ENTRETENIMENTO
31/10/2018 18:46 -03 | Atualizado 31/10/2018 19:05 -03

O horror está de volta: O legado compartilhado de 'Halloween' e 'Suspiria'

A camaradagem entre os diretores dos dois filmes, tanto os originais quanto os mais recentes, criou uma história interligada fascinante que continua a crescer.

Photo Illustration by Damen Scheleur/HuffPost; Photos courtesy of Universal Pictures, Amazon Studios and Getty Images
Jamie Lee Curtis e Dakota Johnson protagonizam respectivamente

No final da década de 1970, dois filmes de terror muito diferentes redefiniram as normas do gênero crescente. Em 2018, versões modernizadas dos mesmos filmes estão fazendo tudo de novo, num momento em que o terror desfruta de uma presença cultural renovada.

Os novos "Halloween" e "Suspiria" estrearam em outubro com uma semana de diferença entre um e outro; o primeiro gerou bilheterias totalmente insanas e o segundo apresentou um clássico cult eminente a plateias novas. Mas esses dois filmes são incomuns devido aos vínculos profundos que os interligam, desde a amizade entre seus diretores até as correlações entre suas trilhas sonoras, passando pelas maneiras em que suas histórias estão sendo modernizadas.

Quando os "Suspiria" e "Halloween" originais primeiro foram lançados, fortaleceram subgêneros que estavam em crescimento e alçaram seus respectivos diretores à categoria dos diretores A do underground de Hollywood, apesar de cada um deles ser produzido sem orçamento grande e sem o apoio de um grande estúdio. Inspirando-se na série de ensaios "Suspiria de Profundis", de Thomas de Quincy, escritos no clima induzido pelo consumo de ópio, o mestre italiano Dario Argento situou a "Suspiria" de 1977 no gênero italiano giallo, uma tradição barroca que funde elementos dos filmes slasher (subgênero do terror que geralmente envolve assassinos psicopatas que matam com armas de corte), terrores sobrenaturais, exploração erótica e elementos de mistério. Hoje podemos afirmar que "Suspiria" é o paradigma definitivo dogiallo.

Com "Halloween", que chegou aos cinemas um ano mais tarde, John Carpenter criou sua própria magnum opus e popularizou os filmes sobre serial killers, uma vertente que tinha surgido inicialmente com "Psicose", "Noite do Terror" ("Black Christmas") e "O Massacre da Serra Elétrica", mas foi cristalizada com "Halloween", filme que acabaria por parir incontáveis cópias e se manteve como o slasher mais célebre de todos até "Pânico", quase 20 anos mais tarde.

Tanto "Suspiria" quanto "Halloween" tratam de mulheres jovens que mergulham em pesadelos acordados em espaços que deveriam ser de segurança. No "Suspiria" original, Jessica Harper, parecendo uma Branca de Neve, foge de uma renomada academia alemã de dança que ela acaba descobrindo que é comandada por uma seita de bruxas ricas. Em "Halloween", Jamie Lee Curtis vive em um subúrbio tranquilo mas é obrigada a fugir do assassino mascarado Michael Myers enquanto está servindo de babá dos filhos de seus vizinhos. As heroínas sobrevivem, mas mesmo assim são vitimadas pelo mal sobrenatural.

Dario Argento e John Carpenter se tornaram amigos e admiradores mútuos depois de seus filmes estrearem; cada um citava o trabalho do outro como uma de suas influências. "Achei maravilhoso", me disse Carpenter este mês quando lhe perguntei sobre "Suspiria", conhecido por sua paleta de cores alucinante. "Achei o estilo e tudo no filme simplesmente fabuloso."

Coincidentemente, Luca Guadagnino ("Me Chame Por Seu Nome") e David Gordon Green ("Segurando as Pontas"), os diretores responsáveis respectivamente pela sequência de "Halloween" lançada este ano e pelo remake de "Suspiria", também são amigos. Na realidade, Green tinha sido chamado para dirigir "Suspiria" antes de Guadagnino assumir esse papel. Eles desenvolveram o projeto juntos em 2013, e Green redigiu uma versão primeira do roteiro depois de passar tempo hospedado na casa de Guadagnino, nos arredores de Milão.

Falando de seus esforços com "Suspiria", Green me disse: "Seria um terror feito com orçamento grande, numa época em que os filmes da série 'Atividade Paranormal' e outros pequenos trabalhos feitos com imagens encontradas estavam definindo o gênero do horror. Ninguém quis fazer meu filme de horror, uma ópera elegante que custaria US$20 milhões. Então a ideia foi descartada, e depois Luca decidiu dirigir o filme, ele próprio."

