03/11/2018 00:00 -03 | Atualizado 05/11/2018 15:57 -02

Tatiana Trad, a baixista (e mãe) que sente o peso da misoginia no mundo da música

Baixista e produtora musical reconhece o machismo no rock, mas resiste. “Não aceitei os papéis que a sociedade me impôs. Faço o que tenho vontade”, conta à reportagem do HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Tatiana Trad é a 241ª entrevistada do

Tatiana Trad traz no sotaque "paulistobaiano" as marcas de seu movimento na música e na vida. Aos 39 anos, ela, que é filha de baianos, mora em Salvador (BA), mas nasceu em São Paulo (SP), pertinho da Avenida Paulista, lugar com o qual se identifica pela agitação e rebeldia. Mas foi logo aos 16 anos que ela descobriu porque sentia tanta afinidade com a cidade: a agitação e rebeldia se transformaram em paixão pela música. Foi aí que montou sua primeira banda, ao lado do irmão, que é baterista. Decidiu se matricular em aulas de guitarra para que formassem uma bela dupla "rocker", mas sempre foi vidrada na suavidade feroz das linhas do contra baixo, hoje seu principal instrumento.

Tatiana veio morar em Salvador na década de 90, quando sua mãe resolveu sair de São Paulo para voltar à terra natal. No primeiro momento, a experiência foi terrível: "Não me acostumei, minha forma de vestir e me colocar chocava as pessoas. Na escola, me olhavam como se eu fosse um ET", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil. Hoje, ela é feliz em solo baiano.

Comecei a tocar pra não ficar maluca, mas a música se tornou a minha vida.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Mesmo tendo abraçado a experiência da maternidade, nunca cogitou desistir de seus sonhos ou da música.

Em poucos meses, ela voltou para São Paulo e entrou em um relacionamento com um frequentador da mesma cena musical que ela, a do rock. A relação era permeada por posse. Tatiana foi violentada física e psicologicamente. "Ele queria controlar minhas roupas, meus passos... na época essa coisa de relacionamento abusivo não era muito falada, eu fui aceitando até o dia em que ele me bateu. Quando terminamos, ele me perseguiu por meses."

Ela resistiu. Livre do abuso, voltou a Salvador, dessa vez decidida a se adaptar. Por aqui, encontrou uma cena rock'n roll bem-frequentada, com nomes como Pitty, Martin Mendonça e Fábio Cascadura. Criou a LOU, banda formada majoritariamente por mulheres (só havia um homem na bateria, porque, na época, não havia muitas mulheres bateristas em Salvador), hoje referência importante do novo rock baiano por apresentar um som autoral, pesado e impecavelmente bem-executado.

Nos palcos, a hostilidade masculina se apresenta desde sempre. "É difícil tocar em certos ambientes, porque há muito machismo no Rock, e é difícil ouvir certos comentários e ficar quieta. Eu já engoli muitas coisas, mas, hoje, se eu me sentir agredida, simplesmente me retiro", lembra.

Meu primeiro namorado foi também meu primeiro abusador.

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Hoje, seus principais trunfos são sua independência e o bem-estar de sua filha, educada com a máxima liberdade possível.

Ela se dividia então entre a banda e a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), quando conheceu seu um outro namorado, com quem partiu para Londres em busca de novos horizontes na música e na vida. Ela morava em uma ocupação, trabalhava em um café e compunha com seu violão de estimação. Engravidou aos 19 anos, e voltou ao Brasil para ter sua filha ao lado de sua família na Bahia, em um parto humanizado. "Meu parto tinha tudo pra dar errado. Começamos o trabalho de parto natural, mas eu não tinha dilatação, e acabamos fazendo cesariana."

Apesar das dificuldades, experiência de ser mãe é algo que não se arrepende. Mesmo tendo abraçado com todas as forças a experiência da maternidade, nunca cogitou desistir de seus sonhos ou da música. Ensaiava com a pequena Flora no estúdio e deixava-a sob os cuidados da avó para ir à Universidade.

Eu não penso em como seria se eu não fosse mãe. Eu sou mãe, foi uma escolha.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
No que depender de mulheres como Tatiana, as sementes nunca deixarão de germinar.

Enquanto mãe e música, Tati sente em cheio o peso da misoginia. Em seu terceiro relacionamento, apesar de não haver violência física, era constantemente diminuída. "Tive que ouvir: 'Você sabe que é café com leite, né?', quando externei minha preocupação com a responsabilidade de estar tocando em um grande projeto. Não aceitei. Eu já tinha bagagem e já sabia o que estava fazendo."

Ela foi convidada para o baixo da banda Scambo, com um público engajado na Bahia e participante do programa musical global SuperStar, da Rede Globo. Junto com o sucesso, veio a responsabilidade: era preciso viajar em turnê.

Seu companheiro da época – que acabou por notar, inevitavelmente, que, não, ela não é café com leite – não se agradava das viagens, e ela fez sua escolha. "Não podia aceitar um companheiro que não compreendesse minha relação com a música. Há limites."

Aparentemente, o limite dela é nunca tentarem cortar suas asas – e que bom por isso. Tati permaneceu na Scambo e continuou sua vida acadêmica e a criação de sua filha. Fez mestrado em Cultura e Sociedade, pesquisando cinema e gênero, e ingressou no doutorado na mesma área. Hoje, seus principais trunfos são sua independência e o bem-estar de sua filha, criada com liberdade para amar.

Educo minha filha para ser livre e se amar.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Não podia aceitar um companheiro que não compreendesse minha relação com a música. Há limites."

Recentemente, Tati Trad produziu o primeiro disco da banda Lisbeth, formada só por mulheres que se inspiram em seu trabalho. A produção do disco foi feita em conjunto com Irmão Carlos (do Irmão Carlos e o Catado, expressiva banda experimental de Salvador). "É muito bom poder ver essa semente germinando", finaliza. No que depender de mulheres como Tatiana, as sementes nunca deixarão de germinar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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