05/11/2018 02:00 -02 | Atualizado 05/11/2018 16:27 -02

Jaciana Melquiades: O sonho de ter bonecas negras em todo o Brasil

Sócia-fundadora da "Era Uma Vez o Mundo", marca de brinquedos educativos, Jaciana acredita que quando uma criança negra brinca com um personagem igual ela, ela descobre que existe.

Jaciana Melquiades é a 243ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto especial do HuffPost Brasil.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Jaciana Melquiades é a 243ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto especial do HuffPost Brasil.

No momento em que a mãe de Jaciana Melquiades, de 35 anos, deu para ela uma máquina de costura como presente de aniversário, sete anos atrás, a historiadora não pensava que tanta coisa iria deslanchar a partir daquele momento. Dois meses após o parto, de licença-maternidade em uma empresa que não tinha nada a ver com seus objetivos, ela pediu a ferramenta de presente para começar a "fazer alguma coisa" além de cuidar do pequeno Matias. Antes já costurava esporadicamente, mas a partir dali ela começou a fazer bonecos, desenhar moldes e, timidamente, perseguir o caminho de um mundo mais igualitário para as crianças do país inteiro.

Na época em que engravidou, Jaciana estava também passando pela sua transição capilar, processo de deixar os cabelos naturais crescerem em detrimento dos cabelos antes alisados. Muitas mudanças ao mesmo tempo, e sempre para melhor. Nesse processo, passou a integrar o coletivo Meninas Black Power, que desde 2012 tem atuação forte na discussão de questões raciais com foco em meninas. Antes exclusivamente virtual, o coletivo passou a pensar em atividades presenciais. Historiadora de formação, coube a Jaciana fazer a ponte entre o coletivo e as escolas para que atividades com as meninas fossem feitas.

Tudo que eu faço é porque acredito na potência daquela criança.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Jaciana é sócia-fundadora da "Era Uma Vez o Mundo", marca de brinquedos educativos focada em questões raciais e de gênero.

"Nessa história, eu percebi uma falta de recursos para trabalhar: falta de materiais didáticos, materiais lúdicos, falta de brinquedos educativos. Na época eu já fazia algumas coisas para o Matias, como decoração de quarto, boneco e tudo que a gente não conseguia comprar pra ele nas lojas", relembra.

Com a visibilidade e o alcance dos materiais que ela produzia para as atividades nas escolas, começou a pensar que dali poderia surgir uma oportunidade de negócio. "Comecei a fazer não só para mim ou para trabalhar em sala de aula, comecei a fazer para vender. De uma maneira informal, mas sempre insistindo na criação de novos material", explica a empreendedora, que a partir daí criou a Era Uma Vez o Mundo.

Ao verem uma criança negra na capa, a vontade que a gente tem é que surja o desejo de abrir o livro e ver o que está sendo apresentado, mas não é o que acontece.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Comecei a fazer não só para mim ou para trabalhar em sala de aula, comecei a fazer para vender."

Hoje, qualquer professor, de qualquer lugar do Brasil, consegue entrar em contato com a empresa e solicitar os materiais, que vão desde bonecos até livros educativos, além das atividades. A empresa também conseguiu vender o material para a prefeitura do Rio de Janeiro, então as 1.600 escolas de educação infantil da capital fluminense contam com livros e atividades que a Era Uma Vez propõe para discutir gênero e raça na sala de aula e também em outros espaços de educação.

Em uma época que discutir preconceitos virou quase um palavrão, Jaciana conta que a empresa enfrenta, sim, resistência. Os principais agentes que evitam usar o material entregue são diretores de escola, que muitas vezes escondem o material por acharem que ele tem um objetivo que passa longe.

"Existe a lei de ensino 10.639, que obriga o ensino de História da África e afro-brasileira, então nossos materiais são desenvolvidos pra gente conseguir discutir a história da África e a história do Brasil com as crianças", explica. E destaca um dos pontos de maiores resistências por parte de alguns profissionais: "Um dos nossos livros se chama Erê, e o personagem é um menino que ensina a fazer três tipos de pinturas faciais diferentes, então ele explica quais são as etnias, etc. Mas como o nome do livro é Erê e grande parte dos profissionais é evangélica, a gente recebeu reclamações de professores que trabalham em escolas de que os livros chegaram e foram escondidos", afirma.

O impacto na criança negra é de ela saber que existe, porque está ali um espelho que reflete a existência dela.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, qualquer professor, de qualquer lugar do Brasil, consegue entrar em contato com a empresa e solicitar os materiais.

Jaciana lamenta o fato de, em pleno 2018, um livro ainda ser julgado pela capa. O desejo a partir das obras, escritas por ela e ilustradas pelo marido Leandro Melquiades, é bem diferente deste: "Ao verem uma criança negra na capa, a vontade que a gente tem é de que surja o desejo de abrir o livro e ver o que está sendo apresentado, mas não é o que acontece". Com isso, ela conta que é um "trabalho quase de formiguinha, acessar os professores indiretamente para eles poderem encontrar os livros".