Guadagnino, que virou fã absoluto da "Suspiria" de Dario Argento (e também do romance de ficção científica de John Carpenter "Starman") quando era adolescente, ia produzir a interpretação de Green, que, segundo ele, teria divergido da versão que ele próprio acabou por dirigir. "Adoro David", o diretor disse ao site ComingSoon.Net. "Sou grande fã do trabalho dele. Sinto muito orgulho pelo fato de nossos dois filmes de terror saírem mais ou menos na mesma semana. É fantástico."

Como foi o caso com Dario Argento e John Carpenter, a camaradagem improvável entre Guadagnino e Green estende o legado de "Suspiria" e "Halloween", tão profundo quanto excessivamente mitologizado. Parte do folclore em torno desse legado se deve à música evocativa dos dois filmes, que já foi emulada, mas raramente superada. Diversos artigos ao longo dos anos afirmaram que, ao compor a trilha sonora de "Halloween", Carpenter teria se inspirado nas melodias sinfônicas de "Suspiria", compostas e tocadas pela banda de rock progressivo Goblin.

"Eu adorava aquele material", disse o diretor sempre descontraído à Dazed em 2017, quando lhe foi perguntado se o trabalho do Goblin o inspirou. "O jeito como Argento utiliza a música é realmente inteligente. E eu o acho um cineasta que está longe de ter recebido o reconhecimento que merecia."

Em nossa entrevista, porém, Carpenter negou que existisse esse vínculo, dizendo que é apenas lenda. "Não foi uma inspiração tão grande assim, tenho que admitir", ele disse. Antes de refutar a versão definitivamente, ele prosseguiu, gargalhando: "Na verdade, não direi que não foi – apenas porque quero continuar a ter meu nome associado a essa música."

Na realidade, disse Carpenter, a trilha que ele compôs foi inspirada nas aulas de bongô que ele fez com seu pai. Usando um ritmo de 5,4, ele eletrizou suas sequências de perseguição. Contudo, algumas das músicas de "Halloween" realmente guardam uma semelhança passageira com os acordes pulsantes hipnóticos de "Suspiria", que em alguns momentos remetem ao clássico em tom menor "Tubular Bells", cujo timbre discordante virou a música perfeita para acompanhar "O Exorcista", de 1973.

Assim como as músicas compostas por Carpenter para "Halloween" anunciam a presença de Michael Myers antes de o vilão surgir na tela, Dario Argento, que contribuiu para o álbum do Goblin, quis criar um clima ocultista antes de ser revelado que as diretoras da escola de dança também lançam feitiços. "Preciso de música que transmita à plateia que as bruxas estão presentes, mesmo que não haja nada na tela", ele teria dito à banda, segundo o tecladista Claudio Simonetti.

Na nova sequência de "Halloween", que ignora as dez sequências intermediárias da franquia, Carpenter e Green brincam com as semelhanças perceptíveis entre as duas trilhas (sim, John Carpenter voltou para ajudar a compor a música do filme contemporâneo e atuar como consultor criativo). Ao remanejar o protótipo de 1978, Carpenter compôs "The Shape Hunts Allyson", uma faixa cujo sintetizador e percussão ecoam o tema de "Suspiria". Aparecendo mais ou menos na metade da trilha sonora, essa música destaca a afinidade dele e de Green com a fantasia giallo que eles admiram há tanto tempo.

Green e Guadagnino também reveem estilística e tematicamente a dinâmica de gênero um pouco desatualizada de seus predecessores. Desde a década de 1970, "Suspiria" e "Halloween" tiveram detratores que contestaram a violência misógina do primeiro e a opção declaradamente conservadora do segundo de matar as meninas teens sexualmente ativas. As versões de 2018 corrigem as falhas não intencionais de Argento e Carpenter.

Green e Guadagnino destacam a ênfase de seus filmes sobre o elemento feminino. "Acho que sem querer criei um filme de terror muito feminista", disse Green. "Afinal, são três protagonistas mulheres mandando ver e apanhando." Guadagnino já disse que "Suspiria" está "imbuído das ideias da arte feminista", incluindo a de Gina Pane, Francesca Woodman, Judy Chicago e Ana Mendieta.

Na prática, é claro que "Halloween" e "Suspiria" são filmes muito diferentes. O filme de Green é um trabalho de alta intensidade e que agrada em cheio ao público, enquanto o de Guadagnino foi feito num registro mais medidativo – uma inversão em relação aos filmes predecessores. E a trilha sonora deste "Suspiria", composta por Thom Yorke, do Radiohead, não se assemelha em nada ao rugido maximalista sintetizado do Goblin. Soa como Thom Yorke, ele que gosta de lançar lamentos esdrúxulos.

