POLÍTICA
04/11/2018 06:00 -02 | Atualizado 06/11/2018 09:42 -02

Bolsonaro, o fenômeno de WhatsApp que desbancou 3 décadas de campanha de TV

Especialistas são unânimes ao avaliar que 2018 é um marco com eleição dominada pelo zap.

Eleitor de Jair Bolsonaro simula arma ao festejar eleição do peselista.
Stringer . / Reuters
Eleitor de Jair Bolsonaro simula arma ao festejar eleição do peselista.

As convicções sobre como melhor atingir o eleitor no Brasil foram atualizadas em 2018. A televisão, que na últimas 3 décadas foi motor imprescindível para o crescimento de qualquer candidatura no País, foi substituída por um aplicativo de mensagens instantâneas presente nos celulares de dois terços dos brasileiros.

Não é exagero dizer que Jair Bolsonaro foi eleito há uma semana, em grande parte, por causa do peso do WhatsApp no País. Nenhum outro candidato surfou tão bem nessa onda, com produção de vídeos caseiros que já viralizavam sua opinião no aplicativo há cerca de 2 anos.

Com apenas 9 segundos no horário eleitoral gratuito de TV e rádio, o deputado federal contou com uma rede de distribuição orgânica muito fiel no WhatsApp. No entanto, a Polícia Federal investiga se agências distribuíram "de forma estruturada" mensagens pró-Bolsonaro, com forte influência das fake news. Mensagens no aplicativo a favor de seu opositor, Fernando Haddad (PT), também estão sob investigação.

A seguir, o HuffPost Brasil fez um mapeamento de como as redes sociais, sobretudo o WhatsApp, tiveram um papel decisivo nas eleições de 2018 — e o que podemos aprender a partir dessa experiência.

1. O Brasil tem mais celulares que pessoas

O Brasil é o 4º país mais conectado do mundo. Com 120 milhões de pessoas com acesso à internet, fica atrás apenas de Estados Unidos, Índia e China. No entanto, considerado o total de usuários em relação a população, apenas 59% dos brasileiros têm acesso à rede.

Apesar da assimetria — a internet está em 29% das casas com famílias com renda de até um salário mínimo, contra uma taxa de 97% entre aquelas que ganham até 10 salários mínimos —, o uso de smartphones é enorme: são 220 milhões de aparelhos ativos. Há mais celular que pessoas: hoje, são 210 milhões de brasileiros.

O celular, então, passou a ser a principal tela de navegação do brasileiro e a principal fonte de informação. Por meio das redes sociais, foi construída uma nova esfera pública digital e não é de se surpreender que o uso dos app, principalmente do WhatsApp, tenha se espalhado durante as eleições no País.

"O WhatsApp não é uma rede social, mas tem características de rede social na medida em que as pessoas se engajam em temas, debatem e promovem tópicos", explica Sérgio Spagnuolo, diretor do Volt Data Lab, agência independente de tecnologia e jornalismo.

"É a plataforma em que muitas conversas estão acontecendo. Os sites de notícia ainda são acessados pelas pessoas que buscam informações. Mas existem aquelas pessoas que não buscam, mas recebem passivamente um turbilhão de informação todos os dias no celular."

Pesquisa Datafolha mostrou que os eleitores de Bolsonaro são os mais conectados: 81% são usuários de alguma rede social contra 59% dos eleitores de Fernando Haddad (PT). Ainda, a taxa de leitura de conteúdos sobre política e eleições também é mais alta entre os bolsonaristas: 61% usam o WhatsApp e 57% usam o Facebook para se informar.

Dado Ruvic / Reuters
O WhatsApp está instalado em 97% dos smartphones brasileiros.

2. A propaganda na TV e no rádio deixou de ser o único caminho até o eleitor

Tanto na política quanto na economia, algo que parece simples está sempre em disputa: a capacidade que A tem de dominar a atenção de B. E quanto mais os brasileiros dedicam sua atenção (e tempo) às redes sociais, mais relevantes elas se tornam.

No caso das eleições, isso foi particularmente exposto na disputa de 2018. A decadência do tempo de TV e rádio em campanhas eleitorais representou uma mudança na dieta do consumo de informação por parte dos eleitores.

A impressão que o brasileiro tem ao final do pleito é que tanto os partidos tradicionais quanto as mídias tradicionais não estavam devidamente preparados para lidar com o potencial das plataformas digitais.