O trabalho com os professores, aliás, é fundamental para replicar as atividades propostas pela Era Uma Vez o Mundo. Na última atividade, a empresa fez uma formação com 600 profissionais de escolas diferentes. Após uma oficina e receberem o material, os professores tinham, como contrapartida, de replicar o conteúdo com outros profissionais. Assim, explica Jaciana, foi possível criar uma rede e acompanhar como o material estava sendo utilizado. Pelas próprias contas, mais de 60 mil crianças foram atingidas com essa formação em escala.

Meu sonho era ganhar uma rinoplastia, desde a infância.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O processo de parar de odiar a si mesma foi doloroso e Jaciana decidiu que não queria o mesmo caminho para o filho.

Se a "Era Uma Vez o Mundo"existisse quando Jaciana era uma dessas crianças, talvez a sua autoestima teria sido fortalecida bem mais cedo. Ela conta que, aos seis anos de idade, ganhou uma boneca Barbie. Brincando o dia inteiro com a boneca, ela colocava uma toalha na cabeça para fingir que tinha os cabelos lisos como os da amiga de plástico. O impacto de ter uma boneca tão diferente de si durou muito tempo: "meu sonho era ganhar uma rinoplastia, desde a infância".

Mas a chegada de Matias mudou muitas coisas, e ser impedida de alterar quimicamente o cabelo, fez com que ela refletisse sobre porque aquele processo de alterar a si mesma era tão importante. "É muito doloroso descobrir nosso cabelo e quem a gente é, mas a pior parte é descobrir porque a gente se odeia tanto. Antes, você não tem noção de que é auto-ódio, mas quando começa a pensar sabe dizer que é, sim, ódio", analisa.

Ciente de como o processo de parar de odiar a si mesma foi doloroso, Jaciana decidiu que não queria o mesmo caminho para o filho. "quando eu percebi que tudo à minha volta estava equivocado, eu pensei: ferrou, como vou fazer para criar um menino que não tenha ódio de si como eu tive?", relembra.

Antes, você não tem noção de que é auto-ódio, mas quando começa a pensar sabe dizer que é, sim, ódio.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ciente de como o processo de parar de odiar a si mesma foi doloroso, Jaciana decidiu que não queria o mesmo caminho para o filho.

Foi a partir daí que começou a busca por referências negras para o pequeno Matias, mas em vão, para a tristeza da recém-mãe Jaciana, porque "a gente sabe que esse tipo de referência forma a subjetividade da criança". Jaciana e Leandro passaram a ignorar as lojas convencionais e confeccionar todos os brinquedos do filho, e também conforme ele foi crescendo, construir nele uma forte identidade racial. "Até hoje ele não tem muita referência de marcas, mas ele tem senso crítico muito forte em relação às questões raciais", conta a mãe de Matias, a inspiração da "Era Uma Vez o Mundo".

Apesar da apreensão comum a mães negras que criam filhos tão autônomos, Jaciana vê como extremamente positiva a forma como ela e o marido criam o filho: "Eu consegui repensar minha vida e passar para ele algumas coisas que eu não tive. De vez em quando me pego escorregando, falando besteira, e ele me repreende", confessa.

Meu filho não tem muita referência de marcas, mas ele tem senso crítico muito forte em relação às questões raciais.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Jaciana acredita que quando realizar seu sonho, o impacto na vida de milhares de crianças negras será irreversível.

Desenvolver uma relação tão honesta com Matias, hoje com sete anos, claro, interfere diariamente em seu trabalho. Jaciana conta que a maternidade mudou sua percepção em relação à forma de enxergar as crianças, seu verdadeiro público-alvo.

"Quando a gente estuda marketing, falam que quem trabalha com brinquedo tem como público-alvo os pais, porque são eles quem pagam. Mas eu não faço brinquedo para o pai, para a mãe. Eu escrevo para a criança, eu falo para a criança. E tudo que eu faço é porque acredito na potência daquela criança. A maternidade me ensinou que criança é gente, por mais bebê que ela seja, e ela precisa ter a subjetividade dela respeitada", explica.

Com essa trajetória, o sonho dela não poderia ser outro: "Estar em todas as prateleiras de todas as lojas do Brasil, para que ninguém diga mais que não encontra uma boneca negra". Perseguindo esse objetivo, o ateliê da Era Uma Vez tem a capacidade de produzir 400 bonecos por mês, com três outros funcionários além de Jaciana e Leandro. A família também participa de iniciativas de incubadoras de negócios, para cada vez mais se profissionalizar. Matias, além de inspiração, também conta para quem quiser ouvir que é dono da empresa, como não poderia deixar de ser.

Depois de todo o trabalho e desafios, Jaciana acredita que quando realizar seu sonho, o impacto na vida de milhares de crianças negras será irreversível. "O impacto na criança negra é de ela saber que existe, porque está ali um espelho que reflete a existência dela. E o impacto na criança branca é ver que os negros não existem para servi-la", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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