MUNDO
03/11/2018 17:55 -03 | Atualizado 03/11/2018 18:04 -03

A corrida para salvar os pinguins, as focas e as baleias da Antártica

União Europeia, Estados Unidos e 23 outros países decidem no mês que vem se vão proteger “o coração dos oceanos”.

Sylvain GRANDADAM via Getty Images
Adelie Penguins are one of the many marine species in the Weddell Sea, Antarctica, an are of near-pristine wilderness threatened by climate change and industrial fishing.

Os primeiros humanos a chegar ao Mar de Weddell, na Antárctica, não eram exploradores. Eles queriam matar focas. Muitas focas. Colônias desses mamíferos marinho há tinham sido dizimadas em boa parte do Hemisfério Sul. O capitão James Weddell – um caçador de focas britânico que viria a dar nome ao mar do sul – acho que encontraria mais presas se fosse mais ao sul do que qualquer humano havia chegado.

Avance 195 anos, e representantes dos Estados Unidos, com outros 23 países e a União Europeia, participam de uma reunião em Hobart, Austrália, da Convenção de Recursos Marinhos Vivos da Antártica (CCAMLR, na sigla em inglês) – órgão responsável pela proteção da Antártica – para decidir o destino do Mar de Weddell. A escolha, que será anunciada dia 3 de novembro, é dura: haverá mais abertura para a pesca e a mineração ou mais proteção para o ecossistema da região em tempos de extinção global em massa?

Três quartos do Mar de Weddell, o mar mais frio do mundo, são cobertos por gelo durante o brutal inverno antártico. Além de seis espécies de focas, o mar também abriga 12 espécies de baleias e diversas aves marinhas, como pinguins Adélie, pinguins imperador e centenas de milhares de petrels.

E tudo isso corre riscos. A mudança climática ameaça os ecossistemas e derrete o gelo, o que facilita a pesca comercial e aumenta o perigo para a fauna da região.

Neil Lucas/Nature Picture Library via Getty Images
A Weddell Seal pokes through an ice hole.

"O Mar de Weddell é como o coração dos oceanos", diz Susanne Lockhart, pesquisadora associada da Academia de Ciências da Califórnia que dedica sua carreira ao estudo das espécies que vivem nas profundezas das águas antárticas. "A água gelada afunda aqui e movimenta correntes por todas as bacias oceânicas, um mecanismo crucial para regular o clima do planeta."

A União Europeia quer criar a maior área de proteção do mundo – que basicamente abrangeria todo o Mar de Weddell. A ideia, sugerida pelos alemães, manteria as águas livres de pesca, mesmo que pesqueiros comerciais tenham acesso à região por causa do derretimento do gelo. A decretação da área de proteção também impediria quaisquer tentativas futuras de explorar petróleo na região.

Numa tentativa de avançar a proposta, o Greenpeace lançou uma campanha pela proteção do Mar de Weddell. O grupo reuniu 2 milhões de assinaturas e enviou uma expedição científica para a região que incluiu celebridades como o ator Javier Bardem.

"Temos a oportunidade de proteger uma área de oceano selvagem enquanto ela ainda está praticamente intocada", disse Louisa Casson, da campanha Protect Antarctica. "Nunca houve pesca industrial do Mar de Weddell, pois por enquanto ele passa a maior parte do ano coberto de gelo."

Apesar da temperatura da água, os cientistas seguem desvendando a riqueza biológica e a diversidade das profundezas. "Muitas das comunidades que encontramos são altamente complexas, formadas por corais ancestrais e esponjas que oferecem abrigo e habitat para uma diversidade incrivelmente rica de vida marinha", disse Lockhart.

Casson acrescenta que os cientistas estimam existir 10 000 espécies, muitas das quais ainda não descobertas, nas profundezas do Mar de Weddell – "uma diversidade comparável à dos recifes tropicais", afirma ela.

Mas as barreiras de corais e ecossistemas do Mar de Weddell já correm riscos por causa da mudança climática e da acidificação do oceano. Pesquisadores também encontraram poluição plástica e químicos no mar antártico.

"A escalada da pesca comercial, somada aos efeitos da mudança climática, podem causar um colapso catastrófico de [todo o sistema do] Mar de Weddell", diz Lockhart.

Proteger a área da pesca comercial garantiria mais resiliência para o ecossistema, que pode servir como um refúgio vital para espécies adaptadas ao frio e que precisam se deslocar por causa do aumento da temperatura global.

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Krill is a key part of the eco-system in the Antarctic but populations are threatened both by climate change and commercial Krill fishing.

Os Estados Unidos e o Reino Unido apoiam publicamente a ideia de uma área protegida, mas a posição de vários outros países continua uma incógnita. Uma fonte do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma apoiar a proposta.

Embora seja difícil imaginar 24 países e a União Europeia concordando com uma área protegida tão extensa, algo semelhante já aconteceu no passado. A CCAMLR acordou uma primeira área de proteção em 2009. Uma vitória ainda mais importante veio em 2016. Depois de anos de discussões, a CCAMLR estabeleceu a área protegida do Mar de Ross, na Antártica, que equivale a mais de duas vezes o tamanho do estado do Texas e é a maior área marítima protegida em todo o planeta.

Casson diz que esse tipo de medida oferece benefícios econômicos de larga escala.

"Quando há santuários bem administrados, vemos uma vida marinha fisicamente maior, mais diversa e mais abundante tanto dentro das águas protegidas quanto fora. Isso pode sustentar pesca bem administrada fora das zonas protegidas, o que pode levar à segurança alimentar global", disse ela, acrescentando que essas zonas de proteção também protegem os ecossistemas oceânicos "dos piores efeitos da mudança climática, permitindo que eles sejam mais resilientes às mudanças".

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Frozen Ross Sea around Ross Island. The Ross Sea is currently the largest protected area in the world.

Hoje, mais de 7% dos oceanos são protegidos, e a ONU estabeleceu a meta de ampliar a proteção a 10% até 2020. Mas alguns conservacionistas defendem objetivos muito mais ambiciosos. O conceito Meia-Terra, proposto pela primeira vez pelo biólogo E.O. Wilson, defende que metade do planeta, tanto água como terra, sejam preservados para evitar a extinção em massa.

Embora seja perigoso demais mergulhar no Mar de Weddell, Lockhart passou várias horas num submersível investigando uma área adjacente.

"É uma sensação incrível sair do preto, azul e branco da Antártica, descer para a escuridão e encontrar uma explosão de cores e vidas no chão do oceano", afirma ela.

Há 200 anos, a Antártica era como Marte – sabíamos que ela existia, mas ninguém tinha colocado os pés lá. Hoje, isso mudou. Milhares de cientistas passam meses do ano no continente – e alguns deles passam até mesmo o inverno. Navios quebra-gelo, de pesca e expedições científicas passam por aquelas águas, que recebem até mesmo a vista de navios de cruzeiro. Ao mesmo tempo, nossa crise ambiental global – da mudança climática à poluição de plásticos – não deixa lugar nenhum intocado. Logo saberemos se o Mar de Weddell vai continuar remoto e selvagem.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.