POLÍTICA
01/11/2018 11:21 -03 | Atualizado 01/11/2018 14:59 -03

Sergio Moro aceita ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro

Em nota, juiz da Lava Jato diz que, para 'evitar controvérsias desnecessárias' vai se afastar das audiências da operação.

Montagem/Associated Press

Responsável pelos processos da Operação Lava Jato na primeira instância, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Criminal de Curitiba (PR), aceitou nesta quinta-feira (1º) o convite para ser ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro.

Moro se reuniu por 1h30 nesta manhã com Bolsonaro na casa do presidente eleito, no Rio de Janeiro, mas saiu sem falar com os jornalistas. Logo depois, soltou uma nota oficial.

"Fui convidado pelo sr. presidente eleito para ser nomeado Ministro da Justiça e da Segurança Pública na próxima gestão. Após reunião pessoal, na qual foram discutidas políticas para a pasta, aceitei o honrado convite", escreveu o juiz.

Segundo ele, a decisão foi tomada "com certo pesar" porque ele terá "que abandonar 22 anos de magistratura". "No entanto, a perspectiva de implementar uma forte agenda anticorrupção e anticrime organizado, com respeito à Constituição, à lei e aos direitos, levaram-me a tomar esta decisão", disse.

"Na prática, significa consolidar os avanços contra o crime e a corrupção dos últimos anos e afastar riscos de retrocessos por um bem maior."

Moro afirmou ainda que a Operação Lava Jato "seguirá em Curitiba com os valorosos juízes locais" e que vai se afastar desde agora de novas audiências "para evitar controvérsias desnecessárias". Ele ainda afirmou que dará entrevista coletiva na próxima semana.

No voo de Curitiba para o Rio, que chegou às 7h30, o magistrado responsável pela condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que "se houver alguma alegação [da defesa do ex-presidente], será decidido nos autos".

Moro também considerou prematuras críticas sobre a possibilidade de um impacto negativo na Lava Jato. "Acho surpreendente falar que não se deve nem conversar com um presidente que acabou de ser eleito por mais de 50 milhões de brasileiros", disse antes do encontro com Bolsonaro. Ele terá de se afastar das funções de juiz para assumir o cargo no Executivo.

O magistrado deverá comandar um "Superministério", que irá agregar estruturas da Justiça, Segurança Pública, Transparência e Controladoria-Geral da União e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), hoje ligado à Fazenda.

Em seu perfil do Twitter, o presidente eleito celebrou a decisão de Moro.

Depois, em entrevista à TV Record, Bolsonaro disse que Moro terá "ampla liberdade" para escolher quem vai compor o seu segundo escalão: quem estará à frente da Polícia Federal, da Segurança Pública.

"Eu o vi como se fosse um jovem universitário recebendo o seu diploma. Ele está realmente com muita vontade de levar avante a sua agenda", disse o presidente eleito.

Críticas à conduta de Moro

A decisão do juiz de aceitar o convite de Bolsonaro alimenta as críticas de uma atuação política do juiz na operação Lava Jato. Nas redes sociais, políticos da oposição criticaram a conduta de Moro.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse que "Moro será ministro de Bolsonaro depois de ser decisivo pra sua eleição, ao impedir Lula de concorrer". "Denunciamos sua politização qdo grampeou a presidenta da República e vazou pra imprensa; qdo vazou a delação de Palocci antes das eleições. Ajudou a eleger, vai ajudar a governar", escreveu.

O perfil do ex-presidente Lula no Twitter, que foi condenado por Moro no caso do tríplex do Guarujá, publicou a capa do jornal O Estado de S. Paulo com a entrevista dada pelo juiz em 2016, na qual ele diz que "jamais entraria para a política".

O procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol saiu em defesa de Moro, dizendo que, se o juiz "tivesse aspiração política, ele poderia ter se tornado presidente ou senador nas últimas eleições com alta probabilidade de êxito".

"Há ainda bastante por fazer e será feito. Perde-se o grande talento de um juiz, mas a maior parte da equipe seguirá firme lutando contra a corrupção, como profissionais, na operação, e como cidadãos", disse Dallagnol.

Os advogados alegam que o petista é vítima de abuso e mau uso das leis para fins de perseguição política e citam o convite para integrar o governo de Bolsonaro como motivos de parcialidade de Moro. Nas alegações finais, a defesa sustenta que Lula não pode obter um "julgamento justo, imparcial e independente" com o juiz.

Terceiro colocado na corrida presidencial, Ciro Gomes (PDT) classificou como política a atuação de Moro ao comentar a possibilidade de aceitar o ministério. "Sergio Moro deveria aceitar logo o convite. Ele não é juiz, ele é político e deveria assumir essa vocação e assumir logo esse ministério. Assim ele poderia mostrar como pode ajudar o Brasil sem os arbítrios judiciais", disse em entrevista à rádio CBN, na noite desta quarta-feira (31).

Após condenação em segunda instância em janeiro pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), Lula foi preso e segue na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde 7 de abril. A pena por corrupção e lavagem de dinheiro é de 12 anos e um mês de prisão.

Com a condenação, Lula foi impedido de participar da disputa eleitoral por ter sido enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Antes, ele estava à frente de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto.

O petista ainda é réu em outros seis processos.