ENTRETENIMENTO
31/10/2018 11:34 -03 | Atualizado 01/11/2018 10:01 -03

'Halloween': Os bastidores do clássico do terror que ressuscitou em 2018

Uma conversa detalhada com o diretor David Gordon Green sobre o ressurgimento do filme icônico de John Carpenter, com a ajuda de Jamie Lee Curtis.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost Photos: Universal Pictures/Getty

O monstro está de volta.

O Halloween mais recente, em cartaz nos cinemas, é tecnicamente falando o 11º da franquia de terror lançada 40 anos atrás, que pariu o personagem Michael Myers e popularizou as façanhas de assassinos grotescos. Mas desta vez o folclore sempre crescente em torno da cidade de Haddonfield, no Illinois, e seu infame assassino mascarado é irrelevante. David Gordon Green, que dirigiu o novo Halloween a partir do roteiro que escreveu em conjunto com seus amigos de longa data Danny McBride e Jeff Fradley, eliminou toda a mitologia apresentada nas outras sequências do filme original, convertendo seu Halloween numa sequência direta do clássico de 1978 dirigido por John Carpenter.

Isso significa, segundo o novo filme de Green, que Michael nunca perseguiu Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) por um corredor de hospital nem a matou em cima do telhado do asilo psiquiátrico onde ela aguardou seu retorno. Se você já não o fez, pode oficialmente descartar o festival sanguinário demente exibido por Rob Zombie em seu remake enfadonho de 2007 e sua sequência hiperviolenta de 2009.

O que temos aqui, em vez disso, é a história de Laurie – papel que Jamie Lee Curtis concordou em representar outra vez porque Jake Gyllenhaal, surpreendentemente, a persuadiu – retomando uma vida como vítima. "Acho que eu discretamente criei um filme de terror feminista", Green me disse.

Para o diretor, que tem uma conexão visceral com o Halloween original, o fato de ter chegado neste momento foi um acaso feliz. Depois de uma tentativa fracassada de refazer a fantasia de terror italiana Suspiria, que acabou sendo dirigida por seu amigo Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome), Green não via a hora de poder dirigir um suspense que fizesse sucesso junto ao público. Foi nesse momento que Halloween entrou em sua vida, com um simples e-mail do produtor superastro Jason Blum.

Um mês antes da première do filme no Festival Internacional de Cinema de Toronto, à meia-noite de 8 de setembro, o diretor de 43 anos passou pela redação do HuffPost para bater um papo sobre tudo o que diz respeito a Halloween. Green já dirigiu filmes independentes suaves (Prova de Amor, Snow Angels), trabalhos estilísticos que destacaram seus atores (Joe, O Que te Faz Mais Forte) e comédias de estúdio (Segurando as Pontas, Sua Alteza?), de modo que praticamente qualquer coisa que ele fizer agora será diferente. Tenho dificuldade em pensar em um único diretor vivo cuja carreira inclua mudanças de rumo tão grandes. Era precisamente o upgrade que Michael Myers precisava.

Qual é sua primeira recordação de Halloween?

Houve dois filmes que fui proibido de assistir quando era adolescente. Meus pais eram rígidos, e eu era viciado em cinema. Mas não me deixavam assistir a filmes proibidos para menores. Começaram a deixar um pouco mais quando eu estava com 13 ou 14 anos, mas eu queria muito ver A Vingança dos Nerds e Halloween, muito mesmo. Esses dois filmes estavam circulando em meu mundo por volta de 1985, quando eu devia estar na quinta ou sexta série. Eu tinha dois amigos cujos pais eram mais permissivos, e me lembro de ter visto Halloween contra a vontade de meus pais quando fui passar a noite na casa de um de meus amigos. Fiquei tão apavorado que passei mal, vomitei, telefonei à minha mãe para pedir que me buscasse e acabei confessando.

Então agora o círculo se completa e sou eu quem não vai deixar minha mãe ver este filme!

