POLÍTICA
28/10/2018 08:01 -03 | Atualizado 28/10/2018 08:31 -03

Eleição de São Paulo ocorre após campanha em clima de 'quinta série'

Doria e França trocaram acusações e xingamentos e chegam empatados ao segundo turno

Associated Press
Márcio França e João Doria: Climão de 5ª série marca disputa pelo governo paulista.

Principal colégio eleitoral do País, São Paulo terá neste domingo (28) a disputa mais acirrada desta eleição. O ex-prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) e o governador Márcio França (PSB) chegam ao dia decisivo do segundo turno tecnicamente empatados, segundo pesquisas Datafolha e Ibope publicadas neste sábado (27).

Os candidatos, que em um passado não muito distante chegaram a caminhar juntos no meio político — França, quando era vice-governador do estado, ajudou a pedir votos para Doria ser eleito prefeito de São Paulo —, passaram quase toda a campanha do segundo turno mais preocupados em agredir um ao outro do que em apresentar propostas, em uma briga com jeitão de "5ª série" (quando pré-adolescentes trocam ofensas e atribuem apelidos).

De um lado, Doria buscou rotular França de "socialista", "esquerdista" e até "petista" por integrar o PSB, que declarou neutralidade na eleição nacional. O tucano colou sua candidatura à de Jair Bolsonaro em nível nacional. Por sua vez, França tachou o adversário de "traidor", que "não honra a palavra", por ter tentado passar uma rasteira no padrinho político, Geraldo Alckmin, e ter deixado a prefeitura de São Paulo muito antes de completar o mandato — justamente para concorrer a governador do estado.

Foi assim no primeiro turno, tão logo França começou a crescer nas pesquisas de intenção de voto. João Doria, que antes tinha Paulo Skaf (MDB) na mira, voltou sua metralhadora verbal para o ex-aliado, com direito a uma propaganda eleitoral que acabou gerando muita polêmica.

Em uma peça publicitária de aproximadamente 29 segundos, Doria utiliza uma imagem antiga do candidato do PSB, que era obeso, mas emagreceu por conta de uma cirurgia feita em 2017 para redução do estômago e, consequentemente, diminuição dos níveis da diabetes.

"Parecem dois candidatos diferentes, mas a história é uma só. Foi amigo e participou do conselho político do Lula. E também apoiou o Haddad a pedido do Lula. O candidato Márcio França gosta de falar que é novo, mas não gosta de falar de suas velhas alianças com o PT", diz a narrativa do programa.

A resposta de Márcio França ao vídeo de Doria foi dura e, desde então, os contra-ataques por parte do candidato do PSB também se tornaram constantes.

Bate-boca de França e Doria ao vivo

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França x Doria: Clima foi quente no debate da Band.

Depois desse primeiro "round" vieram paródias com musiquinhas provocativas, vídeos vazados na internet e uma série de outros capítulos, mas um dos ápices da briga aconteceu no debate transmitido pela Band.

Na ocasião, Doria chamou o adversário de "velho político" e de "carreirista", enquanto França retrucou afirmando que o ex-prefeito "foi condenado duas ou três vezes pela Justiça Eleitoral apenas pelas mentiras contadas sobre o debate" e que Doria "se agarrou ao Bolsonaro depois de tanto xingar, e o coitado fugiu dele no Rio de Janeiro".

O clima foi um pouco mais ameno no debate seguinte, dia 23 de outubro, no SBT. A troca de insultos enfim deu lugar a apresentação de propostas de governo.

A segurança pública foi bastante explorada, com o candidato tucano prometendo encampar a briga pela redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e o rival do PSB retrucando com a intenção de tornar a polícia de São Paulo "a mais bem paga do País".

Especialista vê cenário indefinido e brigas 'normais'

Para Renato Ribeiro de Almeida, doutor em Direito do Estado pela USP e membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, o cenário envolvendo o governo paulista está indefinido e será decidido voto a voto.

"Está bem equilibrado. Além disso, experiências recentes mostram erros nas pesquisas, com candidatos que não estavam bem cotados surpreendendo na apuração, como aconteceu em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e aqui mesmo em São Paulo, já que o (Márcio) França sempre aparecia atrás do Skaf", lembrou.

O especialista também comentou sobre as estratégias de campanha adotadas por França e Doria e comparou com o que sua ex-cliente, a senadora eleita por São Paulo Mara Gabrilli (PSDB), enfrentou até a vitória selada no 1º turno.

"Vejo uma polarização de forças tanto no cenário doméstico quanto no nacional, com fake news e ofensas de parte a parte acontecendo, o que causou uma enxurrada de direitos de resposta para os dois lados desde o 1º turno. Isso se deu também nas campanhas majoritárias, como a da Mara Gabrilli", lembrou.

Para Almeida, que defendeu a agora senadora federal em uma ação e conseguiu retirar de circulação vídeos que tentavam ligar o nome de Mara Gabrilli ao fascismo, a era das redes sociais é a principal responsável pelo clima que envolve as eleições 2018.

"Mudou bastante o cenário e a TV está apenas refletindo o que acontece nas redes sociais e se espalha com maior velocidade", concluiu.