Sabrina’

A atriz que rouba a cena em “O Mundo Sombrio de Sabrina” explica por que faz tão bem papeis de pessoas más.

Kiernan Shipka e Michelle Gomez em cena de “O Mundo Sombrio de Sabrina”, da Netflix.
Divulgação
Kiernan Shipka e Michelle Gomez em cena de “O Mundo Sombrio de Sabrina”, da Netflix.

Pode fazer a apologia que quiser para o diabo, mas é bom que Michelle Gomez seja a próxima da sua lista, porque ninguém faz papeis de pessoas más tão bem quanto ela em "O Mundo Sombrio de Sabrina", que acaba de estrear na Netflix.

Se você sabe alguma coisa do mundo de "Riverdale", onde se encaixa o reboot de "Sabrina", vai saber que, apesar dos adolescentes musculosos da série, as melhores tramas pertencem aos adultos. Isso é verdade em "O Mundo Sombrio", especialmente quando Gomez aparece disfarçada de demônia, entrando na vida de Sabrina Spellman na forma da professora da adolescente, a meiga senhora Wardwell.

O reboot segue à risca o clichê segundo o qual ser possuído pelo diabo significa transformar-se num gostosão ou numa gostosona. Mas Gomez interpreta o papel com consciência e, quando a personagem começa a usar blusas decotadas e penteados refinados para devorar os corações dos entregadores de pizza, é impossível não torcer por ela.

A real identidade dela (alerta de spoiler, corra com essa maratona!) de Madame Satã não fica explícita até os momentos finais da temporada. (Fãs da história em quadrinhos vão sacar logo no primeiro episódio.) Mas a atriz escocesa consegue roubar todas as cenas em que aparece. Gomez estava gravando a segunda temporada, mas tirou um tempinho para conversar com o HuffPost sobre o que é necessário para interpretar uma vilã memorável, por que nossa cultura não está nunca satisfeita com o oculto e que conselhos ela daria para o diabo se ele bater à sua porta.

Você faz os vilões parecerem divertidos, o que faz sentido dada sua experiência interpretando antagonistas em séries como "Doctor Who". Qual é o truque para ser uma boa vilã?

Ajuda ter essa cara. Claramente nasci para fazer papel de bruxa e vacas até o fim dos tempos. Especialmente nas telas, porque te escolhem pela sua aparência. Além disso, talvez tenha tido sucesso fazendo vilãs porque não as enxergo como vilãs. Enxergo-as como suas piores melhores amigas. Gosto de trabalhar por que essas mulheres são assim. Somos todos produtos de nossa existência, a soma de nossas escolhas, e se você só faz as escolhas erradas estará flertando com consequências sombrias.

Em termos da vilãs que interpretei no passado, sempre tentei não só fazer a pessoa má, porque é meio sem graça para você e para mim. Espero conseguir dar algum charme para a personagem, e isso significa que ela tem um poder para exercer – o poder da manipulação.

Inicialmente somos apresentados à senhora Wardwell e alguns instantes sangrentos depois somos apresentados à Madame Satã. É a deixa para um momento de transformação exagerada: ela anda pelo corredor da escola com atitude e visual novos. Como foi executar essa mudança?

Uma das coisas que mais me atraíram nessa personagem é que posso fazer dois lados de uma pessoa. Todo mundo pensa coisas que não deveria, mas Madame Satã faz as coisas que a gente nunca faz. Do ponto de vista da senhora Wardwell – essa mulher tranquila, meiga e confiável --, tenho certeza que ela sonhou em arrancar aquela saia xadrez e enfrentar o mundo.

Adorei aquela caminhada longa e demorada pelo corredor. É divertido fazer a malvada porque as regras são diferentes se você está interpretando uma personagem que não seja tão perversa. Acho que está claro que estou me divertindo muito.

OK, precisamos fazer um parênteses rápido para falar do seu cabelo, porque está glorioso e merece uma página própria na Wikipédia.

Com certeza precisamos falar do meu cabelo. Vamos ser sinceras, meu cabelo tem muito talento. Olha, basicamente foi ele que conseguiu o papel. Não tem nada a ver com minhas habilidades como atriz. [risos] Deus foi muito generoso com meu cabelo. Ele não me deu bunda, não me deu lábios, só cabelo. Tipo tem dez pessoas morando na minha cabeça. Precisam fazer uma boneca da Madame Satã.

Vou começar uma petição logo depois dessa entrevista.

A gente tinha essas Barbies que dava para puxar o cabelo para dentro e depois fazia ele "crescer" de novo. A Madame Satã precisa de uma boneca dessa, com um cabelo fabuloso.