Quando você assistiu a Halloween, em 1985, já tinham saído Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, O Massacre da Serra Elétrica, Baile de Formatura e algumas das muitas sequências desses filmes. Halloween foi seu filme de terror favorito?

Gostei de Halloween e A Hora do Pesadelo. Esses filmes não eram tão assustadores, porque eram divertidos. Freddy Krueger era um personagem tão estranho, carismático, tão vilão, que esvaziava a tensão do filme. O que me assustou em Michael Myers é que ele não revela nada. Ele não tem personalidade, não tem ambições, não tem motivações, ou muito poucas. Ele é simplesmente uma essência primitiva do mal, e isso não nos dá algo do qual sentir medo, porque é tudo. Um sujeito em meus pesadelos que tem o rosto queimado e usa luvas tipo Edward Mãos de Tesoura é assustador porque é chocante, mas Michael Myers entrou em meu subconsciente de uma maneira que não compreendi plenamente quando era garoto.

Há muitos destinos que se pode seguir com um filme de terror, e fizeram Pânico graças ao sucesso desses filmes. Mas eu quis levar adiante o DNA criado por John Carpenter em 1978. Quando o procuramos com essa proposta, ele se interessou tremendamente, e há um ano e meio estamos colaborando em cima disso.

Depois de ser assombrado por Michael em sua pré-adolescência, o que você achou das sequências?

Curti todas como fã que gosta de ver Michael Myers na tela e curte aquela música. Esses filmes não me metem medo. Alguns são asquerosos, alguns são muito criativos. Eles ficam realmente complicados em matéria da mitologia, e é por isso que em nossa versão a gente qualificou tudo isso como lendas, mitos, a evolução da discussão de uma cidade sobre Michael Myers. Optamos por nos ater à simplicidade do primeiro Halloween. Nosso filme é muito fácil de processar e digerir. É simplesmente: "Uma coisa ruim aconteceu 40 anos atrás. Vocês estão preparados para ver mais?"

Como você foi chamado para fazer este filme?

Eu estava em Los Angeles para mostrar uma versão do filme O Que te Faz Mais Forte aos produtores. Eu conhecia Jason Blum [produtor de filmes de terror] socialmente. Acordei no meu hotel com um e-mail de Jason dizendo "você tem interesse na franquia Halloween? Me telefone". Minha reação foi como a que eu tenho quando estou em lugares altos: minhas pernas ficaram bambas. Sabe como é quando você está olhando do alto de um prédio ou de uma ponte e suas pernas ficam um pouco bambas? Eu estava sentado, olhando pela janela do meu quarto de hotel, e minhas pernas estavam tremendo. Tive uma reação muito física àquele e-mail.

Porque você pensou que poderia trabalhar com este filme, que significava tanto para você.

Exatamente. Sem falar que fazia muito tempo que eu queria fazer um filme de terror.

Você já tinha chegado perto disso?

Sim, eu e Luca Guadagnino desenvolvemos Suspiria. Eu escrevi um dos roteiros preliminares. Em dado momento era eu quem ia dirigir o filme, depois de concluir Segurando as Pontas. Conheci Luca num festival e ficamos muito amigos. Escrevi o roteiro de Suspiria com meu mixador de som, Chris Gebert, a única pessoa que já trabalhou em todos os meus filmes. Ele e eu somos grandes fãs dos filmes de terror, então escrevemos um remake do filme. Mas seria um terror feito com orçamento grande, numa época em que os filmes da série Atividade Paranormal e outros pequenos filmes feitos com imagens encontradas estavam definindo o gênero do horror. Ninguém queria fazer meu filme de horror, uma ópera elegante que custaria US$ 20 milhões. Então a ideia foi descartada, e depois Luca decidiu dirigir o filme, ele próprio. É engraçado o fato de nossos filmes estarem saindo ao mesmo tempo. Contei a ele na semana passada.

É uma ligação muito bacana, especialmente considerando que a trilha que John Carpenter compôs para Halloween foi inspirada na música criada pela banda Goblin para Suspiria.

