30/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 30/10/2018 15:07 -03

Cristiane de Oliveira: Da incerteza ao sucesso como dona da própria empresa

Grávida aos 14 anos, dona de agência de marketing digital conta que, por vários momentos, acreditou que “não chegaria lá”. Hoje tem clientes até fora do Brasil e sonha em ampliar sua metodologia de trabalho.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Cristiane de Oliveira é a 237ª entrevistada do

Quando a mãe de Cristiane de Oliveira, 38, engravidou, foi uma surpresa. Aos 44 anos, a empregada doméstica já tinha ouvido dos médicos que seu útero não poderia conceber uma gestação. Sabe-se lá como, mas estavam enganados. Do útero desacreditado nasceu Cris, que hoje é uma mulher bem-sucedida à revelia de todos os "nãos" que recebeu ao longo da vida. Dona e diretora de criação da agência #TudoNosso e escritora com livro a ser publicado no próximo mês, ela conta que jamais imaginou estar onde está. "Quando você nasce no Brasil, de uma mulher negra, pobre, dizem que não vai sobreviver, não vai crescer, não vai se formar, não vai conseguir. Eu já tive tanto 'não' na vida que acordo todos os dias em busca de um 'sim'", e com essa positividade que hoje ela é inspiração para outras jovens da mesma origem e classe social que almejam realização.

Apesar de ter uma história notoriamente inspirado, Cris rejeita o rótulo. "Acho uma responsabilidade muito grande. Eu gosto da ideia de troca, minha palavra é troca. Não gosto da responsabilidade de estar de cima. Para mim, está todo mundo no mesmo nível e trocando", explica à reportagem do HuffPost Brasil.

Por muito tempo achei que minha vida tinha acabado.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

A troca hoje acontece principalmente pelas redes sociais, onde a verve escritora aproxima ela de outras jovens mulheres. Mas antes de ser escritora e empresária, ela era a Cristiane moradora de Nova Iguaçu, da Baixada Fluminense, como tantas outras. Alfabetizada por um patrão de sua mãe, que sempre trabalhou como doméstica e teve como lar quartos de empregada, Cris reconhece que "tudo faria crer que jamais chegaria no hoje".

Grávida aos 14 anos, Cris pensou que aquele resultado positivo significaria o fim da sua vida. Por algum tempo, com o avanço da gestação, também. Mas não por si, e sim pelo que as pessoas ao seu redor falavam. Hoje, mãe de três filhos, ela enfrentou opiniões destrutivas em todas as gestações.

"Por muito tempo achei que minha vida tinha acabado. Eu tive relacionamentos complicados, porque eu achava que tinha que ficar neles porque eu tinha que ter alguém pra cuidar dos meus filhos. Eu não me via com capacidade de ser uma mulher independente. Sempre tinha que ter alguém do meu lado, não pela companhia, mas pela obrigação de ter alguém. Eu era mãe e se não tivesse ninguém era puta. Se você tem filho e não tem marido, você é puta", analisa.

Se você tem filho e não tem marido, você é puta.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

Mesmo sendo uma mulher que, até hoje, dá pouca importância à opinião alheia, colocarem em xeque o bem-estar dos seus filhos a balançou. Mas não parou. "Eu tenho uma tia que sempre disse que eu era muito inteligente, em meio a tantas pessoas que tentavam me diminuir, me humilhar. Então eu preferi focar na única pessoa que dizia que eu era inteligente a ficar alimentando as palavras negativas", conta.

A bagagem de morar cada época em uma casa, devido ao trabalho da mãe, ela explica, "desestrutura" um pouco. Por isso, Cris demorou a concluir os estudos básicos, mas quando conseguiu foi aprovada numa universidade federal para cursar Produção Cultural. Por poucos períodos, ela ocupou aquele espaço, mas a trajetória de sucesso dela estava além dos muros universitários. Trabalhou na Secretaria de Cultural de Nova Iguaçu, também como camelô, panfletista e "tudo que você pode imaginar". Hoje, ela é categórica: "minha formação é a vida".

Antes de fundar a agência, Cristiane entrou em um grave quadro depressivo, e ficou internada por 21 dias. Ao sair da clínica, dividiu com Petter, seu futuro marido, que o período a influenciou a compreender melhor como e porque algumas pessoas chegam àquele quadro. Lá dentro, conheceu a si mesma e outras pessoas. Quando saiu, tinha que encontrar uma forma de "esvaziar" a cabeça. Petter aconselhou escrever, e ela desenvolveu: vou escrever um livro. Depois de três capítulos, sentiu que a missão estava cumprida.

