POLÍTICA
01/11/2018 16:09 -03 | Atualizado 01/11/2018 18:39 -03

Esquerda arquiteta oposição a Bolsonaro em meio a queda de braço de PT e Ciro

'PT não é o centro do mundo, nem o centro da política no Brasil', diz líder do PCdoB na Câmara

Montagem/Getty Images
Fernando Haddad e Ciro Gomes disputam liderança de oposição a futuro governo Bolsonaro.

Logo após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL), partidos de esquerda e centro-esquerda começaram a se organizar para arquitetar a oposição ao próximo governo dentro e fora do Congresso, em meio a uma queda de braço entre Ciro Gomes (PDT) e PT.

Dizendo-se "traído" pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro, que ficou em terceiro lugar nas eleições, se empenha na construção de um projeto pessoal e lidera em um movimento que isola os petistas das demais siglas de oposição. No início da campanha, Lula e o PT atuaram para impedir o apoio do PSB à candidatura de Ciro, que ficou sozinho na disputa.

"A gente está preparando o Ciro para 2022. Ele vai começar a rodar o Brasil inteiro e continuar avançando em seu projeto nacional desenvolvimentista", disse o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, ao HuffPost Brasil.

"Esse projeto hegemônico que o PT representa, de não ter humildade de fazer autocrítica e de achar que os parceiros só são bons quando os apoiam, é uma realidade que quem está na política brasileira vê permanentemente", completou.

Ueslei Marcelino/Reuters
"O PT acha que os parceiros só são bons quando os apoiam", diz Carlos Lupi, presidente do PDT.

Na Câmara, as lideranças de PDT, PSB e PCdoB se reuniram nesta semana para discutir a formação de um bloco progressista de oposição e não convidaram o PT e o PSol para o debate. Movimento semelhante ocorre no Senado, com aproximação entre parlamentares de PDT, PSB PPS e Rede.

Presidente nacional do PCdoB, a deputada federal Luciana Santos (PE) minimizou a ausência dos petistas nas reuniões e disse que o PT tem papel "importantíssimo na resistência e na articulação da oposição" a Bolsonaro. Aliado histórico do PT, o PCdoB ocupou com Manuela D'Ávila a vice na chapa de Fernando Haddad (PT) à Presidência.

"É natural que as forças políticas tenham conversas bilaterais. O mais importante é entender que, nesse processo, quanto mais gente, melhor", afirmou Santos. "Todos os democratas que se sentem incomodados com as ameaças que o candidato eleito tem feito serão muito bem-vindos."

O líder do PCdoB na Câmara, deputado Orlando Silva (SP), no entanto, disse ver "com naturalidade outros partidos se organizarem para fazer oposição a Bolsonaro". "O PT não é o centro do mundo, nem o centro da política no Brasil." Ele ressaltou, contudo, que nada impede que a esquerda vote unida contra projetos de Bolsonaro. "Há muitos pontos da agenda que são parte da mesma trincheira."

Orlando afirmou ainda que um dos objetivos do bloco com PDT e PSB é conquistar espaço na Mesa Diretora da Câmara e nas comissões.

Com 56 deputados eleitos, o PT continuará com a maior bancada na Câmara. Juntos, PDT, PSB e PCdoB terão 69 deputados na próxima legislatura.

Para Juliano Medeiros, presidente do PSol, a iniciativa das três legendas foi "precipitada".

"Faz poucos dias que Bolsonaro foi eleito presidente e é preciso permitir que os partidos façam suas avaliações antes de sentar para discutir bloco. Não fomos convidados [para as reuniões] e, se fôssemos, diríamos aos companheiros que a hora é de reflexão e que estamos fazendo os nossos debates internos", disse Medeiros. O PSol ampliou de 6 para 10 deputados sua bancada na Câmara.

Esquerda rachada vota unida?

O deputado federal reeleito Ivan Valente (PSol-SP) também avalia que o movimento é, neste momento, precipitado. Ele defende a construção de uma agenda em comum da esquerda na Câmara para evitar retrocessos no governo Bolsonaro.

"Vamos conversar com PT, PDT, PCdoB e PSB para ver como podemos atuar em cima de um programa, e não de interesses partidários", afirmou Valente. "Estão querendo votar neste ano ainda a reforma da Previdência, o [projeto] Escola sem Partido, o Estatuto do Desarmamento. A oposição tem que estar unida para derrotar esse tipo de proposta."

O presidente do PDT também defende a unidade em votações. "Cada um tem um partido, mas vamos nos juntar sempre que houver interesse nacional em jogo", disse Lupi.

Ueslei Marcelino/Reuters
"O PT não é o centro do mundo, nem o centro da política no Brasil", afirma Orlando Silva (PCdoB).

Na avaliação de petistas, a movimentação de Ciro e do PDT para isolar o PT é ainda resquício da disputa eleitoral. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente nacional do partido, disse que "é prematuro pensar em 2022" e que a formação do bloco PDT-PSB-PCdoB não vai impedir a união das forças progressistas nas votações.

Para o deputado Patrus Ananias (PT-MG), é preciso esperar a "poeira baixar". "O processo eleitoral deixa rusgas. Há mágoas de um lado e de outro. Precisa a poeira baixar para a gente conversar em torno de um projeto maior", disse o ex-ministro de Dilma Rousseff (PT).

Nos bastidores, integrantes da bancada minimizam o isolamento. "Quem não vai querer ter 56 deputados do seu lado?", questionou uma petista.

"Estrelismos" na esquerda

Em entrevista publicada na quarta-feira (31) pelo jornal Folha de S.Paulo, Ciro disse não acreditar que sua posição prejudique a união da esquerda contra Bolsonaro.

"Não quero participar dessa aglutinação de esquerda. Isso sempre foi sinônimo oportunista de hegemonia petista. Quero fundar um novo campo, onde para ser de esquerda não tem de tapar o nariz com ladroeira, corrupção, falta de escrúpulo, oportunismo. Isso não é esquerda. É o velho caudilhismo populista sul-americano", disparou.

O desejo de Ciro de se colocar como a grande liderança da oposição pode esbarrar justamente no PT, que na terça-feira (30) lançou Fernando Haddad como o nome capaz de construir uma "ampla frente de resistência". Para os petistas, os 47 milhões de votos que Haddad recebeu no segundo turno, bem como seu discurso após o resultado, o qualificam para a missão.

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Líder do MTST, Guilherme Boulos é uma das vozes dos movimentos sociais na oposição a Bolsonaro.

Além de Haddad e Ciro, a eleição de 2018 fortalece como lideranças da esquerda o coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos (PSol), também candidato derrotado à Presidência, e Manuela D'Ávila (PCdoB), que integrava a chapa com Haddad.

"Guilherme Boulos tem tudo para ser a principal liderança dos movimentos sociais na oposição a Bolsonaro", disse Medeiros, presidente do PSol. "O lado dele é o lado do PSol e do campo político que nós construímos nesta eleição."

Manuela, por sua vez, publicou na quarta-feira em seu perfil no Instagram uma foto na qual faz um apelo à união e uma crítica ao "estrelismo".

"Este momento, mesmo não tendo sido suficiente para vencer, deu o recado e o caminho para todos nós do que o nosso povo quer: unidade generosa, sem hegemonismo, sem estrelismo, todo mundo junto e igual".