Guadagnino, também italiano, ambientou sua versão de "Suspiria" em 1977. Ele trocou as cores fantasmagóricas de Dario Argento por uma paleta acizentada e psicologicamente nuançada. Susie Bannion, a protagonista americana reprimida representada por Dakota Johnson, chega a Berlim em um momento de tensão política, sem apresentar a mesma resistência à bruxaria que caracterizava a personagem de Harper. À medida que Susie vai sucumbindo aos feitiços matriarcais de Tilda Swinton, uma narrativa mais explicitamente feminista (e mais cruenta) vem à tona, exaltando o vigor da convergência feminina sem fugir de sua brutalidade ocasional. É uma história sobre maternidade, trauma e a busca do poder, relatada por meio da dança, uma forma de arte que é hábil em casar sensualidade e violência. Virar vítima não faz parte do programa. Susie não vai atear fogo ao prédio e fugir.

O objetivo de Green não foi retificar as transgressões de John Carpenter, mas as dos muitos roteiristas e diretores que assumiram a franquia na ausência do diretor original (até hoje Carpenter praticamente não mexeu em nenhum dos filmes "Halloween" desde que co-escreveu "Halloween II", de 1981). A franquia reescreveu várias vezes o destino da protagonista Laurie Strode, encarnada de modo definitivo por Jamie Lee Curtis. Em "Halloween IV: O Dia das Bruxas", ela já havia morrido, mas foi ressuscitada e apresentada como uma vítima traumatizada que vivia escondida em "Halloween H20: 20 anos Depois", de 1998. Michael Myers acabou prevalecendo em "Halloween: Ressurreição", de 2002, matando Laurie depois de ela ter prometido que o reencontraria no inferno. Em outras palavras, Laurie nunca teve a vitória que merecia, deixando em vez disso que torcêssemos por Michael, como é a praxe típica dos filmes slasher.

O novo "Halloween" lhe dá essa vitória. Ao final, é mais a fábula dela que a de Michael.

Quarenta anos depois de o sociopata ter semeado o terror em Haddonfield, Laurie vive em estado de preparo permanente para uma catástrofe final – mas não é uma figura ingênua como as que povoam o gênero do horror há muito tempo (como Mia Farrow em "O Bebê de Rosemary" ou Judith O'Dea em "A Noite dos Mortos-Vivos", por exemplo). Sua paranoia prejudicou sua relação com sua única filha (Judy Greer), e desse modo o novo "Halloween" é mais um filme de terror sobre a maternidade e o TEPT. Convencida (com razão) que Michael ainda vai voltar um dia, Laurie vive física e emocionalmente armada, pronta para combater o bicho-papão que lhe provocou tanto sofrimento. Como Susie no "Suspiria" atual, ela não pretende dar as costas aos horrores que a cercam. Apesar de seus desenlaces totalmente diferentes, os dois filmes resultam em confrontos e revelações. Os malfeitores que geram o pavor e o medo são usurpados.

Mas também emergem corolários mais suaves, apesar de não serem pretendidos. A cena mais desconcertante de "Suspiria", em que os movimentos de dança de Susie tomam conta dos membros de outra aluna, levando-os a se contorcerem em formatos anomais, espelha em certa medida um conceito postulado em "Os Olhos de Laura Mars", suspense giallo light de 1978 concebido e co-escrito por John Carpenter. "Laura Mars" trata de uma fotógrafa ousada (Faye Dunaway) que forma um vínculo visceral com um serial killer e vivencia os crimes dele à medida que ele os comete – mais ou menos como a coreografia de Susie manipula sua colega em tempo real. É uma espécie de catarse demente do tipo que apenas os filmes mais sombrios e perturbadores conseguem provocar.

"Halloween" e "Suspiria" levam adiante um ano repleto de títulos de terror socialmente férteis (pense também em "Um Lugar Silencioso", "Hereditário", "The Little Stranger"), e os paralelos entre a época áurea do gênero, nos anos 1970, e seu renascimento hoje, se adensam. Faz sentido: as duas décadas são eras espinhosas e complicadas na consciência americana – tempos em que os sustos que povoam nossas manchetes influenciam os que invadem nossas telonas.

Como diz Susie em "Suspiria" em tom de ameaça misteriosa: "Por que todo o mundo está tão disposto a pensar que o pior já acabou?". Em Hollywood, porém, o pior às vezes rende os melhores filmes.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.