04/11/2018 01:00 -02 | Atualizado 05/11/2018 16:07 -02

Deborah de Lemos, a grafiteira manauara que transforma mulheres em sereias

Ela escolheu a figura da mitologia grega para revelar a força de cada mulher. “Toda mulher precisa se sentir poderosa e mágica como as sereias”, afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Deborah de Lemos é a 242ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Deborah de Lemos é a 242ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Algumas latas de tinta em spray podem não representar algo lá muito importante no meio fio de uma calçada. Mas nas mãos da artista visual, Deborah de Lemos, de 25 anos, mais conhecida em Manaus (AM) como Deborah Erê - apelido que ganhou no grafite -, cada jato de cor representa a força, a resistência e o encantamento das mulheres amazonenses pelos muros da cidade. Por isso, elas são desenhadas como sereias com características próprias: magras, gordas, negras, indígenas. A linguagem é figurativa e objetivo é claro: empoderar. "Em qualquer lugar do mundo a sereia é vista como uma personagem mágica, forte, que encanta. Todas as mulheres precisam se sentir assim", incentiva Lemos, em entrevista ao HuffPost Brasil.

As sereias da artista fazem parte do projeto Made In Amazônia, criado por ela com a ideia de revelar, por meio do grafite, as manauaras que têm movimentado a cidade e inspirado outras mulheres, inclusive ela mesma. Deborah é da periferia de São Paulo e chegou em Manaus há 8 anos para estudar Artes Visuais na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). "Uma mulher com características comuns também é poderosa, também é encantadora, com as qualidades que ela têm, sem superficialidades impostas por padrões. Quero provocar uma reflexão geral!"

Assim como as sereias, a mulher é senhora de si. Poderosa e encantadora.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Made in Amazônia" é o nome do projeto de Debora Erê que estampa as paredes das rua de Manaus (AM).

Para tocar esse projeto em Manaus, a grafiteira trava uma luta por recursos e espaço, não só no grafite, mas também no hip hop. Ela lidera dois coletivos com outras mulheres grafiteiras. "Existe muita marginalização na cultura do grafite de rua e no hip hop. Aqui somos uma minoria quase invisível". Segundo Deborah, as dificuldades vão desde falta de verba para organizar eventos até a ausência de apoio por parte de alguns homens da cena, por exemplo. "Alguns deles não sentem nenhuma preocupação em incluir ou tentar entender as barreiras históricas das mulheres. Falam que a gente é empolgada, dizem que não temos técnicas para participarmos de eventos, e, quando oferecem ajuda, é para assediar", complementa ao dizer que o assédio ocorre não só por parte de um grupo grafiteiros como por quem passa na rua e avista elas trabalhando.

No grafite somos minoria, mas mostramos com a arte o poder transformador do empoderamento.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Fight Like a Woman" (Lute como uma mulher) e "Conexão feminina", são as expressões que ela leva em seu corpo.

Para chegar até aqui, a Deborah precisou percorrer um longo caminho para usar o grafite e o hip hop como ferramenta de luta -- e de trabalho. Ela estava estudando Artes Visuais no Instituto Belas Artes de São Paulo quando sentiu necessidade de se expressar nas ruas. "Conheci museus, galerias, comecei a pintar em cadernos, quadros, mas eu não me sentia contemplada, não fazia parte do meu universo", lembra.

Foi então que conheceu um grafiteiro que a apresentou a arte das ruas. Ela se encantou e quis aprender mais. "Me senti em casa", conta com a respiração mais forte como se estivesse revivendo o primeiro encontro. Na época, ela estava dando aula de artes para alunos de uma escola municipal na periferia de Santo André, no grande ABC, em São Paulo. É claro que o grafite virou conteúdo em sala de aula. "Passei o grafite para eles e acabei me apaixonando mais. Comecei a desenhar em muros sem dinheiro algum para comprar os materiais", diz e completa que por dois anos quase não grafitou por falta de dinheiro.

A rua é meu palco de trabalho, onde me inspiro com as centenas de rostos, com o barulho e mostro força.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Comecei a desenhar em muros sem dinheiro algum para comprar os materiais."

Foi o fato de ter sido aprovada no Enem, em 2013, que trouxe Deborah definitivamente para Manaus. Depois de um ano na capital amazonense, ela começou a fazer parte do movimento. A artista visual criou o projeto "Todas São Manas", onde promove encontro de cantoras, compositoras, DJs, produtoras culturais e grafiteiras. "Culturalmente é muito difícil para sociedade enxergar a gente como artista. As pessoas acham que artista é a pessoa que expõe no museu, uma coisa emoldurada. É a arte da elite, burguesa", conta.

É muito raro me tratarem como artista. Acham que a gente não pensa, que a gente não sente.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
A artista visual criou o projeto "Todas São Manas", onde promove encontro de cantoras, compositoras, DJs, produtoras culturais e grafiteiras.

Ainda em 2015, ela foi convidada para o coletivo "Golden Girls Crew que une dez grafiteiras pelo Brasil inteiro para levar mais expressões por direitos femininos. "Apesar de não estarmos fisicamente próximas, temos vivências parecidas em nossos locais de atuação. Estamos constantemente em conexão, através das redes sociais", diz.

Os dois coletivos já tiveram destaque na mídia. O "Todas São Manas" foi capa da revista Plus em agosto e o Golden Girls em uma matéria da edição de março deste ano da revista Elle -- que recentemente foi encerrada pela Editora Abril -- sobre como as mulheres estão mudando a forma que são representadas através do grafite.

A resistência feminina no grafite também revela outras feridas abertas que intimidam a mulher. Além das dificuldades para conquistar espaço nas ruas, quando conseguem, as grafiteiras precisam ter jogo de cintura para conciliar estudos, trabalho, serviço doméstico e filhos. "Até mesmo algumas [mulheres] que têm maridos grafiteiros sofrem com isso, porque eles conseguem seguir a rotina tranquilamente pintando quando querem, mas elas nunca conseguem "a vez" para poder pintar. Eles não ficam com a criança", afirma.

O que as mulheres passam me traz reflexões. Mostro de forma poética o quanto somos fortes.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Para Deborah, a resistência feminina no grafite também revela outras feridas abertas que intimidam a mulher.

Com tanta objeção, Deborah acredita que as dificuldades acabam não permitindo que elas se desenvolvam como gostariam. Ainda existem muitas barreiras a serem superadas. "Essas questões nos invisibiliza. Não somos chamadas para os eventos, por isso, decidimos criar os nossos próprios, para que a gente consiga se ajudar", crê.

A Deborah está finalizando o curso de Artes Visuais. Hoje ela ganha a vida fazendo grafites comerciais. Apesar da rejeição, ela diz que não desiste do sonho de viver um mundo mais igualitário, onde a mulher não será mais cobrada para ser perfeita, bonita, dona de casa. "Represento de forma poética todas as mulheres reais. Quero que elas se identifiquem e saibam que a rua, o mundo também são delas", acredita com o brilho nos olhos de esperança de quem luta por mais liberdade.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail paraeditor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.