02/11/2018 00:00 -03 | Atualizado 02/11/2018 10:18 -03

Teia do Nascimento, a anfitriã que exerce o dom de receber as pessoas com amor

Ela recebe turistas com amor e não deixa suas raízes serem perdidas. “Você pode ser protagonista da sua história pelo seu trabalho, pelo coletivo, eu gosto de estar com gente."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Aristeia Avelino do Nascimento Santos é a 240ª entrevistada do

Diz a crença que quem chega para morar, em busca de paz e sossego, no vilarejo de São Jorge na Chapada dos Veadeiros precisa falar com a Teia, como é conhecida por todos que passam ali, Aristeia Avelino do Nascimento Santos, de 53 anos. Sem a benção dela, não dá certo. O sorriso fácil, as frases certeiras pra qualquer situação, o acolhimento de quem chega naquele lugar remoto mostram uma mulher segura de si e do seu caminho. Ali ela nasceu e cresceu e se refez com o lugar. Os sonhos nunca param, depois de ter seu restaurante e uma pousada, ela agora luta pela representatividade e não para de se reinventar.

Teia é uma verdadeira guia de São Jorge. Ela não só recebe turistas, como faz pontes. Sabe o nome e sobrenome de todos que vivem por ali. Se passa alguém querendo uma escada grande ou uma ajuda pra consertar um telhado, ela sabe quem pode dar uma mão. Ela faz a conexão. No restaurante que tem o seu nome, bate papo, reconhece clientes de outras visitas, pergunta como está a família ou por que determinado amigo não veio desta vez. Anda pelas ruas de terra e vai apontando cada grafite e sabe a história por trás do colorido, o nome dos artistas. Tem um orgulho danado de onde vem e do que é.

O ato de receber alguém pra mim é uma coisa natural, que eu amo. Eu gosto de acolher.

Receber é um dom que ela domina. Outro dia um rapaz ligou dizendo que iria comemorar um mês de namoro na sua pousada e que queria fazer uma surpresa. Queria que Teia comprasse um buquê. "Eu disse, olha, aqui não tem floricultura, não, mas se você quiser eu mesma posso fazer um com as melhores flores do cerrado. Ele mandou uma carta, eu imprimi e coloquei no quarto. Gente, foi demais! Foi uma poesia e é o que o mundo precisa. Eu me movimento para realizar esses desejos", comenta com brilho nos olhos.

Teia nasceu naquela pequena vila de ruas sem asfalto, criada por gente que foi para aquela paisagem paradisíaca no interior do Goiás, perto de Alto Paraíso, para viver do garimpo. Os exploradores ficavam ricos e iam para outras cidades, os trabalhadores ficavam ali e era uma vida difícil. "Só fui calçar um chinelo quando tinha 7 anos. A gente tinha uma roupa só, lavava e entrava no rio para esperar secar e usar a muda de novo", relembra. Quando ficou proibido a exploração do Parque Nacional no final da década de 70, as famílias ficaram sem ter uma atividade de renda.

Desde pequena eu tinha uma coisa de liderança, de defender a minha comunidade, mas sem saber o que era isso.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Ela conta que nasceu em uma vila, foi criada por gente que trabalhava com garimpo e conheceu de perto o que é Alto Paraíso.

Em seguida, o turismo começou a aparecer na região. "E mais uma vez a gente tava ficando fora do processo, pessoas de outros locais estavam vindo intervir aqui e aquilo me entristecia muito. Eu já era casada tinha dois filhos, mas não tinha condições de ter uma pousada, só sabia que queria muito receber as pessoas bem".

Quando percebeu o movimento na cidade e os turistas, Teia sentiu que precisava fazer alguma coisa. Chamou a mãe, ela disse não, chamou a irmã e ela disse sim. "A única coisa que a gente podia fazer era comida. Começamos no carnaval de 88, fiz em casa mesmo. Pedi fiado no mercadinho, matei um frango, fiz chuchu, feijão, abóbora, coisas que a gente tinha no quintal mesmo", conta. "Tivemos 18 clientes, com o dinheiro que ganhei paguei os ingredientes e comprei mais panelas e vasilhas para servir".

Quando apareceu o turismo veio o sentimento de que a história ia se repetir. As pessoas iam ganhar dinheiro, explorar a mão de obra e ir embora.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Empreendedora, a ideia de receber não vem sozinha: acompanha sua história e muita simpatia.

Quem subia pra cachoeira, passava na frente da casa da Teia logo de manhã e pedia o que queria comer no dia, ela anotava e quando eles voltavam servia o almoço. O empreendimento deu certo, mas ela não esquecia da pousada. Em 1991, comprou um terreno, construiu uma casa e do lado funcionava o restaurante. Teia colocou um objetivo pra si mesma: quando tivesse 50 anos a sua pousada tão sonhada estaria pronta e ela fecharia o restaurante. E assim foi. Ou melhor, quase. Juntou dinheiro e fez a base de dois apartamentos, juntou mais e fez mais quartos, demorou quatro anos para poder abrir as portas. Dois anos mais e fez o resto. E lá está o sonho de receber pessoas. "Mas não consigo largar o restaurante, adoro poder fazer comida e atender gente lá".

O sol nasce pra todos pra fazer melhor. Não adianta ficar parado esperando do governo, tem que fazer, se movimentar.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Teia é assim, sempre em busca do que fazer para melhorar ainda mais.

"Fiz tudo totalmente sem dinheiro, só lutando e trabalhando. E meio dessas coisas passei por vários processos com a comunidade, porque ser pobre é um problema porque quem tem dinheiro mantém o poder". Depois de ouvir conselhos de um visitante em São Jorge, ela e outros locais resolveram fazer uma Associação de Moradores para lutar por algumas melhorias na vila. "Pra gente sobreviver a gente precisa se organizar e nos unir. A gente não tinha voz", conta Teia, que acabou sendo eleita presidente do grupo.

Era preciso buscar também a identidade do povo de São Jorge. "Não tinha quem retratasse nossa história, nós éramos retratados como se fossemos marginais, destruidores, quem tem vergonha do seu passado? Não pode, você perde esse processo de olhar pras próprias raízes. Muita gente acabou vendendo suas terras, só fica quem tem resistência, por isso, precisamos nos fortalecer".

Quando um povo está mais forte é mais fácil partir para o combate pela sobrevivência.

Como líder comunitária, Teia se envolveu com a política para tentar mudar alguma coisa. Foi eleita vereadora, mas foi um processo difícil de luta. "Você acha que vai trabalhar por um coletivo comum, mas não é o que acontece. Eu sempre trabalhei pela paixão e pelo amor e lá era só dureza", conta. Ela persistiu e resistiu. Foi administradora da vila entre 2004 e 2009. "A gente não tá nesse mundo por acaso, a gente tem o dever de contribuir para um mundo melhor e não precisa de muito pra isso", solta.

Teia é assim, sempre em busca do que fazer para melhorar ainda mais. Enquanto serve o almoço no seu restaurante com comida caseira, cheio de opções de verdura, pratos com carne e outros vegetarianos, ela arruma as toalhas coloridas para colocar na mesa ela e dispara: "vai ter comida ayurvédica aqui também, estou fazendo curso. Sabia que eu sou kappa e pita?". Quando alguém pergunta: "mas você vai atender as pessoas?". "Vem aí no ano que vem que eu descubro o que você é também". E assim ela segue e recebe quem vem, vai e volta.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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