"Muitos cientistas políticos apostaram que a formação de um grande tempo de TV e o arco de alianças iriam ajudar o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) na disputa, mas não foi o suficiente", explica Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, ao HuffPost Brasil. O candidato do PSDB terminou o 1º turno em 4º lugar, com 4,76% dos votos.

Para o especialista em direito e internet, o ambiente em que o eleitorado brasileiro se encontra hoje é híbrido e a TV perdeu o seu protagonismo. Isso é comprovado quando o candidato que venceu as eleições no Brasil contou apenas com 9 segundos de propaganda eleitoral na TV.

"Em outros momentos, a gente vê que a TV foi muito importante. Os picos de interesse nas redes sociais, nas ferramentas de busca, ocorreram também por conta de eventos que ocorreram na TV, como os debates e as entrevistas no Jornal Nacional. Por causa disso, não dá para dizer que a TV não teve importância", pondera Brito Cruz.

3. O uso do WhatsApp se tornou mais forte em mobilizações políticas

Desde as eleições de 2014 perfis automatizados em redes sociais como Twitter e Facebook interferem em mobilizações políticas. Em 4 anos, contudo, essas interferências ganharam nova escala e outro nível de sofisticação, segundo estudos da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP-FGV).

"Convivemos com uma integração mais eficiente entre as plataformas, e isso coloca as estratégias de uso em outro patamar. O WhatsApp, por exemplo, foi utilizado de forma bastante eficaz para organizar a militância que era dispersa desde os eventos de 2013, mas que tinha um viés muito forte por um candidato devido ao antipetismo", explica Marco Aurelio Ruediger, diretor do DAPP-FGV, em entrevista ao HuffPost Brasil.

A legislação eleitoral regulou o uso de internet nas campanhas deste ano. A propaganda paga em sites e revistas online foi proibida. Porém, o impulsionamento dos conteúdos estava permitido. De acordo com declaração feita ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Bolsonaro disse que não gastou verba de campanha com impulsionamento digital. Já as demais campanhas presidenciais de primeiro turno, somadas, investiram mais de R$ 2,6 milhões com a estratégia.

Nacho Doce / Reuters
Protestos marcados via Facebook ou divulgados por WhatsApp se materializam com facilidade hoje em dia.

4. WhatsApp encontrou terreno fértil no Brasil

O app de mensagens é o mais popular no País. Está instalado em 97% dos smartphones nacionais e é usado todo dia ou quase todo dia por 98% dos seus usuários. Isso se deve, sobretudo, à prática de zero rating (tarifa zero) das operadoras de telefonia.

"A plataforma passou a fazer parte desse sistema, integrado por planos de celulares que não cobram pelo uso de dados utilizados por determinados apps. Foi uma parceria que existiu entre o WhatsApp e as operadoras, e isso ajudou a promovê-lo. Além disso, as próprias pessoas escolheram o WhatsApp como ferramenta. Existem outras, como o Telegram e o Viber, mas o brasileiro preferiu o WhatsApp", explica Sérgio Spagnuolo, diretor do Volt Data Lab.

Além do WhatsApp, Facebook e Messenger fizeram parte da estratégia comercial com as operadoras. De acordo com a Anatel, em dezembro de 2017, havia 58 ofertas de zero rating sendo comercializadas no Brasil.

5. A prática de zero rating traz consequências

Não é difícil imaginar a cena: um link é encaminhado em um grupo do WhatsApp, mas, sem dados para acessar a internet, o usuário não consegue abrir a notícia e contenta-se com a informação adquirida por meio da chamada e da imagem.

Essa é uma situação comum para boa parte dos usuários de smartphones no Brasil. Terminado o pacote de dados, o usuário não consegue fazer buscas no navegador de internet. Para Yasodara Córdova, pesquisadora da Digital Kennedy School, em Harvard, a prática de zero rating potencializa a disseminação da desinformação no WhatsApp.

"O zero rating limita os usuários dentro desse ecossistema quebrado Facebook + Whatsapp e não oferece uma biblioteca virtual, uma enciclopédia, ou um site onde as notícias estejam integrais e contextualizadas. Isso é ruim porque as pessoas recebem só uma parte da informação e não o todo", explicou a especialista em entrevista ao HuffPost Brasil.