E temos uma deixa inspirada pela Goblin que incluímos em Halloween.

Incrível. Então o que você falou quando Luca resolveu fazer o filme sem você?

Falei "bacana". Isso foi antes de Me Chame Pelo Seu Nome – ele fez os dois filmes seguidos. Eu levei Joe ao Festival de Cinema de Veneza, e Luca mora pertinho de Milão. Eu me hospedei na casa dele. Fizemos alguns bons jantares e falamos de Suspiria.

Quem faria parte de seu elenco de Suspiria?

Já tínhamos Isabelle Huppert, Isabelle Fuhrman e Janet McTeer. Tínhamos um elenco muito bacana. Muitas atrizes ótimas. Mas não conseguimos o dinheiro. É isso que é tão estranho neste ramo. Às vezes você pensa 'cara, fiz um filme que foi um sucesso tremendo [Segurando as Pontas], mas, como não foi um filme de terror, ninguém dá a mínima. É mais fácil para mim optar por fazer Sua Alteza? por US$50 milhões.

Parece que estamos virando a página. Parte da atração de Corra! foi o fato de ter sido feito por Jordan Peele, artista de esquetes cômicas.

Verdade, mas penso também que muitos diretores que em algum momento teriam rejeitado os filmes de horror agora os estão encarando como uma maneira de atrair aquele público. E, se esse diálogo entre diretor e público é importante, que para mim é, é uma maneira divertida de dizer "as pessoas estão indo ao cinema por isso".

Hoje o terror é o único outro gênero além dos filmes de super-heróis que constantemente se sai bem nas bilheterias.

Sim, mas os filmes de terror custam um vigésimo dos de super-heróis. Acho que essa é uma de suas qualidades. Você pode se arriscar com intenções artísticas. Os filmes de terror lhe permitem muita liberdade, porque o único objetivo é assustar as pessoas e é possível chegar a isso de várias maneiras, intelectual ou biologicamente. Mas não é preciso seguir as mesmas regras narrativas. É possível ser um pouco abstrato. É uma maneira cool de destacar os maquiadores e artistas de efeitos especiais que estão burilando seu trabalho e de roteiristas poderem injetar seus trabalhos subversivos. Corra! é o exemplo perfeito disso.

Será interessante com este filme também, porque, apesar de já existir uma base consolidada de fãs, há vários setores diferentes dentro da base de fãs da franquia Halloween. Vários de meus amigos já entraram em contato para dizer que não conseguem entender como ou por que eu não quis incluir Halloween 4 em nossa mitologia.

Então você recebeu aquele e-mail e ficou com as pernas bambas. Os roteiros já estavam escritos, não?

Havia alguns, mas eu não li nenhum. Quando você completa um filme, o Sindicato de Roteiristas lhe manda uma carta, e havia uns oito signatários na minha carta. Eu pensei: "Nunca ouvi falar de ninguém aqui". Tecnicamente falando, nosso filme seria Halloween 11; por isso, quando apresento meu roteiro ao Sindicato dos Roteiristas, é o roteiro de Halloween 11. Acontece que há outras oito ou nove pessoas que já escreveram roteiros de Halloween 11 anteriores, entre as quais estamos eu, Danny e Jeff. Nunca li esses roteiros. Tenho certeza que eles são sujeitos bacanas. Eles tiveram uma visão, e esta é a nossa. Então eu tenho que ir lá defender minha causa, para não ter que dividir o crédito com toda essa gente.

Como alguém começa a escrever um filme Halloween? Qual é a primeira coisa a fazer?

Bati um papo com Jason e ele deixou minha cabeça a mil. Fui ao meu escritório, onde tenho uma empresa com Danny [Danny McBride, co-roteirista]. Ele estava morando em LA na época, e eu lhe contei do telefonema que tinha acabado de ter com Jason. Começamos a ter 1 milhão de ideias. Danny me disse: "Quero escrever isto daqui com você". Danny e eu fizemos faculdade juntos. Na residência universitária, nossos quartos ficavam quase um ao lado do outro. A gente assistia a filmes de terror juntos. Já escrevemos um monte de coisas juntos. Então fomos juntos conversar com Jason e apresentar um conceito do filme.

