29/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 29/10/2018 00:00 -03

Eliane Medeiros, a modelo que faz do vitiligo uma pintura natural em sua pele

Jovem descobriu ainda criança ter vitiligo e hoje quer reduzir desinformação sobre a condição: "A gente é lindo. Porque eu acho meu vitiligo maravilhoso", afirma ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Eliane Medeiros é a 236ª entrevistada do

"Hoje é só aqui em cima do olho, como uma sombra mesmo", explica passando os dedos nas pálpebras com certo orgulho. Uma pintura algo natural em sua pele. É assim que Eliane Medeiros, 21 anos, modelo, vê seu vitiligo hoje. Aos cinco anos apareceu a primeira manchinha, nesse mesmo lugar, em cima do olho. Logo que descobriu o que era, iniciou o tratamento. Mas em um curto período, as manchas brancas se alastraram pelo corpo todo. Hoje, mais de 15 anos depois, ela não faz nenhum tratamento para reduzi-las. As manchas são mais localizadas – e ela ama cada uma delas. "Atualmente eu tenho uma concepção melhor para lidar como meu vitiligo porque hoje eu me aceitei".

Aceitou e encontrou uma carreira. Com esse corpo e essas manchas. Após posar para amigas que trabalhavam com fotografia em Goiânia, onde mora, e divulgar as fotos nas redes sociais, uma agência de São Paulo a chamou para fazer uma campanha publicitária. Assim, do jeito que ela é. "Fiz e a repercussão foi bombástica, fiquei muito feliz! Fui a primeira pessoa com vitiligo a aparecer em uma campanha publicitária e muita gente veio falar de forma positiva comigo e estar aqui na frente é uma responsabilidade muito grande e eu tendo vitiligo sei que passo uma mensagem que nada mais é do que de aceitação".

É uma condição muito visível então você anda na rua e está todo mundo te olhando o tempo inteiro e às vezes os olhares falam muito.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela compartilha sua história com naturalidade porque acredita que pode ajudar outras pessoas a se verem além das manchas na pele.

Para ela, esse foi o grande segredo. Mas não foi fácil. Após anos de tratamentos desgastantes e de sofrer com sua condição por causa da forma como era tratada pelas outras pessoas, ela percebeu que na verdade não se incomodava nem um pouco com suas manchas. Mas no início era uma grande dificuldade lidar com os olhares de estranhamento, gente que atravessa a rua para não passar perto e com a falta de conhecimento das pessoas sobre o vitiligo. "É uma condição muito visível então você anda na rua e está todo mundo te olhando o tempo inteiro e às vezes os olhares falam muito, só de ver que alguém afastou um pouquinho porque tem medo de pegar... E minha mãe ficava chateada porque via o reflexo que dava na sociedade, a forma como as pessoas me tratavam e ela se sentia mal por causa disso e fazia tratamento para que eu não sofresse".

No entanto, quem mais sofria com o tratamento era Eliane. Ela lembra que em um deles – testou vários ao longo dos anos – tinha que passar uma pomada em cima de cada manchinha do corpo. Sem paciência, espalhava logo por toda parte. Em outro, era necessário passar a pomada e ficar no sol por meia hora. "Meia hora de frente e meia hora de costas, nua. Para mim era constrangedor, eu tinha que ficar no quintal de casa, era muito ruim. Enfim, são os mais diversos [tratamentos] e em geral tinha que ser diário e mais de uma vez ao dia. Eu não queria fazer aquilo".

Eu tendo vitiligo sei que passo uma mensagem que nada mais é do que de aceitação.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"É uma condição muito visível então você anda na rua e está todo mundo te olhando o tempo inteiro e às vezes os olhares falam muito."

Apesar de ser uma condição considerada sem cura, Eliane enfatiza que não há nenhuma outra complicação, a não ser as manchas na pele. "É só uma despigmentação da pele, mas que não causa mais nada, não machuca, nada. Tenho que ter cuidado diário com a pele com protetor solar e só isso. Não tem nenhum outro problema, não prejudica a gente de nenhuma outra forma".