Adriano Machado / Reuters

6. A campanha de Bolsonaro se tornou bem eficiente no WhatsApp

"A campanha de Jair Bolsonaro é sem precedentes", afirma Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutora em Antropologia pela Universidade da Califórnia. Para a pesquisadora, Bolsonaro inaugurou no Brasil o que ela chama de um discurso do populismo digital.

"Os eleitores tomaram o lugar do candidato na campanha digital, principalmente depois do atentado que o candidato sofreu. A digitalização do populismo aumenta muito sua eficácia em comparação com exemplos históricos anteriores, que eram muito dependentes do carisma pessoal do líder, como no caso do Perón, do Getúlio Vargas, até mesmo do Lula", diz em entrevista ao HuffPost.

Cesarino acompanhou por quase 2 meses grupos de WhatsApp em apoio a Bolsonaro e, como resultado, desenhou um mapa de como a rede a favor do presidente eleito se estruturou no app.

Primeiro, existe uma camada oficial que substitui o tempo reduzido do PSL no horário eleitoral e tem uma mobilização digital muito anterior ao período oficial da campanha. São grupos públicos, com mais de um administrador, em que os usuários interagem entre si.

Depois vem a camada "oficiosa", que são redes de apoio no WhatsApp com disparos maciços de conteúdos feitos unicamente pelos administradores, sem que os usuários possam interagir entre si. Neles um administrador alimenta diariamente o grupo com novos conteúdos e orientam os participantes a responderem imediatamente aos acontecimentos do mundo online e offline.

Em terceiro lugar está a camada de grandes grupos no WhatsApp, compostos por até 256 membros desconhecidos entre si e divididos por região do País. Neles, existe o compartilhamento significativo de conteúdo fake ou distorcido e ocorre também a coordenação de ações digitais ou de rua.

A última camada é composta por grupos pessoais, em que predomina a comunicação interpessoal. São considerados os "espaços seguros" em que há a mobilização de afetos, como o medo e a paixão, relacionados à campanha.

Além disso, existe o ecossistema de mídias em que prevalece o papel diferencial e complementar de cada uma das plataformas: o que você vê no Twitter e no Facebook aparece primeiro no WhatsApp.

7. Engajamento orgânico ou dirigido de redes pró-Bolsonaro

Em 18 de outubro, a 10 dias da decisão da eleição, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma denúncia de que empresas estariam financiando campanha contra o PT no WhatsApp.

De acordo com a reportagem, empresários pagaram até R$ 12 milhões em contratos de compra de disparos em massa de conteúdo antipetista.

As empresas apoiadoras de Bolsonaro usariam a base de dados do próprio candidato ou bases vendidas por agências de marketing digital para fazer os milhares de disparos.

Porém, a legislação eleitoral brasileira proíbe a doação de campanha por empresas e também não permite a compra de base de dados de terceiros. A ofensiva contra a candidatura do PT seria, portanto, ilegal.

Um dos empresários que teriam pago pelos disparos em massa, segundo a Folha, seria Luciano Hang, dono da Havan. Em seu perfil no Facebook, Hang classificou a reportagem como "fake news". "O conteúdo é feito com um celularzinho e repassado aos meus contatos. É um conteúdo lúdico, é um conteúdo que apresenta a verdade", disse o empresário.

Em entrevista ao site O Antagonista, Bolsonaro afirmou que não tem controle se empresários simpáticos à sua candidatura estão desrespeitando a legislação eleitoral.

"Eu não tenho controle, não tenho como saber e tomar providência. Pode ser gente até ligada à esquerda que diz que está comigo para tentar complicar a minha vida me denunciando por abuso de poder econômico", explicou o candidato.

De acordo com a Folha, o que estaria acontecendo em redes pró-Bolsonaro no WhatsApp é uma prática de spam. Para Francisco Brito Cruz, como não se trata de uma propaganda paga que usa a internet nem de impulsionamento de conteúdo, os disparos em massa são vedados pelas regras da eleição. Contudo, o diretor do InternetLab argumenta que nem todo spam é ilegal.

"Isso foi testado nas manifestações do 'Fora Dilma' e na greve dos caminhoneiros. Ninguém haveria de supor que essas redes fossem desfeitas para a eleição. E elas têm esse componente dúbio: são parte militância e parte profissionalização. Quando administrar um grupo de WhatsApp vira atividade profissional, trata-se de um trabalho que está sendo doado à campanha."

Para o pesquisador Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas da USP (Universidade de São Paulo), o apoio orgânico que Bolsonaro recebe nas redes não impede que a candidatura esteja envolvida em práticas ilegais.