O que é especial na Blumhouse [a produtora de Jason Blum] é que todos seus executivos e profissionais que já conheci são super inteligentes, simpáticos e têm ótimas ideias. Você vai falar com eles e a discussão evolui com entusiasmo, em vez de eles dizerem "vocês não podem fazer isso" ou "não devem fazer aquilo". Ela evolui de maneira muito produtiva, carismática e empoderadora. Todos eles sabem muito sobre cinema e levam a sério a ideia de fazer filmes bons, não filmes comerciais.

Você já conhecia John Carpenter pessoalmente?

Não. Então Danny e eu esculpimos nossas ideias. E trouxemos mais um co-roteirista, um grande fã do gênero terror, um sujeito que também fez faculdade conosco, Jeff Fradley, que trabalhou conosco em Eastbound & Down e Vice Principals. Nós três criamos uma proposta de roteiro. Fomos com Jason à casa de John Carpenter e apresentamos a proposta a ele.

Ele já havia entregue seu "bebê" original a vários diretores, então imagino que não foi tão surpreendente assim que confiasse em vocês.

É verdade. E não sei quanto ele realmente controla, mas para mim foi importante que ele controlasse o filme. É uma propriedade e uma franquia que já o extrapolou. Carpenter diz que não assistiu a todos os filmes da franquia, mas para mim ele é o autor e o padrinho de todos. Teria sido estranho para mim não contar com ele nessa jornada.

Em que momento você decidiu oficialmente ignorar as sequências?

É difícil precisar. Durante algum tempo pensamos em levar em conta o segundo filme. Estávamos escrevendo o roteiro e levando em conta Halloween 1 e 2, mas então desistimos. Não me lembro o que exatamente nos levou a isso, exceto pelo fato de que ficou claro para nós que se Michael estivesse perseguindo uma irmã, não seria assustador. Se fosse uma irmã, ele teria que ter algum tipo de vínculo diagnóstico com alguma pessoa. O que queríamos era um festival de horror aberto a todos. Em que qualquer pessoa pudesse virar vítima. Aquela poderia ser qualquer cidade da América. Michael não teria uma agenda específica.

Então Laurie não é irmã dele?

Ela não é irmã dele. Então resolvemos: "Somos Halloween 1, o final. E agora somos a segunda parte de Halloween 1. Soa mais complicado do que é na realidade. Tratamos disso com bastante simplicidade logo no início.

Estamos tendo essa conversa sobre a mitologia que vocês descartaram, e a única coisa que eu nem sequer encaro como mitologia é o fato de Laurie ser irmã de Michael. Eu simplesmente internalizei esse fato como sendo parte essencial da franquia, apesar de não constar do primeiro filme. Talvez seja porque tenho uma queda pelo aspecto absurdo de Halloween – Ressurreição.

[Ri] Faz você muito bem.

Onde você queria chegar com a patologia de Michael? O primeiro Halloween pode ser lido como uma crítica do complexo industrial da insanidade. De certo modo é a história de um garoto que foi encarcerado em idade impressionável e foi medicado, em vez de ser reabilitado.

Não mergulhamos em nenhuma discussão real dele ou de sua personalidade, e isso foi intencional. Não há história anterior dele. Ele está ali, simplesmente, fazendo coisas ruins. Optamos por dizer "não há justificativa, não houve abuso na infância, não houve história anterior que explicasse".

De certa forma, Michael é um personagem estranho para se escrever, porque ele não te oferece nada. A máscara é um personagem diferente sob diferentes iluminações. Uma leve inclinação da cabeça dele diz o máximo que ele jamais dirá. É como com um gato – pequenas observações, nada mais. Michael não revela nada sobre o que viveu no hospital psiquiátrico; ele não diz nada, apenas está parado ali. Ele observa as coisas.