Assim, ainda adolescente, resolveu parar com os tratamentos. Após um desses episódios em que pessoas se afastavam dela na rua com receio de "pegar aquilo", Eliane conta que ficou muito triste, foi para o fundo do poço, mas se deu conta de que o incômodo não era – e nunca tinha sido – dela. "Eu não me incomodava com meu vitiligo. E fique pensando que não precisava me esconder porque tem gente que me ama como eu sou, eu gosto da forma como eu sou, só me incomodava com a reação dos outros. A partir do momento em que vi isso me aceitei e falei que não estou nem aí, eu sou desse jeito, eu me amo assim e não interessa mesmo o que os outros pensam".

É só uma despigmentação da pele, mas que não causa mais nada, não machuca.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"A gente é lindo. Porque eu acho meu vitiligo maravilhoso."

E assim foi. Parou de vez com os medicamentos. Nunca foi a intenção dela, mas Eliane conta que depois disso as manchas em seu corpo até diminuíram. "[Sentia que] ninguém gostava de mim por causa do meu vitiligo e eu ficava muito triste, chegava em casa e chorava no banheiro, não contava para minha mãe, para ninguém e guardava tudo para mim e o fato de eu ficar guardando, como vitiligo tem influência emocional, aumentava muito mais [as manchas]". Quando parou de ter essa preocupação, o efeito foi inverso. "Você fica tão preocupada com o que as pessoas pensam que faz aquilo crescer. Pra quem não se aceita é isso...quanto mais você se preocupa, mas ele vai aparecer". Hoje para ajudar outras pessoas, ela faz o que pode para difundir informação sobre o vitiligo, deixar claro que não é contagioso e que não causa nenhum outro prejuízo à saúde física.

A gente é lindo. Porque eu acho meu vitiligo maravilhoso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Você fica tão preocupada com o que as pessoas pensam que faz aquilo crescer", afirma Eliane.

Tudo isso sempre aliado a pauta de aceitação e acolhimento. Ela abraça essa causa porque vê que mesmo com mais discussão sobre o tema, muitas vezes as abordagens ainda são de tratamento ao vitiligo e nem sempre há espaço para falar de forma mais natural sobre a vida com vitiligo. "Respeito a vontade de outras pessoas em quererem seguir com o tratamento porque eu sei que são vivências diferentes. Eu passei por essa fase de rejeição a mim mesma, autopreconceito e conseguir me aceitar foi um marco para mim, mas ainda tem coisas que machucam então é um trabalho diário de autoestima, aceitação e de mostrar que é possível a gente viver bem do jeito que a gente é, e que a gente é lindo. Porque eu acho meu vitiligo maravilhoso. Faz parte da minha identidade, não consigo me ver sem o vitiligo".

Respeito a vontade de outras pessoas em quererem seguir com o tratamento.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
É com o Coletiviti que ela quer ajudar, de fato, outras pessoas a se enxergarem de forma mais generosa.

E ela não é a única que pensa assim. Tanto que há alguns meses se juntou com um grupo de pessoas que também têm vitiligo e formou o Coletiviti. Eliane acredita que compartilhar sua história e expor com naturalidade quem ela é pode ajudar outras pessoas a se aceitar e a enxergar além dessas manchas na pele. Um desafio. Mas que hoje ela encara com tranquilidade e segurança. "Tem gente que fala que vai me ensinar um tratamento que vai fazer eu me curar rapidão, ensina cada simpatia, todo tipo de coisa. Ai falo que eu me aceito do jeito que eu sou e vem umas respostas: 'sério? Você é tão jovem, ia ficar tão bonita'. E aí eu falo que eu sou bonita do jeito que eu sou!".

Com orgulho. Sem necessidade de esconder nada.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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