COMPORTAMENTO
03/11/2018 15:37 -03 | Atualizado 03/11/2018 15:37 -03

Os Estados Unidos estão enriquecendo, mas os americanos estão mais infelizes

Economistas dizem que precisamos medir e administrar a felicidade e o bem-estar para romper esse paradoxo.

Therd oval via Getty Images
Enriquecimento não é sinônimo de felicidade.

Você está se sentindo feliz hoje? Quão feliz? Até que ponto você acha que você tem valor? Seu trabalho tem sentido? Você sente esperança? Sente raiva? Como seus sentimentos se comparam com os de outras pessoas em sua comunidade, sua cidade e seu país?

Essas são perguntas amplas que um grupo de economistas diz que os governos deveriam fazer a seus cidadãos para melhor compreender o que constitui uma boa qualidade de vida e como criar políticas públicas que a fomente. Eles consideram que isso é especialmente importante hoje, quando estamos vendo o êxito econômico avançando, porém vivemos em sociedades cada vez mais fraturadas.

Os EUA é um dos países mais ricos do planeta. A economia americana vem crescendo em ritmo acelerado, e o desemprego no país é um dos mais baixos já visto. Mas esses bons tempos econômicos não estão se traduzindo em vida mais feliz para uma grande parcela dos americanos.

Um relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial na quarta-feira constatou que, ao mesmo tempo em que a economia dos EUA é a mais competitiva do mundo, ela se tornou assim às expensas do "enfraquecimento de sua tessitura social". A expectativa de vida vem diminuindo, em parte devido ao aumento das chamadas "mortes movidas pelo desespero" – pessoas que morrem de suicídio ou por abuso de drogas ou álcool. Esse fenômeno afeta especialmente os homens brancos sem instrução universitária que abandonam a força de trabalho: cerca de 15% dos homens na faixa dos 25 anos não trabalham.

Esse problema não é exclusivo dos Estados Unidos. O crescimento econômico da China vem sendo fenomenal. Entre 1990 e 2009, o Produto Interno Bruto chinês se multiplicou por pelo menos quatro, e a expectativa de vida dos chineses subiu de 67 para 74 anos, mas a satisfação dos chineses com a vida diminuiu. Também a Índia, outra história de sucesso econômico, viu o índice de satisfação com a vida de seus habitantes cair 10% entre 2006 e 2017.

Basicamente, à medida que os países enriquecem, muitos de seus habitantes parecem estar ficando mais infelizes.

É um fenômeno descrito pela professora de economia Carol Graham, membro sênior do Brookings Institution, como o "paradoxo do progresso", em que crescimento econômico e melhorias sem precedentes em áreas como saúde e alfabetização coexistem com fatores negativos: mudança climática, bolsões de pobreza persistente, disparidade de renda crescente e infelicidade.

THE ASSOCIATED PRESS
A woman and a child wearing masks to protect against pollution in Ritan Park, Beijing. Despite it's huge economic growth, China is facing enormous environmental problems.

Em artigo publicado na quinta-feira na revista acadêmica Science, Graham, juntamente com os co-autores Kate Laffan, da London School of Economics, e Sergio Pinto, da Universidade de Maryland, disseram que para superar esse paradoxo é necessário medir a felicidade e o bem-estar das pessoas.

"Precisamos repensar como enxergamos o sucesso na sociedade de modo mais geral, para não levar em conta apenas a atividade econômica das pessoas", diz Laffan, "e sim também coisas como vínculos sociais, que realmente afetam como as pessoas se sentem sobre sua vida e que não aparecem no PIB ou outras medidas econômicas."

Essa ideia de incluir bem-estar e felicidade em avaliações econômicas vem ganhando força pouco a pouco há décadas.

"Quando comecei a trabalhar sobre a felicidade, no início dos anos 2000, com um grupinho muito pequeno de outros economistas e alguns psicólogos, as pessoas nos acharam malucos", conta Graham. "Diziam 'como é que é? Ninguém vai levar vocês a sério.'"

Mas a equipe cresceu e em dado momento incluiu Daniel Kahneman, o primeiro psicólogo a receber o Prêmio Nobel de Economia. Então houve a crise econômica, que criou e expôs falhas e divisões. As pessoas começaram a enxergar que a métrica funcionava, diz Graham, e revelava padrões que se repetiam em países pelo mundo afora.

"Sofisticamos nossos métodos para medir não apenas a felicidade em sentido mais amplo, mas também a satisfação com a vida", ela contou.

Graham deixou claro que não defende a substituição das medidas baseadas na renda ou no PIB, mas apenas que esses critérios deixam elementos importantes de fora.

"Há algo mais ocorrendo que a métrica baseada na renda não nos revela", ela acrescentou.

Alguns países já procuram incluir fatores favorecedores de felicidade em suas políticas públicas. O exemplo mais famoso disso é o Butão. Essa monarquia com quase 800 mil habitantes localizada na parte leste da cordilheira dos Himalaias criou um Índice de Felicidade Nacional Bruta em 1998. A cada cinco anos uma pesquisa é realizada com as famílias de todo o país para registrar indicadores tradicionais, como padrões de vida e saúde, além de outros não tradicionais, como bem-estar psicológico, utilização do tempo, diversidade ecológica e vínculos com a comunidade.