"Eu não tenho a menor dúvida de que o Bolsonaro tem um apoio enorme orgânico nas redes e aplicativos. Ele não é uma construção de marketing, ele é um fenômeno da sociedade brasileira atual. Mas isso não quer dizer que não tenha havido práticas ilegais em paralelo na campanha. É preciso investigar as provas", afirmou.

8. O problema das fake news

Na definição de Francisco Cruz, fake news é um conteúdo que parece ter sido produzido por um jornalista profissional, mas não foi.

"É diferente do boato. O boato não tem um formato de notícia. A notícia falsa é um conteúdo em geral disseminado na web, que emula uma página de jornal. Tem uma manchete, tem jeitão de notícia, mas não foi produzida conforme os protocolos do jornalismo", explica o pesquisador.

Quando o Facebook é usado para difundir mentiras, é possível rastrear e determinar quem emitiu o discurso e o que está sendo dito. Assim, abre-se espaço para o contraditório e a checagem da informação.

Se o conteúdo infringir uma lei, você pode responsabilizar quem está emitindo as mensagens. Aconteceu no Brasil ainda em junho deste ano, quando o TSE ordenou que notícias falsas sobre a então candidata Marina Silva (Rede) fossem retiradas da rede social.

No WhatsApp nada disso é possível, porque é uma rede privada protegida pela criptografia de ponta a ponta.

"Isso é uma virtude da ferramenta, que tem um ótimo design para a comunicação interpessoal. Mas no caso da comunicação de massa, principalmente quando é usada de maneira maliciosa, ela é muito deletéria", explica o pesquisador Pablo Ortellado.

De acordo com o advogado Leandro Bissoli, especialista em direito digital, o processo de investigação de notícias falsas no app de mensagens é muito lento, o que o torna ineficiente.

"É possível 'trackear' a fake news do WhatsApp, mas existe um grande trabalho de investigação por trás, em cima de dados de conexão, ordens judiciais para que provedores apresentem essas informações. A celeridade não está do nosso lado. Se tem notícia falsa, você pode demorar mais de um mês pra chegar na origem. E aí, o pleito já acabou, a eleição já foi. Então, é muito mais relevante trabalhar rápido para repudiar notícia falsa do que esperar removê-la", explicou o advogado em entrevista ao HuffPost Brasil.

Quem divulga informações falsas na rede pode responder por crime contra a honra, além de ter que pagar uma multa de R$ 5 a R$ 30 mil por fake news publicada.

"O candidato, se identificado como beneficiário daquele fake, também paga a mesma multa. Aí se abre procedimento administrativo no TSE para ver se isso prejudicaria ou não o mandato dele", explica Bissoli.

9. O WhatsApp deve tomar atitudes locais? E qual o papel das instituições brasileiras?

Diante do protagonismo do WhatsApp na vida do brasileiro, que passa a construir uma "nova" esfera pública digital, Pablo Ortellado sugeriu 3 modificações que o aplicativo poderia adotar imediatamente para equilibrar o ecossistema da discussão política online: restrição de encaminhamentos, restrição de transmissões e limitação do tamanho de novos grupos na plataforma.

Para Marco Aurelio Ruediger, o papel central do WhatsApp nas eleições do Brasil será o novo "normal da política". "A gente vai ter uma espécie de lobby digital para discutir pautas que será articulado por essas redes estratégicas que vimos na campanha."

Para ele, mais do que uma responsabilidade do WhatsApp, a desinformação massiva deveria ser objeto de preocupação do TSE.

"O tribunal imaginou que a eleição de 2018 seria uma eleição tradicional, ignorando por completo o impacto que as redes sociais tem tido no mundo inteiro. O que houve no Brasil não é diferente do que está acontecendo em outros países do mundo, como Estados Unidos. A gente tem que se dar conta de que esse é um fenômeno muito disruptivo para a democracia, mas que é um fato. E por ser um fato precisamos melhorar a estrutura democrática para se adaptar a esse novo contexto e garantir que a democracia funcione bem."

Ruediger sugere 3 medidas que o TSE poderia ter adotado: ser mais incisivo com as plataformas e construir um arcabouço de recomendações; articular uma rede com pesquisadores e universidades que estudam o fenômeno das notícias falsas; e mapear e acompanhar o debate político nas redes. Fica a sugestão para as próximas eleições, em 2020.