A gente se pergunta se ele tira a máscara para comer? No primeiro Halloween um período longo se passa entre o momento em que Michael escapa do hospital psiquiátrico e a hora em que ele quase mata Laurie, no final. A gente se pergunta obrigatoriamente: "Será que ele come alguma coisa? Como é que ele vive?"

Verdade. Ele dirige um carro.

Tem isso também. Como ele aprendeu a dirigir?

É espantoso.

Mas assim que começamos a tentar decompor sua psicologia, me lembro que Massacre da Serra Elétrica se beneficia de não explicar nada sobre a família rural de canibais.

Adoro o mistério, o desconhecido. Eu adorava assistir a Unsolved Mysteries ― as recriações de incidentes, e você não sabe o que aconteceu e fica tentando imaginar se houve um desaparecimento, um sequestro ou um crime não elucidado. Sempre tive fascínio enorme por livros como A Sangue Frio. Não sei por que as pessoas fazem coisas que fazem, coisas que acontecem em crimes da vida real em que a gente não entende o pensamento e as motivações dos criminosos. Acho que quando você tenta explicar os psicopatas, essa é uma jornada ao estilo de David Fincher. Achei Zodíaco seu filme mais assustador, e nada é elucidado.

Foi mais ou menos essa nossa proposta: não vamos saber de nada. Talvez algum jornalista apresente uma teoria, mas será apenas isso. Minha própria teoria é que os espectadores montam a mitologia na sua própria cabeça. Todos falamos do que é real e de como Michael chegou àquele carro. Esses elementos são interessantes e criam problemas para os roteiristas resolverem: ele precisa estar usando roupa de mecânico. Vamos encontrá-lo num hospital psiquiátrico e lhe arrumar uma roupa de mecânico. Não existem muitas maneiras de fazer isso. Ele precisa colocar a máscara outra vez, e só então vamos poder ter um filme Halloween. Não haverá um filme Halloween a não ser que ele tenha o macacão de mecânico e a máscara.

Vemos o rosto de Michael Meyers por um breve instante no original. Essa cena trouxe alguma informação sobre a origem de sua aparência?

Na realidade, não. Temos Nick Castle [que representou Michael em 1978] de volta em alguns momentos chaves. E temos dublês. Um cara chamado James Courtney fez boa parte das cenas, e alguns dublês especializados que conseguem levar alguns dos tombos e se sentar em ângulo de 90 graus. Coisas desse tipo..

Esse é um talento especial?

Experimente para ver! Experimente despencar escada abaixo e então se sentar com as costas totalmente retas.

Você tem razão.

Não pode usar os braços!

Mas a câmera tenta não mostrar Michael muito, porque assim que você mostra o rosto de uma pessoa por algum tempo você vê as emoções dela, suas reações, você a vê ouvindo. Os olhos transmitem coisas demais, então nossa câmera procura se esconder dos olhos de Michael. No filme original, Carpenter fala em "olhos mais escuros" e coisas do tipo. Não queremos vislumbrar a humanidade que qualquer ser humano possui. Queremos desumanizá-lo. Há cenas em que vemos Jim Courtney como A Forma, mas a câmera nunca o enfoca por muito tempo.

Você sempre soube que Laurie retornaria à história?

Sempre soubemos, mas não imaginávamos que Jamie Lee Curtis fosse querer fazer o papel outra vez. Talvez apenas porque sua Laurie tinha morrido e que ela sabidamente não ia querer voltar para aquilo – ou, pelo menos, foi essa minha ideia equivocada na época.

Pensamos que talvez fizéssemos como com Batman Begins, que trabalharíamos com novos atores. Mas quanto mais fomos escrevendo, mais vimos que estávamos recriando a voz de Laurie 40 anos mais tarde e, inconscientemente, reconhecendo coisas que a personagem havia dito. "Faça como eu digo", ela diz a Tommy no final do filme. Recebemos uma ligação da Blumhouse: "Ando pensando sobre Laurie. Não vamos descartar a ideia de falar com Jamie Lee Curtis sobre isso. Não vamos prever de cara que ela vai dizer não. Vamos prever que ela tope."

