POLÍTICA
28/10/2018 19:21 -03 | Atualizado 28/10/2018 22:31 -03

Jair Bolsonaro derrota Haddad e é eleito presidente

Com 99,99% das urnas apuradas, Bolsonaro teve 55,13% dos votos contra 44,87% do petista.

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Jair Bolsonaro será presidente do Brasil para o mandato de 2019 a 2022.

Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente do Brasil neste domingo (28), após uma disputa que polarizou o País.

Com forte discurso antipetista, declarações que flertam com o autoritarismo e elogios à ditadura militar, Bolsonaro obteve a maioria dos votos válidos e derrotou Fernando Haddad (PT), que substituiu na chapa petista o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso na Operação Lava Jato.

Com 99,99% das urnas apuradas, Bolsonaro teve 55,13% dos votos, contra 44,87% do opositor. No total, o candidato do PSL teve 57,8 milhões de votos. O candidato do PT contabilizou 47 milhões de votos.

Capitão reformado do Exército, Bolsonaro protagonizou uma transformação no cenário político brasileiro. Canalizou a indignação do brasileiro com o "petismo", mirou nos órfãos de uma política econômica liberal e nos defensores de uma pauta conservadora.

Acompanhe, no vídeo abaixo, as entrevistas ao vivo com especialistas sobre os resultados das eleições.

Com esse foco, Bolsonaro orquestrou uma campanha pautada especialmente no âmbito das redes sociais, o que se agravou após ter sido vítima de um atentado a faca em 6 de setembro. Em recuperação, o candidato teve suspensas agendas públicas e participação em debates eleitorais.

Ele apostou, então, ainda mais na comunicação direta com o eleitor. Mesmo quando foi liberado para participar de eventos televisivos, agora na reta final da campanha do segundo turno, decidiu estrategicamente não ir.

Por outro lado, intensificou os ataques ao adversário no Twitter, apostou em transmissões ao vivo pelo Facebook e concedeu entrevistas a emissoras mais simpáticas à sua candidatura.

Haddad só subiu o tom contra o adversário na última semana. Tentou montar uma frente ampla em defesa da democracia, com o argumento de que o capitão reformado do Exército representava um risco, mas teve dificuldade em fazer a ideia deslanchar — embora nos últimos dias tenha recebido apoios importantes, como do ex-procurador-Geral da República Rodrigo Janot e do ministro aposentado do STF Joaquim Barbosa.

Sonho realizado de Bolsonaro

Para Bolsonaro, a campanha começou há 4 anos. Foi a partir de 2014 que o deputado federal de 63 anos passou a viajar pelo País para difundir suas ideias e posicionamentos. Com o plano em mente, a estratégia incluiu a troca de partido. Após a conquista de respaldo popular, com espólio de 18% nas intenções de voto em janeiro deste ano, ele conseguiu negociar a troca de partido do jeito que lhe fosse mais vantajoso.

Já havia deixado o PP, estava no PSC quando anunciou que se filiaria ao então inexpressivo PSL - Partido Social Liberal. O acordo incluiu afastar o presidente da legenda, Luciano Bivar, empossar Gustavo Bebianno, advogado que se tornou o mentor da campanha, e o comando de diretórios, como do Rio de Janeiro.

Se em maio de 2017, se esquivava de perguntas sobre apoio parlamentar, Bolsonaro percebeu que precisava criar pontes. Apesar do firme discurso de que boa parte dos deputados é corrupta e da missão de se descolar da "política tradicional", ele foi montando sua base de aliados. "Tem muita gente boa", afirmou.

O segundo passo foi resolver as críticas ao fato de não entender de economia. "Alguns idiotas falam que Bolsonaro não entende de economia. Eu falo: 'olha, os 5 presidentes militares, os 5 generais, foram formados em artilharia, infantaria e cavalaria e eles pegaram o Brasil de 49ª economia do mundo e entregaram em 8ª'", disse.

Embora convencido dessa tese, escalou o economista Paulo Guedes para o cargo de 'Posto Ipiranga'. Guedes é fundador do Instituto Millenium e do BTG Pactual e sócio da Bozano Investimentos, além de PhD pela Universidade de Chicago, templo do pensamento econômico liberal.

Crítico ferrenho dos governos social-democratas do PT e do PSDB, o economista propõe a privatização de tudo que for possível vender. "Não há limite", disse à revista Veja.

Bolsonaro, por outro lado, tem histórico estatizante. Os dois divergiram recentemente sobre recriação de um imposto semelhante à CPMF e uma alíquota única para Imposto de Renda. Bolsonaro, entretanto, garante que vai reduzir a carga tributária.

O terceiro passo foi a escolha de um vice para compor a chapa. Foram cotados para o posto nomes como o do senador Magno Malta (PR-ES), da advogada que depois foi eleita deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), o general Augusto Heleno, o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança, mas o único que se firmou foi o general Hamilton Mourão (PRTB).

O vice, que assegura que não será decorativo, admitiu no início de setembro que na hipótese de anarquia, pode haver 'autogolpe' do mandatário com ajuda das Forças Armadas. Ao HuffPost, disse que "as Forças Armadas não podem ficar tocando e o Titanic afundando". Suas afirmações seguiram polêmicas ao longo da campanha; chegou a defender o fim do 13º salário. Tais declarações só dirimiram quando Bolsonaro pediu para que ele ficasse em silêncio.

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Persistência de Bolsonaro

Foi com um discurso em defesa da família, com tons considerados machistas, homofóbicos, racistas e a favor de uma educação "sem viés político" que Bolsonaro se mostrou para o País.

"Não temos que ter privilégio no Brasil, nem para índio, nem para brancos, nem para negros, para gays ou ninguém, somos todos brasileiros", disse ao HuffPost em maio de 2017, o que se tornou um bordão.

O deputado tomou as páginas dos jornais ao declarar no voto em favor do impeachment de Dilma Rousseff que seu ídolo é um torturador. O nome Carlos Alberto Brillante Ustra foi espécie de sombra de Bolsonaro nos últimos anos.

"Pela família e inocência das crianças que o PT nunca respeitou, contra o comunismo, o Foro de São Paulo e em memória do coronel Brilhante Ustra, o meu voto é sim", disse o deputado.

Bolsonaro, que usou a campanha para acusar o adversário de ser "pai do kit gay", aposta no projeto Escola sem Partido como um de carros-chefes para transformar a educação brasileira.

Na segurança pública, uma de suas promessas é flexibilizar o acesso às armas. "O armamento mais que assegura a sua vida; é a garantia da liberdade e democracia de um país", afirmou ao HuffPost Brasil, em maio do ano passado.