01/11/2018 00:00 -03 | Atualizado 01/11/2018 00:00 -03

Silvia Coelho, a mãe que não cedeu ao discurso de 'o mercado de trabalho não é para você'

“Hoje em dia entendo que fui empurrada para fora do mercado. Fui preterida para um cargo por ser mãe e meu chefe dizer que eu não tinha disponibilidade para liderança", conta.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Silvia Coelho é a 239ª entrevistada do

Conta muito entusiasmada e cheia de orgulho que após 9 anos em casa, retornou ao mercado de trabalho – na sua área de formação. Parece ainda em dúvida se isso realmente aconteceu. "Não é todo dia que uma mãe de 45 anos consegue recolocação no mercado depois de ficar mais de 9 anos sem trabalhar fora", relata consciente das dificuldades e preconceitos que enfrentou e quase não acreditando que está nessa posição de novo. É pura alegria. E Silvia Coelho, engenheira e criadora do grupo Elas Programam, faz questão de realmente comemorar.

Depois de anos de dedicação e muito trabalho, ela sentiu como se tivesse sido tirada da tomada. Assim, de uma hora para outra, ficou sem forças. Desligou. Engenheira com experiência em desenvolvimento de software para celular em uma época em que o assunto ainda era relativamente novo, Silvia sofreu uma desilusão no trabalho. "Hoje em dia entendo que fui empurrada para fora do mercado. Fui preterida para um cargo porque eu tinha filho e meu chefe me disse que eu não tinha disponibilidade para assumir uma liderança e me desestimulei. Acabei desistindo sem ter a consciência disso. Foi como se tivesse me desplugado".

Hoje em dia entendo que fui empurrada para fora do mercado.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Certa de que já não tinha como crescer na carreira, Silvia decidiu ficar com os filhos em casa.

Na época sua filha mais velha, hoje com 13 anos, era pequena, e Silvia resolveu engravidar novamente. Inicialmente o plano era se afastar do trabalho por cerca de um ano e retomar a atividade. Mas não foi o que ela fez. Certa de que já não tinha como crescer na carreira decidiu ficar com os filhos em casa. "Resolvi cuidar das crianças. Foi muito bom durante uns 5, 6 anos. Me afundei na maternidade, tudo que envolvia criança era eu, eu sabia. Virei especialista nos meus filhos e esqueci que eu era engenheira e isso me deixa profundamente tocada porque para eu virar uma engenheira e fazer meu mestrado me custou muito da minha vida e eu esqueci completamente de onde eu era, quem eu era".

Nascida e criada em um bairro de periferia de Belém, Silvia é de uma família de sete irmãos. "Sou uma sobrevivente. Meus irmãos mais velhos eram bem violentos e eu nunca tive medo deles, eu vim de escola pública e como eu era boa de matemática eu sofria bullying, acabe praticando também e nunca fui de desistir porque venho de uma realidade de resistência". Por isso para ela doeu tanto achar que desistiu de algo em sua vida e ver que deixou para trás tantos anos de dedicação com o seu trabalho. Mas, aos poucos, foi reencontrando essa mulher dentro dela. "Depois de um tempo já não me completava mais [ser só mãe] e aí vem a culpa. Como eu posso não estar feliz de estar com os meus filhos? Eu não estava infeliz, estava inconformada, eu queria mais. Aí eu comecei a pensar em várias coisas malucas que eu podia fazer, fui estudar decoração, moda, curso de fotografia, eu realmente esqueci que eu era uma engenheira e que podia voltar ou reinventar minha carreira".

Virei especialista nos meus filhos e esqueci que eu era engenheira.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Quando se viu tantos anos fora do mercado percebeu que estava sim, um pouco assustada, mas deveria seguir em frente.

