06/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 06/11/2018 11:24 -02

Rafaela e Denise: As donas da 'Casa Vulva', o espaço cultural que celebra o feminino

A dupla Rafaela Piccin e Denise Mamede são as criadoras e moradoras do endereço que buscar ser “um espaço de produção, integração, resistência”.

Rafaela Piccin e Denise Mamede são as entrevistadas de número 244 do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Rafaela Piccin e Denise Mamede são as entrevistadas de número 244 do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Portão cinza de grade, janela a vista e uma placa discreta, mais ao fundo, com o nome do local: Casa Vulva. Passando a garagem e a porta, logo na entrada, a sala. Que não tem sofá, televisão, mesa de centro. Nada disso. Naquela ocasião eram quadros na parede. Mas pode ser que na outra semana já fosse algo totalmente diferente. Talvez receba um show. Talvez uma roda de conversa. Com certeza algo criativo. Algo artístico. Cultural. Ou tudo junto. Melhor assim. Passando pela cozinha, umas frases no azulejo estampado – que revela que foi conectado à parede há anos – e a casa se abre para o quintal. Cadeiras, plantas, mesa de madeira, imagens nas paredes. Um quarto no fundo, lavandeira, um varal de chão ao lado de uma rede. Um lugar habitado, uma casa comum, sem reforma ou adaptação nenhuma. A diferença é que uma vez por semana, em geral, rola algum encontro diferente por ali.

Esse foi o projeto idealizado pelas amigas Rafaela Piccin, 27 anos, e Denise Mamede, 32. As duas queriam criar um espaço cultural que fosse assim. Acolhedor, com um clima de casa mesmo. Nada melhor do que o local onde as duas escolheram morar em São Paulo. Nascidas no interior – a primeira de São Paulo e a segunda de Minas Gerais – as duas sempre gostaram muito de shows e buscaram em suas respectivas cidades e região eventos do tipo. Era difícil. Mas, aos poucos, com mudança para cidades maiores começaram a se deparar com outras cenas culturais que as aproximaram dessa área. Além disso, as duas encaravam excursões de ônibus para ver shows em São Paulo desde cedo, de olho no que tinha de mais interessante por aí.

Criamos por achar que faltava [lugares para isso] e ainda falta. Vemos como os artistas precisam de um lugar para se apresentar e precisam estar circulando.Rafaela Piccin

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
As duas já sabiam que queriam criar um espaço de artes integradas e a proposta nunca foi transformar em uma balada.

Assim, nada mais natural do se encontrarem nesse projeto. "Ano passado me veio essa ideia de um espaço cultural, mas não tinha segurança de tocar sozinha e chamei a Denise que topou de primeira e começamos a procurar casas que desse para morar e fazer isso ao mesmo tempo. Mudamos para cá em janeiro e em março começamos com as atividades", conta Rafaela. Para Denise foi um convite que não tinha como recusar. "Eu também estava em São Paulo com algumas ideias, sempre frequentando lugares independentes, pequenos, ligados a arte independente e quando ela falou dessa ideia para mim, casou. Pensava que seria viável morar em uma casa e transformar em um espaço de produção, integração, resistência".

Logo de início, as duas já sabiam que queriam criar um espaço de artes integradas e a proposta nunca foi transformar em uma balada. "A ideia era ser um lugar para você ver um show tranquilo, reunir os amigos, ver uma exposição, uma performance", explica Denise. "Fazemos cursos e falas para ser um espaço que agrega alguma coisa na vida de quem vem", completa Rafaela.

Casas tem, mas a gente sentia falta de um espaço gerido por mulheres, esse cuidado. Acho que faltava um espaço seguro para a gente estar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para Denise, iniciar a 'Casa Vulva' foi um convite que não tinha como recusar.

As duas tomam conta de tudo. Desde a produção nos dias de evento, arrumação do espaço – "carregamos muito móvel aqui", brincam – a fazer a curadoria e pensar na agenda e nas atividades que irão levar para Casa. Mesmo com menos de um ano de atividade, a dupla diz que o negócio está funcionando de maneira bem orgânica e que há uma procura dos artistas por espaços desse tipo. "Criamos por achar que faltava [lugares para isso] e ainda falta. Vemos como os artistas precisam de um lugar para se apresentar e precisam estar circulando, é sempre bom ter mais opções, tanto para quem tem o espaço quanto para os artistas que podem passar por mais lugares. Tem muita gente que vem aqui e fala que não tem onde fazer show, expor, não tem oportunidade porque às vezes alguns espaços são fechados para artistas específicos e para quem está começando é difícil de entrar", avalia Rafaela.