Foi bacana porque eu estava terminando O Que te Faz Mais Forte, e Jake Gyllenhaal, o ator desse filme, é muito amigo de Jamie, porque a conhece desde criança. Jake telefonou a ela e falou como foi trabalhar comigo – os lados bons e ruins. E então ela me telefonou. Mandei o roteiro a ela, e no dia seguinte ela falou: "Eu topo".

A alternativa teria sido escolher outra atriz para o papel ou eliminar a personagem?

É isso o que eu quis dizer com a versão tipo Batman Begins. Você encara como mitologia, tipo a evolução das histórias sobre lobisomens e Frankenstein, e inclui personagens novos, como fez Rob Zombie? Ele optou por essa direção, e a gente foi na nossa. Mas a história não estava indo nessa direção, estava indo na direção de Jamie Lee. Não sei como teríamos feito o filme se ela não tivesse aceito o papel, porque teríamos ficado confusos. Se ela não tivesse reagido com entusiasmo teríamos dito apenas "ok, vamos reduzir seu papel" ou "vamos matar você no primeiro ato" – faríamos o que fosse necessário. Mas ela topou.

Vocês poderiam recriar a abertura de Halloween – Ressurreição.

Exatamente, jogá-la do alto de um edifício. Mas ela foi fantástica e gostou da ideia. Ela era incrível nas filmagens: chegava 45 minutos antes da hora marcada, todo dia, pronta para começar a trabalhar.

Vocês chegaram a discutir outros nomes que poderiam ter feito o papel de Laurie, caso Jamie Lee tivesse dito "não"?

Chegamos, sim, mas todas teriam sido impostoras.

Mas quem são?

Essa é uma pergunta complicada, porque há algumas atrizes ótimas dessa idade, mas a gente sempre volta para Jamie Lee. É uma lista óbvia, mas ninguém a não ser ela seria a escolha evidente.

É verdade que vocês pensaram em filmar uma sequência imediatamente depois de este filme ficar pronto?

É verdade, sim, mas não sei como essa notícia vazou. Pensamos "não seria ousado a gente já fazer dois filmes ao mesmo tempo, apostar tudo?" Acho que fui eu quem derrubou essa ideia. Pensei: "Já imaginou que horrível se o primeiro filme for péssimo e eu tiver que esperar mais um ano para o segundo chegar aos cinemas?"

Teria feito sentido econômico, porque a gente já teria as locações e o elenco. Este é um filme de orçamento pequeno. Temos um bairro, uma casa, uma faca e um sujeito usando uma máscara de cinco dólares.

Até que ponto vocês recriaram o set de Haddonfield como conhecemos a cidade no passado?

É Haddonfield e há algumas recriações específicas, como a sala de aula de Laurie, que agora é a sala da neta dela. Há algumas coisas idênticas, mas na maioria dos aspectos é uma versão deteriorada. Haddonfield, no Illinois, foi filmado em Pasadena, Califórnia, em Halloween 1; agora estávamos em Charleston, Carolina do Sul. Há bem mais rachaduras na calçada, muito mais deterioração. Tirando um porão que construímos numa garagem, foram todas locações práticas.

Se vocês estavam preparados para já partir para uma sequência, imagino que isso quer dizer que vocês tinham uma ideia sólida para ela?

Sim, e para ser franco simplesmente colocamos todas as ideias em um filme só.

E vocês decidirão se querem fazer outro filme quando chegar a hora?

Isso mesmo. Já há gente dizendo "ei, que tal fazer isso ou aquilo, levar a história adiante?"

Pessoas da Blumhouse estão dizendo isso?