Foi quando, há cerca de um ano, criou um grupo no Facebook para voltar a falar sobre o que ela sempre soube. Tecnologia e engenharia. Assim nasceu o Elas Programam, hoje com mais de 2.600 integrantes. "Alguém pediu para ensinar a programar e eu falei que podia ensinar os primeiros passos e muitas quiserem. No fim eu não ensinei ninguém a programar [risos], mas eu conecto muitas mulheres, a gente troca ideia, tira dúvida. Eu queria me reinserir [no mercado] e queria ajudar outras mulheres a entender que isso também é possível para elas. Muitas ainda ouvem que tecnologia não é para mulher e ficam amedrontadas em relação a tecnologia."

Esse medo Silvia nunca teve. Mas enfrentou outros, é verdade. Quando se viu tantos anos fora do mercado percebeu que estava sim um pouco assustada com o novo mundo que se formou nesse período em que ficou afastada. "Depois de um tempo percebi que tinha medo de retomar ao mercado e não chegar aos espaços onde eu tinha chegada antes por conta da idade, por ter filhos pequenos e aos poucos eu fui perdendo o medo e decidi que não queria mais ficar em casa o tempo todo. Fui fazer cursos, conhecer mulheres de tecnologia para começar a me reinserir nesse mercado porque tudo mudou e eu fiquei para trás, virei uma simples consumidora e tenho consciência de que estou correndo atrás de um trem bala, mas não por isso não tenho condições de aprender".

Tenho consciência de que estou correndo atrás de um trem bala, mas não por isso não tenho condições de aprender.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela mantém o 'Elas Programam' ativo para mostrar e lembrar outras mulheres de que a tecnologia pode ser lugar para elas.

E de ensinar o que puder também, porque Silvia sabe da dificuldade que ainda existe de mulheres entrarem nesses mercados considerados masculinos. "A adolescente não vislumbra que ela vai trabalhar com tecnologia e tem que falar desde cedo para ela achar que é um caminho.". Fora isso, ela sabe melhor ainda como é desafiador conciliar a maternidade com uma ambição profissional. "Minha missão não era ser mãe em tempo integral. Isso dói, mas eu não quero que minha filha veja uma mãe sendo infeliz. Quero que ela entenda que ela pode ser mãe e ter uma carreira, ela não precisa escolher, por mais difícil que possa ser. Eu não estava sendo um bom exemplo, estava infeliz e queria mais e não conseguia viver a maternidade na plenitude".

Para isso, ela sabia que precisava buscar, de novo, outras conquistas. "Queria voltar a trabalhar porque eu era motorista, nutricionista, relações públicas. Porque meus filhos tem uma agenda super apertada [risos]. Ficava o tempo todo falando com outras mães para resolver agenda de filho. E meu marido não resolvia nada porque ele saía para trabalhar. Hoje quem faz é ele, aprendeu um monte de coisa e foi super rico para todo mundo".

Quero que ela entenda que ela pode ser mãe e ter uma carreira, por mais difícil que possa ser.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Silvia sorri hoje, mas sentiu na pele a dificuldade que ainda existe de mulheres entrarem em áreas consideradas masculinas.

Junto com o trabalho no grupo, Silvia começou a correr atrás do que havia deixado adormecido dentro dela e há um anos e meio voltou a estudar, a conversar com as pessoas e a procurar emprego. Porque percebeu que era possível retomar a carreira, encontrar uma outra empresa para atuar e contribuir com toda a experiência – e idade que tem, com orgulho. Viu que a espera valeu a pena. E mantém, no pouco tempo livre que encontra, o Elas Programam ativo para mostrar e lembrar outras mulheres de que a tecnologia pode ser lugar para elas. Sem precisar ceder. "Hoje não desisto e me vejo como alguém que não vai mais desistir como eu fiz. Chorei, pensei que não ia conseguir [voltar], mas eu não ia mais desistir. Não me permitia, não agora", diz firme e emocionada.

Na verdade, Silvia nunca desistiu. Talvez só tenha dado um tempo. Hoje ela está completa. E mais plugada do que nunca.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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