Denise também destaca o fato de faltar espaços geridos por mulheres nessa área. "Casas têm, mas a gente sentia falta de um espaço gerido por mulheres, esse cuidado. Desde os últimos dois anos tem se formado uma rede forte de mulheres artistas, de várias vertentes e parece que as coisas foram uma confluência e quando pensamos na casa criou-se um círculo de pessoas e mulheres que a gente podia contar, foi oportuno. Acho que faltava um espaço seguro para a gente estar".

Uma coisa que é legal de retorno é que as pessoas se sentem a vontade por ser uma casa, por ter esse espaço físico mesmo e pela energia da gente morar aqui, elas ficarem a vontade, sem aqueles protocolos.Rafaela Piccin

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Recém-inaugurada, a Casa foi palco no Dia da Música ao lado de estabelecimentos já conhecidos e com mais tempo de estrada.

Por isso resolveram abrir as portas de casa e querem dar espaço para artistas independentes, gente em começo de carreira, trabalhos de mulheres, criações inovadoras, o que for. Mas sempre criando uma rede mesmo e uma relação de troca ali. Tem dado certo. "Uma coisa que é legal de retorno é que as pessoas se sentem a vontade por ser uma casa, por ter esse espaço físico mesmo e pela energia da gente morar aqui. É um feedback que eu gosto de receber, elas ficarem a vontade, sem aqueles protocolos", explica Rafaela. Denise concorda e enfatiza que o clima que o espaço tem é um diferencial. "Acho que é importante a pessoa entender que é nossa casa, que moramos aqui e vem e lava uma louça [risos]. É curioso, mas a pessoa se sente a vontade e se ela se sente pertencente ao espaço ela cuida melhor. Não tem zueira, é muito raro. As pessoas respeitam, não sobem sem ser convidadas, conseguiram entender e isso ajuda a ter o cuidado com os vizinhos, as pessoas do bairro".

Junto com a gestão da Casa, as duas tocam ainda suas carreiras individuais. Rafaela é jornalista e também estudou design – e gosta muito das áreas – mas não esconde que seu foco hoje está nas produções culturais. "Por enquanto quero trabalhar mais com isso, um dia quero ter um festival, bem pretensiosa [risos]. Mas a gente tem que sonhar!" Denise é psicóloga e psicanalista: "Hoje em dia produzo aqui na Vulva, mas também atendo aqui, meu consultório é em casa e estou em um coletivo que chama Psicanálise na Praça Roosevelt que atende todos os sábados gratuitamente lá na praça mesmo".

Acho que é importante a pessoa entender que é nossa casa, que moramos aqui e se ela se sente pertencente ao espaço ela cuida melhor. Não tem zueira, as pessoas respeitam.Denise Mamede

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Elas queriam algo que remetesse ao universo feminino e assim veio o Casa Vulva.

Para o futuro, querem investir em estrutura e equipamentos para Casa e pretendem lançar um financiamento coletivo para isso. "Muitas das coisas que a gente tem aqui são emprestados, inclusive queria agradecer nossos parceiros [risos]", diz Rafaela que apesar de acreditar que há bastante trabalho e melhorias a serem feitas, comemora o reconhecimento que já tiveram. Neste ano, recém-inaugurada, a Casa foi palco no Dia da Música ao lado de estabelecimentos já conhecidos e com mais tempo de estrada. Um bom sinal. Um grande incentivo para seguirem firmes com esse projeto.

Pega uma cerveja e vai conversar, ninguém está com pressa e a gente procura não ter correria, queremos criar um outro tempo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para o futuro, querem investir em estrutura e equipamentos para Casa e pretendem lançar um financiamento coletivo para isso

Mas sempre mantendo esse clima leve. Porque desde o início foi assim. Tanto que o nome da Casa surgiu de uma conversa de boteco. Elas queriam algo que remetesse ao universo feminino e assim veio o Casa Vulva. "E tem muitos trocadilhos. 'Vai entrando que é lá no fundo', 'A vulva é mais gostosa lá no fundo'", brincam. E enfatizam a proposta. "Nossa ideia é essa. Pega uma cerveja e vai conversar, ninguém está com pressa e a gente procura não ter correria, queremos criar um outro tempo aqui na Casa".

Pode entrar. E fique à vontade.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.