Minha equipe técnica. Muitas pessoas da minha equipe estudaram cinema comigo na faculdade. Temos um grupo de amigos muito nerds. Muitos de nós agora vivemos em Charleston, Carolina do Sul. Estudamos na Carolina do Norte, então há uma fusão forte dessas vozes. Passamos nosso tempo de lazer com as pessoas com quem trabalhamos. Se estou batendo papo com alguém na praia, é o cara com quem trabalhei em Halloween. Se seus filhos estão brincando com os filhos de outro casal, e você está curtindo uma piscina com eles, o outro pai é alguém com quem você está trabalhando em Halloween.

Você assistiu ao documentário "78/52" no ano passado?

Não, o que é?

Você adoraria. É ótimo. Ele analisa a cena do chuveiro em Psicose, explorando-a a diferentes contextos críticos e técnicos. Mostra o trabalho extraordinário que Hitchcock teve para encontrar o efeito sonoro perfeito para acompanhar a faca apunhalando o corpo de Janet Leigh, que acho que é semelhante ao que John Carpenter fez em Halloween, gravando uma faca apunhalando uma melancia. Parece muito analógico. Os efeitos sonoros que vocês usaram são tão simples quando apunhalar frutas de dezenas de maneiras diferentes?

O som é sempre uma coisa estranha. Só vou trabalhar esses sons literais, os sons dos esfaqueamentos, na semana que vem. Mas Jamie Lee Curtis faz o som de um bebê chorando, que é superesquisito. Ela tem esse jeito bizarro de chorar como bebê.

Então vocês a levaram a um estúdio de gravação e aí incluíram o choro de bebê dela na cena?

Sim, em uma cena há um bebê chorando. Ela soa exatamente como um bebê chorando.

Mas estou entendendo o que você está querendo saber com essa coisa da melancia. Ainda não cuidei desse som específico. Sei que há alguns estranhos. Temos um efeito sonoro padrão de esfaqueamento, e quando chegarmos à etapa do foley vamos criar alguma coisa singular.

Então o som não é criado digitalmente?

Não. Para fazer o som de um corredor cheio de estudantes, temos uma sala na área de som onde mandamos 30 pessoas ficarem correndo, e a gente grava o som dos pés delas. Tudo é especial para cada cena, a não ser que de vez em quando exista algum tipo de efeito sonoro padrão que eu ache muito bom. Vamos usar melancias e bifes.

É legal saber que as coisas não mudaram muito drasticamente desde os tempos de Hitchcock.

Temos uma tomada em close de uma punhalada no pescoço. Essa é uma cena especial, altamente marcante do filme. Vai ser um som muito específico – só não sei ainda como vamos criá-lo. Terá que ser um som especial.

Você recapturou algumas das tomadas célebres de John Carpenter em que a câmera atua como se fosse os olhos de Michael?

Na realidade estamos usando uma delas. Eu não deveria estar dizendo isso. Mas, sim, temos várias tomadas feitas em que a câmera mostra a visão do personagem. E temos algumas que brincam com esse conceito. Temos algumas tomadas longas e fluidas que são a visão subjetiva de Michael, e então ele entra dentro da cena. Fazemos referência ao que Carpenter fez e acrescentamos nosso toque adicional.

Qual foi o conceito ou a subtrama da qual você teve a maior dificuldade de abrir mão quando desenvolveu o filme?

Nenhum. Usamos todos. Usamos todas as boas ideias que tivemos. Bem, na realidade tivemos algumas ideias para o final que não conseguimos realizar. Não tivemos recursos para isso. Foi uma produção que teve 25 dias para ser concluída – é pouco tempo. Joe teve 31 dias. Eu tinha 25 dias para fazer um filme, então é inevitável que não tenha conseguido realizar todas as minhas ideias. Coisas que eu gostaria de ter tido acesso e possibilidades de fazer, mas para as quais faltou dinheiro. Então houve alguns problemas, mas nós os superamos.

Você tinha um final mais grandioso em mente?