Você baseou sua caracterização nos quadrinhos ou se inspirou em outras personagens más da cultura pop? Em certos momentos eu senti uma vibe de Elizabeth Hurley em "Endiabrado".

Não do gênero do horror. Não sei dos outros atores, mas sempre acho que vou engordar depois das leituras preliminares do roteiro, então tenho essa voz na minha cabeça. É Katharine Hepburn com Glenn Close. Para mim, essas duas juntas são Madame Satã.

Nada fez tanto sentido para mim.

Deus me ama, sou uma atriz da classe trabalhadora escocesa e tenho essas ideias malucas de alcançar a magnificência que essas duas mulheres inspiram, mas são duas mulheres que trago comigo para o trabalho todos os dias. Tenho Katharine de um lado e Glenn, do outro, e nós três chegamos no set dizendo: "Tenham um bom dia, meninas! Vamos ver o que a gente consegue fazer hoje."

Você tem esse sotaque escocês forte, mas não ouvimos nada dele na série. Você tem um instrutor fonético? Porque você pronuncia suas falar com tanta variedade, às vezes sussurrando, mas sempre com um toque de maldade.

Eu realmente me enfiei no buraco de Katharine Hepburn. Não fazendo uma imitação, de modo algum, mas queria um certo tom, uma época e um sentimento vocal que traduzisse, de um jeito meu, o que [o criador da série Roberto Aguirre-Sacasa] me deu nas páginas. No sotaque escocês, as vogais podem soar parecidas com o som dos americanos, então queria brincar com isso e ver se dava para parecer também uma voz de outro mundo.

Mas você também comunica muito sem falar nada, simplesmente aparecendo no fundo da cena e sorrindo diabolicamente. Alguém pediu para você se conter, porque poderia ser exagerado.

Com certeza metade das minhas performances estão no chão da sala de edição. Claramente gosto de brincar, e nessa brincadeira a expectativa é que saia algo mágico, mas às vezes não funciona. É uma série nova, com muitos personagens maravilhosos, e todo mundo tem de se encontrar e se encaixar. No começo, o mais importante é encontrar o tom certo, quem ninguém sabia qual era.

É uma tentativa de se equilibrar entre uma performance muito louca e algo mais sutil. Em algum ponto intermediário alguma coisa vai prestar. Tem muita gente na série, e é um elenco lindo e enorme. Tem espaço para todo mundo, literalmente.

No último episódio, você força Sabrina a assinar o Livro das Bestas com um discurso sobre poder e como as mulheres aprender a temê-lo. Ela diz que Sabrina deveria não só aceitar o poder, mas tomá-lo e usá-lo. Você acha que é assim que Madame Satã enxerga sua própria jornada ao longo da série?

Sim, acho que você está tocando em algo importante, mas não posso falar muito mais disso porque isso faz parte da trama da segunda temporada. Como eu digo, sempre existe um motivo que explica nosso comportamento. Ela é má por uma razão, e existe um porquê para ela querer levar Sabrina para o lado sombrio. Pode ser só porque ela está com vontade. O público vai descobrir conforme avançarmos. Mas, sim, a ideia de ser uma mulher poderosa em uma sociedade patriarcal é muito antiquada para ela, e também talvez por outros motivos. Tenho de tomar muito cuidado, porque posso entrar em território de spoilers! O que aconteceu no final da primeira temporada teve impacto profundo para Madame Satã.

Ocultismo está em alta agora, com o reboot de "Sabrina" e a volta de "Charmed" à TV. Por que você acha que bruxaria é uma metáfora tão importante para a maneira que as mulheres navegam o mundo?

É meio que a fantasia de que podemos resolver as coisas com mágica, e nos dá essa ideia deliciosa de que estamos no controle, de que podemos mudar as coisas. O mundo lá foram é muito sombrio, e o universo da bruxaria é empolgante. Não se trata só de transformar desejos em realidade. É mais sombrio e profundo que isso. Nos leva das crenças de quando éramos crianças para uma versão mais adulta de acreditar que existe algo mais poderoso que a gente. Tem fantasia, mas também tem a distração de ser quem você acha que é. É divertido e não é tão sombrio, porque tem um pouco de esperança, também.

Algum conselho para a pessoa que vai fazer o papel do diabo?

Cuidado. Vou atrás de você. Não tem muita coisa que Madame Satã deixa passar. Ela não vai se render sem uma boa briga. E ela nem começou ainda. Ela literalmente só mexeu uma sobrancelha e um dedo.

Entrevista editada e condensada.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.