POLÍTICA
30/10/2018 10:26 -03 | Atualizado 30/10/2018 11:52 -03

Bolsonaro critica Folha, omite informações e ameaça cortar propaganda

No Jornal Nacional, presidente eleito disse que imprensa que não 'se comportar' não terá mais publicidade do governo

ASSOCIATED PRESS

Um dia após ser eleito presidente da República, Jair Bolsonaro voltou a criticar a Folha de S. Paulo e afirmou que "imprensa que se comportar dessa maneira" não terá mais qualquer propaganda do governo federal.

Em entrevista ao Jornal Nacional exibida na noite de segunda-feira (30), ele disse que a Folha "se acabou" e criticou reportagens publicadas pelo jornal sobre uma funcionária fantasma de seu gabinete, mas omitiu informações.

O capitão da reserva citou o caso de Walderice dos Santos da Conceição, a Wal do Açaí, ex-assessora dele na Câmara dos Deputados que vendia açaí e prestava serviços particulares ao parlamentar em Angra dos Reis (RJ), local em que o presidente tem uma casa.

Reportagem publicada pela Folha em janeiro revelou que o deputado usava dinheiro público para pagar Walderice. Desde 2003, ela figurava como funcionária do gabinete, com salário de R$ 1,3 mil ao mês.

Ao Jornal Nacional, Bolsonaro disse que, em janeiro, quando a Folha visitou a loja de açaí em Angra, a funcionária estava de férias da Câmara. Ele, no entanto, não mencionou que a reportagem retornou à cidade fluminense em agosto e Walderice estava vendendo açaí no horário de expediente da Câmara.

Ela pediu demissão do gabinete em agosto, após esta reportagem. Na época, o deputado confirmou a demissão e disse que o "crime dela foi dar água para os cachorros".

"Ações como essa por parte de uma imprensa, que mesmo te mostrando a injustiça que cometeu com uma senhora, ao não voltar atrás, logicamente que eu não posso considerar essa imprensa digna. Não quero que ela acabe, mas no que depender de mim, na propaganda oficial do governo, imprensa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente, não terá apoio do governo federal", disse Bolsonaro ao Jornal Nacional.

Na entrevista, o novo presidente também criticou reportagem da Folha publicada em 18 de outubro sobre empresários impulsionarem disparos por WhatsApp contra o PT. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) abriu uma investigação sobre o caso.

"Por si só esse jornal se acabou. Não tem prestígio mais nenhum. Quase todas as fake news que se voltaram contra mim partiram da Folha de S. Paulo. Inclusive a última matéria, onde eu teria contratado empresas fora do Brasil, via empresários aqui para espalhar mentiras sobre o PT. Uma grande mentira, mais um fake news do jornal Folha de S. Paulo, lamentavelmente", disse Bolsonaro.

Globo e Alckmin reagem a Bolsonaro

As críticas do presidente eleito à imprensa provocaram reação de outros veículos de comunicação e de adversários políticos. O jornal O Globo afirmou que Bolsonaro "persiste no erro" ao ameaçar a imprensa com corte de verbas publicitárias, caso se considere atingido por alguma reportagem.

"Como qualquer cidadão, o governante tem todo o direito de reclamar do trabalho jornalístico, mas pelos meios devidos, como a Justiça. Não pode utilizar o poder do Estado para punir veículos por decisão própria, sem qualquer mediação legal. Trata-se de ataque à liberdade de imprensa, protegida pela Constituição", disse texto do jornal.

Derrotado no primeiro turno na disputa presidencial, Geraldo Alckmin (PSDB) criticou a fala do capitão da reserva. "Começou mal. A defesa da liberdade ficou no discurso de ontem", disse em referência ao discurso feito pelo presidente após o resultado do segundo turno, no último domingo (28).

Em entrevista ao HuffPost Brasil na última semana, o cientista político Leandro Consentino, do Insper, apontou os riscos em o Executivo privilegiar abertamente veículos que fazem apenas cobertura favorável ao governo.

"Democracia tem a ver com pressupostos e regras claras, e não tem a ver com os melhores amigos."

Ele lembrou, no entanto, que o governo do ex-presidente Lula (PT) também teve episódios de rixa com os principais veículos de imprensa do País. O petista passou boa parte de seu mandato acusando os jornais e emissoras de TV de "imprensa golpista".

"No começo do governo Lula, fizeram uma reportagem e ele [Lula] tentou expulsar um correspondente do País. São situações muito ruins para um País democrático."

Bolsonaro volta a falar sobre kit gay

Ainda na entrevista ao Jornal Nacional, Bolsonaro voltou a falar do que apelidou de "kit gay" ao responder sobre o que diria para brasileiros homofóbicos, diante de relatos de agressões no País.

O presidente disse "agressão contra um semelhante tem que ser punida na forma da lei. E se for por um motivo como esse, tem que ter sua pena agravada". Ele afirmou ter recebido o rótulo de homofóbico.

"Fui contra a um kit feito pelo então ministro da Educação, [Fernando] Haddad, em 2009 para 2010, onde chegaria nas escolas um conjunto de livros, cartazes e filmes onde passariam crianças se acariciando e meninos se beijando", afirmou Bolsonaro.

Chamado de "kit gay" por setores conservadores, o Escola sem Homofobia (saiba mais aqui), era uma proposta do MEC (Ministério da Educação) de 2011 que nunca chegou às escolas. O objetivo era debater a sexualidade no ambiente escolar, como forma de reconhecer a diversidade sexual e alertar sobre o preconceito.

Em 15 de outubro, o TSE determinou a remoção de vídeos em que o então candidato à Presidência usa a expressão para atacar seu opositor, Fernando Haddad (PT). Na campanha, o capitão da reserva disse reiteradas vezes que o petista, quando ministro, teria distribuído o "kit gay", em referência ao livro "Aparelho Sexual e Cia".

"A difusão da informação equivocada de que o livro em questão teria sido distribuído pelo MEC [Ministério da Educação](...) gera desinformação no período eleitoral, com prejuízo ao debate político, o que recomenda a remoção dos conteúdos com tal teor", escreveu o ministro Carlos Horbach, na decisão.

Na decisão, Horbach lembrou que o MEC já esclareceu a questão. "O próprio Ministério da Educação já registrou, em diferentes oportunidades, que a publicação em questão não integra a base de livros didáticos distribuídos ou recomendados pelo governo federal", diz o texto.