POLÍTICA
31/10/2018 08:00 -03 | Atualizado 31/10/2018 09:29 -03

Sede da transição de Bolsonaro, CCBB é ponto de encontro dos progressistas de Brasília

Centro cultural já abrigou Comissão Nacional da Verdade, que investigou crimes da ditadura militar.

A primeira "casa" do governo Bolsonaro, onde será tocada a transição entre as administrações de Michel Temer e do presidente eleito em Brasília, é um dos pontos de encontro mais progressistas da capital, abrigando exposições, peças e shows, além de ter servido como o centro da Comissão Nacional da Verdade, que investigou crimes da ditadura militar entre 2012 e 2014.

Desde a última segunda-feira (29), 50 homens da Força Nacional já garantem a segurança do prédio do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), mas segundo a assessoria de imprensa da instituição, nenhuma atividade cultural foi modificada devido à presença dos novos inquilinos. Tampouco haverá alterações para os frequentadores, de acordo com o centro cultural.

Aos fins de semana, os espaçosos jardins do CCBB --o terreno tem 146 mil m² e uma bela visão do Lago Paranoá-- atraem famílias com crianças e grupos de amigos para piqueniques. O centro figurava como a terceira instituição cultural mais visitada no Brasil e a 38º no mundo, em um ranking publicado pela inglesa The Art Newspaper, em 2014.

Enquanto a entourage de Jair Bolsonarofrequentar o CCBB, estarão em cartaz atrações como a peça Uma Relação Pornográfica, com a atriz Ângela Vieira, que trata de uma relação iniciada por um aplicativo de relacionamentos, e uma mostra do cineasta Spike Lee, conhecido pela temática racial e social em seus filmes. Entre os filmes que serão exibidos está Malcolm X, de 1992, que conta a história do ativista afroamericano de mesmo nome, um dos fundadores do Partido dos Panteras Negras.

Divulgação
Apresentação cultural no CCBB de Brasília

O edifício projetado por Oscar Niemeyer e que será ocupado pela equipe de transição de Bolsonaro é de propriedade do Banco do Brasil e funciona como sede dos governos de transição por meio de um contrato de cessão. De acordo com o futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, responsável pelas nomeações, Bolsonaro irá para Brasília na próxima semana.

O local é usado para essa função desde 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito para suceder Fernando Henrique Cardoso. Também foi usado por Dilma Rousseff em 2010. O presidente petista também despachou do CCBB entre março de 2009 e agosto de 2010 devido a uma reforma no Palácio do Planalto.

Espaço serviu para investigar ditadura militar

A curiosidade em relação a Bolsonaro e sua equipe é que o presidente eleito tem posições controversas sobre muitos dos temas que são debatidos em atrações e atividades do CCBB.

Bolsonaro, por exemplo, afirma que o regime militar não foi uma ditadura e já homenageou alguns de seus representantes, como o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por torturar a ex-presidente Dilma Rousseff durante o regime de exceção.

Em maio de 2012, o CCBB de Brasília passou a abrigar a Comissão Nacional da Verdade (CNV). O relatório final entregue à então presidente Dilma em dezembro de 2014 aponta 377 pessoas como responsáveis diretas ou indiretas pela prática de tortura e assassinatos entre 1964 e 1985, período da ditadura militar.

Com base em 1.120 depoimentos, 21 laudos periciais e 80 audiências públicas, a CNV recomendou que agentes da repressão fossem processados individualmente na Justiça. Entre os nomes que deveriam ser responsabilizados estava o de Ustra.

Além de espaço de trabalho da CNV, o tema da ditadura também esteve presente no CCBB nas atividades artísticas. Em setembro de 2013, a mostra Resistir é preciso contou a história de artistas e da imprensa na luta contra o regime militar.

A mostra foi idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog, jornalista Vladimir Herzog ser preso, torturado e assassinado no DOI-COD em 1975. Em entrevista ao Programa Roda Viva, da TV Cultura, em julho, Bolsonaro disse duvidar que o jornalista tenha sido vítima da ditadura. No mesmo mês, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil pelo crime.

Discussão sobre diversidade e feminismo

Bolsonaro é réu no STF (Supremo Tribunal Federal) por incitação ao estupro, por declarações feitas à deputada Maria do Rosário (PT-RS) em 2003, e foi acusado de racismo pela Procuradoria-Geral da República (PGR), mas o STF não aceitou a denúncia. Por diversas declarações dadas durante sua carreira de deputado, o capitão reformado do Exército também é tido por muitos como homofóbico.

Entre as obras que passaram pelo CCBB recentemente, algumas estão ligadas à temática LGBT, como L, O Musical, sobre um triângulo amoroso formado por mulheres. A peça que entrou em cartaz em agosto de 2017, com canções da MPB, tinha uma narrativa em que os valores centrais eram o "direito incondicional de amar livremente, sem regras e imune a preconceitos".

"Nos primeiros dez dias de janeiro, foram assassinadas 8 mulheres lésbicas. As ativistas pediram que o espetáculo divulgasse essa barbárie. Acho que ele (o "L") ganhou um lugar de plataforma, de porta-voz. O que está deixando a gente muito feliz", afirmou o dramaturgo responsável pela direção da obra, Sérgio Maggio, ao site Metrópoles, em janeiro.

A obra transgressora do pintor norte-americano de ascendência afrocaribenha e expoente do neoexpressionismo Jean-Michel Basquiat também marcou presença em abril deste ano no CCBB Brasília.

A exposição A arte de Jean-Michel Basquiat passou antes pelo CCBB em São Paulo. Curador da mostra, o holandês radicado no Brasil Pieter Tjabbes conversou com o HuffPost Brasil, em fevereiro deste ano, sobre o elemento racial nos quadros. "Quando saía da galeria, o táxi não parava para ele na rua porque ele era negro. Basquiat viveu muito essa contradição. E ele chamou a atenção em alguns de seus quadros para a falta de diversidade no mundo artístico e para os traumas sofridos pelos negros nos EUA", contou Tjabbes.

Discussões sobre feminismo também fazem parte da rotina do novo local de trabalho de Bolsonaro e sua equipe. Em agosto de 2016, o espaço cultural recebeu o evento "Diálogos sobre o Feminino", para debater temas relacionados à presença das mulheres na arte com representantes da literatura, artes visuais, jornalismo, ciência política e sociologia.

Um dos debates era sobre a autoidentificação de artistas brasileiras como Lygia Clark com as demandas feministas. Também foi discutido o uso do corpo feminino em performances como uma ferramenta de empoderamento, além de questões sobre estética e racismo.

Espaço para meditação, crianças e RAP

Outra atividades do CCBB Brasília são as meditações da lua cheia todos os meses, além de piqueniques e ações voltadas para crianças, somadas ao programa educativo. No último Dia das Crianças, as atrações envolviam música, pintura interativa e oficinas com palhaços, entre outras atrações.

À noite, o local também é usado para festas e shows e já deu espaço a alguns opositores de Bolsonaro. Em agosto de 2016, o rapper Emicida se apresentou nos jardins do CCBB Brasília, com gritos de "Fora, Temer". Nestas eleições, o artista que canta sobre discriminação racial, fez campanha contra o capitão da reserva no manifesto "Rap pela Democracia".