Essa abordagem foi adotada também por organizações não governamentais, think tanks e governos nacionais, interessados em estudar ideias de como implementar projetos semelhantes em outros países. Dorji Penjore, diretor da divisão de pesquisas do Centro de Estudos do Butão e da Felicidade Nacional Bruta, disse à Rádio Nacional Pública americana que, depois da crise financeira de 2008, "as pessoas começaram a questionar a viabilidade do capitalismo liberal ocidental, do mundo corporativo, e fomos bombardeados de perguntas".

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Young schoolgirls in traditional dress pose for their picture by the road in Talo, Bhutan.

Outros países também vêm adotando essas ideias. O Reino Unido mede a felicidade nacional desde 2011, entrevistando pessoas a partir dos 16 anos de idade sobre satisfação com a vida, ansiedade e o valor pessoal que elas sentem que têm. E a Costa Rica, classificado consistentemente como um dos países mais felizes do mundo, é um de vários países, incluindo a Escócia e a Eslovênia, que se uniram em outubro do ano passado para se comprometerem com a defesa de uma economia do bem-estar.

Mas é quando se olha ao nível local que se percebe realmente como a medição do bem-estar e a utilização dos resultados para subsidiar as políticas públicas pode realmente afetar a qualidade de vida das pessoas, diz John Helliwell, economista da Universidade da Colúmbia Britânica e editor do Relatório das Nações Unidas sobre Felicidade Mundial.

Um bom exemplo disso, segundo Helliwell, é um esquema lançado há quatro anos no Canadá pelo qual alunos da sexta série assistem às aulas em um asilo de idosos em Saskatoon onde vivem 263 idosos que necessitam de alto grau de cuidados. Um dos moradores do asilo disse a CBC: "Se não víssemos as crianças, seríamos apenas um grupo de velhos neste prédio, e isso seria deprimente. Sem as crianças, sinto que uma parte de mim morre."

Esse tipo de projeto vem sendo reproduzido em várias partes do mundo de maneiras diferentes. Numa comunidade de aposentados em Cleveland, jovens estudantes de música vivem lado a lado com os idosos, ganhando o alojamento gratuito e em troca tocando música para eles. E em Helsinque, na Finlândia, como parte de uma iniciativa financiada pela prefeitura para combater o isolamento social de idosos e tirar jovens sem-teto das ruas, estudantes pagam pouco para viver em um lar de idosos e passar tempo com os moradores.

Essas medidas locais, que usam medidas para subsidiar maneiras de ajudar comunidades carentes que não se resumem a lhes proporcionar mais renda ou empregos, mas fortalecer os vínculos de comunidade, fazem uma diferença enorme na qualidade de vida das pessoas, diz Gaham.

Ela mencionou um projeto lançado em Santa Monica, Califórnia, que em 2013 introduziu um Índice de Bem-Estar. A prefeitura convidou estudantes a criarem campanhas para combater o isolamento social, um problema identificado nas pesquisas sobre o bem-estar da população. Em um dos projetos, estudantes visitavam uma feira de produtores de hortifrutis e pediam a pessoas escolhidas aleatoriamente que posassem com outros desconhecidos para "retratos de família", intencionalmente escolhendo pessoas de idades e raças diferentes.

"Ao final do projeto, metade das pessoas tinham virado amigas", disse Graham. "É uma coisinha simples, mas mostra que romper barreiras pode fazer uma grande diferença quando as pessoas vivem isoladas, solitárias e deprimidas."

O uso da métrica do bem-estar encerra desafios. Felicidade e bem-estar podem ser coisas difíceis de definir. De acordo com Graham, as mulheres que vivem em circunstâncias de grande carência às vezes se dizem mais felizes do que são realmente, porque têm baixas expectativas ou já aprenderam a se conformar com suas circunstâncias de vida.

Mas, segundo ela, existem maneiras de interrogar as pessoas que trazem esses problemas à tona, e ela rejeita as críticas segundo as quais os dados sobre bem-estar seriam subjetivos ou pouco confiáveis.

"Há um nível espantoso de consistência nas respostas das pessoas", ela explica. "Se esses critérios fossem enviesados ou estranhos, como se explica que os mesmos fatores são dados como importantes para os escores de bem-estar de pessoas em diferentes países e diferentes momentos?"

"Acho que não temos uma solução evidente para muita dessa desesperança", ela acrescentou. "Precisamos estudar as causas da desesperança, mas também estudar as comunidades que conseguem viver bem e prosperar, mesmo quando confrontadas com adversidades."

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A série "This New World" do HuffPost é financiada por Partners for a New Economy e pelo Kendeda Fund. Todo o conteúdo é editorialmente independente, sem influência ou entrada das fundações. Se você tiver uma ideia ou uma dica para a série editorial, envie um e-mail para thisnewworld@huffpost.com

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.