POLÍTICA
05/11/2018 07:00 -02

Os 3 governadores novatos na política que o partido de Bolsonaro elegeu

Aliado do presidente eleito, pastor Silas Malafaia gravou vídeo para campanha de Coronel Marcos Rocha, em Rondônia.

Dos governadores do partido de Jair Bolsonaro, um é representante do agronegócio e os outros dois de forças de segurança.
Montagem/Reprodução Facebook
Dos governadores do partido de Jair Bolsonaro, um é representante do agronegócio e os outros dois de forças de segurança.

A estreia em cargos eletivos é o ponto em comum entre os 3 governadores eleitos pelo PSL, partido do novo presidente, Jair Bolsonaro. Um deles é representante do agronegócio e os outros 2 de forças de segurança.

Bombeiro militar na reserva, Comandante Moisés, foi eleito em Santa Catarina. O policial militar reformado Coronel Marcos Rocha irá comandar Rondônia. Roraima, por sua vez, terá como governador Antonio Denarium, empresário e produtor rural.

Com campanhas modestas devido aos poucos recursos da legenda no Fundo Eleitoral, os candidatos apostaram nas redes sociais e contaram com o apoio de Bolsonaro para alavancar votos.

Aliados do presidente eleito também estiveram ao lado na corrida eleitoral nos estados. Em Rondônia, Coronel Marcos Rocha contou com a influência do pastor Silas Malafaia. "Tenho certeza que com Bolsonaro vamos viver um tempo de integridade, honestidade, amor à pátria e valores morais", disse o pastor que celebrou o casamento de Bolsonaro em 2013.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, Rocha entrou na carreira militar em 1989, aprovado em concurso para a PM de Rondônia. Apesar de não ter ocupado cargo eletivo, foi secretário municipal de Educação em Porto Velho, capital do estado, e titular na Secretaria de Estado de Justiça em 2014.

Antes filiado ao PSC, partido ao qual Bolsonaro pertenceu até março de 2018, Rocha se filiou ao PSL em abril. Seu vice, Jose Atilio Salazar Martins, conhecido como Zé Jodan, é empresário e pertence à mesma legenda.

Entre as propostas de campanha, o governador eleito de Rondônia defendeu o "restabelecimento da autoridade do professor em sala de aula e garantia de sua segurança" e implantação de escolas militares nos 52 municípios do estado — ideias alinhadas ao capitão da reserva.

Na área de segurança, o PM reformado prometeu a valorização de policiais e criação de novo modelo de gestão prisional, de forma a separar especialmente as lideranças do crime organizado, entre outras medidas.

A associação de Rocha a Bolsonaro foi crucial para a vitória nas urnas. Ele aparecia em 4º lugar, com 8% das intenções de voto, na pesquisa Ibope divulgada 5 de outubro, dois dias antes do 1º turno. Em 7 de outubro, conquistou 23,99% dos votos válidos, ficando atrás de Expedito Júnior (PSDB), que teve 31,59%. No segundo turno, ganhou com 66,34% dos votos válidos, diante de 33,66% do tucano.

Bombeiro reformado é eleito governador de Santa Catarina

Eleito com 71% dos votos no segundo turno, Comandante Moisés se intitulou "governador de Bolsonaro" durante a campanha no estado em que o capitão da reserva foi recorde de popularidade no primeiro turno, com 65% dos votos válidos.

É o primeiro cargo eletivo do novo governador de Santa Catarina, mas ele já comandou o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil do estado e também trabalhou na Secretaria de Justiça e Cidadania, na prevenção a incêndios em prisões estaduais.

Apesar de adotar como estratégia o uso intenso das redes sociais, Moisés tem um tom mais tranquilo do que o do presidente eleito e aparenta ser mais tímido e sereno nas transmissões ao vivo.

Após o resultado do primeiro turno, quando obteve 29,72% dos votos válidos, atrás de Gelson Merísio (PSD), que conquistou 31,12%, Moisés atribuiu o resultado "ao sobrenatural". "O sentimento da rua era esse, de mudança, renovação", disse em entrevista ao portal NSC Total em 8 de outubro. Pesquisas na reta final indicavam que ele faria apenas 9% dos votos em 7 de outubro.