Melhorar é algo negado o tempo inteiro, e a culpa quase me consumiu.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
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Poucos meses depois, já com a existência da agência #TudoNosso, Cris teve uma reunião com o dono de uma editora. Conversa vai, conversa vem, ele descobriu que ela tinha potencial para escrita e incentivou que ela terminasse aqueles capítulos iniciados como terapia. Hoje, o livro de ficção está pronto e será lançados em poucas semanas. Mesmo assim, Cris diz que até então nunca havia se imaginado escritora, mas hoje tem festa de lançamento marcada e já planeja escrever outro, junto com Petter, sobre a criação da agência.

Petter é o "reecontro da vida" de Cris. Também dono do empreendimento, surgiu dele inicialmente a ideia de explorar o marketing digital para microempreendedores. A ação chamou a atenção de nada menos que o Facebook Brasil, que projetou a agência e convidou para que ela integrasse o Conselho de Pequenas e Médias Empresas Brasileiras. Com a parceria, além de Nova Iguaçu, Cris também começou a conquistar clientes em outros estados e até em países como Chile e Argentina.

A essência sempre é de dialogar com o micro.

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Com a parceria com o Facebook, além de Nova Iguaçu, Cris conquistou clientes em outros estados e até no Chile e Argentina.

Além do atendimento, Cris promove workshops quando convidada para falar sobre marketing digital em favelas e áreas periféricas do Rio. "É para pessoas que não têm grana, porque a gente sabe que empreender no Brasil não é fácil. Não posso só pensar em cobrar do cara", afirma. E completa: "A gente atende clientes maiores, têm clientes da baixada que estão desde o início, mas a essência sempre é de dialogar com o micro".

A metodologia adotada pela #TudoNosso, de diálogo com o microempreendedor, deveria chegar a mais lugares do Brasil e do mundo, e esse é o sonho de Cristiane. "Depois de nós surgiram várias empresas com foco no microempreendedor, mas muitas ainda não sabem dialogar com ele", afirma a empresária.

Com o crescimento da empresa nos últimos dois anos, Cris teve de deixar Nova Iguaçu, sua "cidade do afeto", como ela chama, para buscar melhor estrutura. Ela aportou na Barra, em um coworking, e estar ali para Cris, também é uma vitória: "Não me preocupo com nada além de chegar e trabalhar". Junto com a agência, ela se mudou também e hoje vive de aluguel no bairro da zona oeste carioca.

O legado para os meus filhos é mesma coisa que minha mãe me passa: caráter, honestidade, sinceridade, verdade, ética e respeito.

Esse movimento, ainda sentido por Cris, causou questionamentos em outras pessoas e em si mesma. Nos outros, sobre uma riqueza inexistente — "dizem que é sorte, mas é sangue na mão de tanto trabalho" —, nela, sobre merecimento.

"O desafio é ter coragem de dizer para si mesmo que fez essa mudança, porque Nova Iguaçu é meu lugar de afeto, e não sentir traindo esse lugar. E outro também é coragem de dizer que eu mereço melhorar. É algo negado o tempo inteiro, e a culpa quase me consumiu", confessa.

Quando você nasce no brasil, de uma mulher negra, pobre, dizem que não vai sobreviver.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O sonho de Cris é que a metodologia adotada pela #TudoNosso, de diálogo com o microempreendedor, chegue a outros lugares.

Com a mudança recente, ela conta que os dois filhos mais velhos ficaram na antiga casa em Nova Iguaçu, para não alterarem suas rotinas. O caçula, de 13 anos, mora também na Barra da Tijuca. Os três meninos são xodó de Cris, que tem um sonho de legado para eles.

"O legado para os meus filhos é mesma coisa que minha mãe me passa: caráter, honestidade, sinceridade, verdade, ética e respeito. Essas coisas que você não compra. Aprendi com a minha mãe que o que é meu, é meu, e que o que é do outro, é do outro. Também quero passar o ser honesto com pouco e com mundo, o respeito. Quando eu vejo um pouquinho disso nos meus filhos, me acho foda, e tudo faz sentido. Eu mesma já passei por caminhos ruins, e a verdade que minha mãe me passou estava comigo e nada de ruim me aconteceu. E é isso que eu quero que eles tenham, passem para os filhos deles", finaliza, emocionada.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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