POLÍTICA
07/11/2018 01:42 -02 | Atualizado 07/11/2018 15:50 -02

Apoio de Bolsonaro a Israel coloca em risco US$ 12,7 bilhões em exportações brasileiras

Decisão de mudar embaixada para Jerusalém desagrada países árabes, que representam 5,9% do total de exportações do País.

Bolsonaro tem prometido mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém.
ASSOCIATED PRESS
Bolsonaro tem prometido mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém.

A decisão do Egito de adiar sem previsão a data da visita que o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, e uma comissão de empresários fariam ao país acendeu um alerta sobre o potencial impacto da promessa de campanha de Jair Bolsonaro (PSL) de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém.

Embora o governo de Bolsonaro só tenha início em janeiro, a confirmação da decisão pelo presidente eleito foi determinante para estremecer as relações do Brasil com o país árabe, que importou US$ 2,4 bilhões de produtos brasileiros em 2017.

Se contados os 17 países árabes para os quais o Brasil exporta, no entanto, a conta chegou a US$ 12,7 bilhões no ano passado -- 5,9% do total vendido pelo País para o mundo --, contra US$ 466 milhões de produtos brasileiros importados por Israel, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Um documento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira redigido antes do segundo turno afirma que a possibilidade de reconhecer Jerusalém como capital "pode gerar retaliações por parte dos países árabes, principais compradores da proteína animal produzida e exportada pelo Brasil".

"Outras retaliações podem surgir no decorrer disso, criando embargos às vendas de outros setores da indústria nacional, a exemplo da aviação militar, dado que os países da região do Golfo Arábico são clientes potenciais para a aquisição desse tipo de equipamento", diz a nota.

O documento diz ainda que, pelo lado dos investimentos, "a imagem do Brasil como um bom ambiente para negócios pode ficar arranhada frente aos países árabes".

Ao HuffPost Brasil, o presidente da entidade Rubens Hannun destacou que o comércio entre os países está em expansão e que a expectativa é positiva. "Único receio é que qualquer atitude política de não manter o equilíbrio possa dar um ruído nessa relação. Talvez não no primeiro momento, mas mais a médio e longo prazo, abrindo as portas para os países concorrentes."

Em relação à proteína animal, os países árabes são o segundo principal destino das exportações brasileiras. O Brasil é o principal exportador do mundo de carne halal, que exige dos frigoríficos um certificado que comprove um método especial de abatimento, seguindo as regras da religião muçulmana. Nesse caso, os animais são abatidos sem sofrimento

Mudar a embaixada de local significa reconhecer Jerusalém como capital de Israel, o que a ONU não só não faz como já pediu aos países que não sediem missões diplomáticas na cidade.

Para os palestinos, Jerusalém deveria ser a capital de seu Estado independente. O Brasil reconheceu o Estado palestino em 2010 e sempre teve boas relações com os países árabes.

Relação de Bolsonaro com Israel

Após eleito, Bolsonaro reafirmou a proposta de mudança em relação a política internacional.

As sinalizações são bem vistas pelo primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. Na segunda-feira (29) seguinte ao segundo turno, Netanyahu parabenizou Bolsonaro pela vitória e prometeu comparecer à posse em janeiro. "Tenho certeza de que sua eleição levará a uma grande amizade entre nossos povos e ao estreitamento dos laços entre o Brasil e Israel. Aguardamos sua visita a Israel", disse o primeiro-ministro a Bolsonaro, segundo comunicado oficial.

O Estado de Israel se consolidou na pauta de Bolsonaro em 2016, quando ele visitou o país e foi batizado no Rio Jordão pelas mãos do Pastor Everaldo, presidente do PSC. Na época, o então deputado havia trocado o PP pelo PSC já com a intenção de concorrer à Presidência da República.

Um dos expoentes da bancada evangélica, o Partido Social Cristão é próximo de políticos e religiosos israelenses que defendem uma agenda mais conservadora alinhada com o movimento evangélico brasileiro.

Desde então ficou firmado o compromisso de que Bolsonaro agiria em prol dos israelenses. O objetivo da visita, segundo o Pastor Everaldo contou em seu blog, "foi conhecer setores em que Israel, a única democracia do Oriente Médio, é líder global, como tecnologia, agricultura e segurança".

"Enquanto Israel é uma liderança mundial importante em tecnologia e inovação, o Brasil, que já é uma potência, ainda tem um imenso espaço de crescimento", afirmou à época.

Bolsonaro viajou à Israel em comitiva do PSC, acompanhado dos três filhos que são políticos, Eduardo, Flávio e Carlos Bolsonaro.

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Ao parabenizar Bolsonaro pela vitória em 29 de outubro, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, prometeu que compareceria a posse em janeiro.

Relações exteriores

A estratégia de mudar o endereço da embaixada aproximaria o Brasil das políticas adotadas pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, a quem Bolsonaro quer se alinhar. Só os EUA e a Guatemala têm embaixadas em Jerusalém. O Paraguai chegou a fazer a troca, mas voltou atrás no início deste ano.

A cidade está em disputa por três religiões. Judeus, cristãos e muçulmanos a consideram sagrada. E desde 1948, quando o Estado de Israel foi criado, há disputa sobre os limites das fronteiras. Desde 1967, os judeus são maioria da população de Jerusalém.