A semelhança com o presidente eleito não acaba no discurso. No segundo turno, Moisés faltou ao debate da NSC TV, com atestado médico de infecção nas vias aéreas superiores.

Ao longo da campanha, chamou seu adversário de "representante da velha política". Merísio foi 3 vezes presidente da Assembleia Legislativa. O novo governador de Santa Catarina filiado ao PSL há 7 meses também prometeu "despolitizar o Estado".

Após eleito, Moisés desconversou ao ser questionado sobre a presença de militares em secretarias ligadas à segurança. "Não nos ocorreu essa hipótese de ter que ser um militar, um colega de farda (...) Tem que ser pessoas honestas, justas, que tenham interesse republicano e não pessoal em estar trabalhando conosco na administração", afirmou em entrevista à NSC Comunicação, conglomerado que inclui veículos como o Diário Catarinense e a rede de televisão afiliada à Rede Globo.

Sobre a conduta de sua correligionária, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo, que orientou os alunos a filmar em sala de aula os professores que criticassem a vitória de Bolsonaro, Moisés buscou um tom conciliatório. "Acredito em colocar, mesmo na autonomia e autoridade do professor, os devidos freios éticos que permeiam e vão estar em toda atividade profissional", afirmou.

A Justiça de Santa Catarina determinou que a deputada retire das redes sociais as manifestações para que alunos denunciem o comportamento dos docentes. Para o Ministério Público, a parlamentar violou princípios constitucionais como o da liberdade de expressão da atividade intelectual, científica e de comunicação.

Agronegócio e imigrantes em Roraima

Se em Santa Catarina e Rondônia os governadores do PSL vêm da trajetória militar, em Roraima o novo chefe do Executivo vem do ramo do agronegócio.

Segundo sua assessoria, Antonio Denarium não possui ensino superior, mas é especialista na área financeira pelos anos de atuação no segmento. Nascido em Goiânia (GO), chegou a Roraima em 1991 para ser gerente titular de uma agência bancária e passou a empreender nos setores financeiro e agropecuário.

Atualmente, suas atividades envolvem plantio de soja, milho e na criação de bovinos, além do setor imobiliário. Denarium é diretor-presidente do Frigo 10 e diretor da Cooperativa dos Produtores de Carne de Roraima (Coopercarne). Na campanha, prometeu abrir mão do salário de governador, se eleito, além da proibição do uso de carros oficiais fora do expediente.

Em um aceno aos ruralistas, o então candidato disse que iria recuperar as estradas e vicinais para facilitar o escoamento da produção, além de prometer incentivar a agricultura familiar, indígena e empresarial.

Aos 53 anos, o empresário venceu com 53,34% dos votos válidos ante os 46,66% de seu oponente, o ex-governador José de Anchieta (PSDB), no segundo turno. No primeiro turno, conquistou 42% dos votos válidos, à frente dos 39% do tucano. Nas pesquisas do turno inicial, ele aparecia atrás do adversário. Dessa vez, o apoio de Bolsonaro foi fundamental.

Denarium nunca ocupou cargos públicos, mas já participou de eleições. Em 2010, filiado ao PPS, foi primeiro suplente da candidata ao senado Marluce Pinto, do PSDB. Perdeu a disputa para Romero Jucá (então PMDB) e Ângela Portela (PT).

No estado que vive uma crise devido à migração de venezuelanos — o governo atual estima 40 mil imigrantes —, o candidato do PSL chegou a defender o fechamento das fronteiras. As propostas também incluem impedir a entrada de pessoas sem atestado de antecedentes criminais e ampliar o processo de interiorização.

As medidas contrastam com a abordagem do adversário. Apesar de defender uma cota para regular a entrada de venezuelanos, Anchieta destacou na parte de direitos humanos de seu plano de governo que promoveria diálogo com o governo federal para adotar medidas humanitárias para restringir o fluxo migratório e garantir acesso às políticas públicas.

O HuffPost Brasil não conseguiu entrar falar com a assessoria de Antonio Denarium e do Coronel Marcos Rocha. A assessoria do governador Comandante Moisés não respondeu às perguntas enviadas em 30 de outubro antes da publicação desta reportagem.