Tinha, sim, em dado momento, mas conseguimos resolver isso. E tivemos o final grandioso.

Como você prevê que o filme será recebido?

Não faço ideia. Não tenho a menor ideia.

É por ser um título que tem tantos fãs, do qual tanta gente gosta muito?

Bem, sinto confiança em que o filme funciona. Ando passando o filme o tempo todo para grupos de pessoas, desde cinco a 50 pessoas ou 300. Coloco todo o mundo numa sala para assistir. Sei que o filme funciona no nível técnico, o suficiente para me deixar satisfeito.

Há muitas pessoas que têm opiniões fortes sobre esta mitologia em particular e que as expressam com força. Não posso controlar os gostos delas, seu interesse por esse personagem ou sua opinião sobre meu trabalho. É em relação a isso que sinto insegurança. Sinto muita confiança no filme neste ponto. Costumo exibir cada filme que faço a muitas pessoas, para ter uma visão de como vai funcionar com o público. Será que preciso incluir algumas cenas cômicas para aliviar a tensão? Preciso inserir alguma coisa surpreendente ou um toque de suspense? Essa "conversa" com o público é realmente importante. O filme vai evoluindo, e eu vou retocando a versão editada, ou então a mostro aos produtores e digo: "Precisamos de mais um pouco de dinheiro, porque descobri tal coisa de uma plateia, então vamos tentar fazer aquilo". O filme é um organismo em evolução.

Agora estou basicamente na véspera de exibir este filme para uma plateia em Toronto que será composta de algumas pessoas que nunca viram o filme original. Serão que vão entender? Será que vão se interessar? Será que consegui criar um mundo que prescinde do filme original para que possa existir por conta própria? Isso não é fácil. Será que consegui criar algo que vai merecer o respeito dos fãs de John Carpenter e do filme original, para que eles entendam meu esforço para honrar seu filme e sintam que consegui fazê-lo? Isso é muito importante para mim. E há os fãs que querem ver Michael Myers fazendo um monte de coisas que ele não faz neste filme, porque essas não foram minhas escolhas.

É tudo muito fora do meu controle. Eu mesmo não sou alguém que curte redes sociais, mas vivemos em um mundo onde as notícias correm rapidamente. Há toda uma gama de opiniões diferentes que serão transmitidas depois de as pessoas assistirem ao filme, que será um mês antes do lançamento nos cinemas (marcado para 19 de outubro). É de meter medo. Mas, ao mesmo tempo, estou achando o máximo. Levei meus últimos quatro filmes seguidos, talvez mais, ao festival de Toronto. É uma plateia fantástica. Adoro esse festival. Sinto muito orgulho do meu filme. É por isso que estamos fazendo este trabalho, porque temos os colhões para isso. O filme falará por si mesmo.

É justo dizer que você nunca antes teve uma experiência como esta em sua carreira, em que você criou um filme tão ansiosamente aguardado e que será tão analisado e comentado?

Nunca antes.

E você vai ter que responder por isso, imagino.

Talvez. Será? Acho que o filme é a resposta. Estou muito feliz pelo fato de este filme estar chegando em um momento em que acho que Jamie Lee tem uma voz realmente forte na cultura popular e tem muitas coisas a dizer sobre o porquê de este filme ser relevante agora, hoje, em oposição a três anos atrás ou daqui a três anos.

Jamie Lee falou publicamente sobre o fato de Laurie retomar as rédeas de sua narrativa, como vítima.

Isso mesmo! É muito bom. Essas são coisas que não foram incluídas conscientemente em nossas intenções para o filme, mas que chegaram em um ótimo momento, com timing perfeito. Acho que, sem querer, criei um filme de terror muito feminista. Afinal, são três protagonistas mulheres mandando ver e apanhando [Jamie Lee Curtis, Judy Greet e Andi Matichak]. Então talvez o timing tenha operado a meu favor neste caso.

Para maior clareza, esta entrevista foi editada e condensada.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Assista ao trailer de Halloween: